Uma das várias vezes em que Prestianni e Vinícius trocaram palavras durante o Benfica-Real Madrid do Estádio da Luz
Uma das várias vezes em que Prestianni e Vinícius trocaram palavras durante o Benfica-Real Madrid do Estádio da Luz

SOS Benfica! Clube e jogador têm de recuar já

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de João Duarte, fundador e CEO do YoungNetwork Group

Isto queima. Não há escapatória possível. Podemos invocar a presunção de inocência, podemos nadar nas águas de bacalhau das leituras técnicas, das versões contraditórias ou das provocações causa-efeito («aquela mulher de mini-saia que estava mesmo a pedi-las...»). E em cima disto, há momentos em que a perceção pública se impõe à estratégia jurídica.

O jogador errou. Errou porque (supostamente) insultou. E errou porque não assumiu o descontrolo, de imediato, no final do jogo. E a comunicação do clube ajudou na festa. Não só não mitigou a situação, como a exponenciou.

É muito difícil sustentar a hipótese de que nada foi dito, de que tudo foi invenção, de que Vinícius Júnior teria corrido de forma enérgica para o árbitro, no calor do jogo e do golo, para fabricar um insulto racista proferido por debaixo de uma camisola. Essa tese não colhe um pingo de credibilidade na escala mediática em que este caso já se move.

E o Benfica errou também. Errou pela reação inicial, pelo discurso do treinador, pela narrativa tíbia e algo esdrúxula que se seguiu. Quando a crise é racismo, quando o tema queima no palco mundial, não se responde com clubismo doméstico. Responde-se com medidas e comunicação à prova de bala.

Mourinho diz que é sempre o mesmo protagonista. É verdade. Tem a coragem, o estatuto e a dimensão mediática para pôr o tema na agenda global. E ainda bem. Que nunca se cale, que nunca deixe de interromper todos os jogos necessários. O combate ao racismo é de todos os dias.

A reação mundial está a ser esmagadora. Presidente da FIFA, figuras como Thierry Henry, Rio Ferdinand, Wayne Rooney, Lewis Hamilton e tantos outros já condenaram. Quando o caso ultrapassa fronteiras e entra na esfera moral global, já não é apenas um problema disciplinar. É reputacional.

O futuro próximo não vai fugir muito disto: o jogador será condenado exemplarmente. E quando isso acontecer, se o Benfica estiver agarrado à narrativa da dúvida, da palavra de um contra a palavra do outro, irá ser arrastado na corrente de lama.

A saída é clara: damage control imediato. Recuar já. Assumir já. Pedir desculpa já.

O jogador deve reconhecer o erro sem «ses» condicionais. O clube deve acompanhar com uma posição inequívoca contra qualquer forma de discriminação. Mais. Deve ir além das palavras.

Medidas concretas? Formação obrigatória em diversidade e inclusão para todo o plantel e estrutura técnica, parcerias com organizações de combate ao racismo e apoio público a campanhas institucionais. E ainda mais além: uma iniciativa própria, financiada pelo clube, que deixe marca estrutural e não apenas comunicacional.

Crises destas não se resolvem negando. Resolvem-se assumindo.

O Benfica é maior do que um jogador, maior do que um episódio, maior do que uma narrativa mal construída. Mas só continuará a sê-lo se perceber que, no futebol global, reputação vale tanto como títulos.

Se não sair disto agora, a águia sai ferida. Racismo não se apaga com CIF, fica tatuado na pele.