Mourinho de «duas caras» e um aviso: «Se Prestianni jogar no Bernabéu...»
O alegado insulto racista de Gianluca Prestianni a Vinícius Jr., durante o Benfica–Real Madrid, continua a dominar o debate no futebol europeu e, em particular, em Espanha. No podcast Minuto 116, Tomás Roncero, jornalista do AS e assumido adepto merengue, reagiu de forma contundente ao episódio, deixando críticas duríssimas tanto ao jogador do Benfica como a José Mourinho.
Logo a abrir, Roncero classificou o sucedido como «uma mancha para o futebol e um golpe duro»: «Tudo o que seja um ato de racismo cobarde e repulsivo como o que o Prestianni fez, dá-me muita raiva. Foi logo após uma obra de arte. Ou seja, o Vinícius marca um golo que é para dar a volta ao mundo, pela beleza. Celebra-o a dançar, com felicidade. E, a partir daí, tudo se converte num pesadelo. Primeiro, o árbitro, que não entendi por que lhe mostrou o cartão amarelo. Parece que, como a bancada estava a cair-lhe em cima por ele ter celebrado, dá-lhe o cartão amarelo como que para acalmar as massas. Uma coisa surrealista. E depois, quando o Prestianni tem a vergonhosa e cobarde atitude racista, e que ainda por cima, como é um cobarde, não teve a coragem de o reconhecer, negando-o de forma ardilosa nas suas redes sociais... mas nisso nem ele acredita. Ele disse-o. Afirmo: ele foi racista e insultou-o com um insulto racista. Agora, se é um cobarde e não assume os seus atos, o problema é dele.»
«Prestianni, que é um jovem de 20 anos, que até posso admitir que não o tenha feito por maldade, mas fê-lo para provocar. Mas se ele entende que provocar é usar um insulto racista, está a cair na armadilha. Porque ele faz isso porque sabe que o Vinícius vai explodir. Pois, evidentemente, o Vinícius cortou isso pela raiz como deve ser feito: denunciando-o. O árbitro, nisso sim, reagiu bem, aplicando logo o protocolo contra o racismo e, bom, o jogo esteve suspenso dez minutos. Os dois treinadores tiveram mais ou menos uma atitude coerente de apaziguar os ânimos, mas sem esquecer o que tinha acontecido. O jogo já se jogou, evidentemente, condicionado pelo ocorrido. O importante é que está denunciado. A UEFA abriu um processo, o Real Madrid já deu toda a documentação e a FIFA, através de Infantino disse ontem que estava envergonhado com o que tinha acontecido e que este tipo de atos tem de ser travado com contundência. Espero que a UEFA seja consequente e dou como certo que o Prestianni não vai jogar o jogo no Bernabéu. Porque, se jogar, vai haver confusão... », acrescentou.
«Que Mourinho peça perdão ao Vinícius pela sua mesquinhice»
As palavras mais duras, contudo, foram dirigidas a José Mourinho. «O Mourinho mostrou duas caras. Uma cara nobre, coerente e totalmente razoável com o que aconteceu durante aqueles dez minutos. Depois, de repente, o Mourinho veste a camisola do Benfica e diz o contrário. Dedica-se a fazer algo que eu não lhe perdoo: que é justificar o insulto racista explicando que o Vinícius provocou com a celebração do golo. Para mim, havia poucas possibilidades de o Mourinho voltar ao Madrid. Agora há zero possibilidades de o Mourinho voltar ao Real Madrid. Fechou as portas porque atacou o coração do Real Madrid. Não podes ver alguém que sofreu um insulto racista com a camisola branca, com a sagrada camisola branca, e justificá-lo dizendo que foi ele que o provocou. Espero que um dia o Mourinho tenha a hombridade de lho dizer na cara, pedindo perdão ao Vinícius. Mas que o faça também em público. Que peça perdão ao Vinícius pela sua mesquinhice. É inadmissível.»
«O Mourinho é uma pessoa de interesses. Se fala num sítio, diz-te uma coisa; se fala noutro, diz outra. Portanto, não tem assim tanta personalidade. Agora, engraxou as botas ao pessoal do Benfica, pois são eles que lhe pagam. Mas depois que não venha dizer que ama o Real Madrid. Tivesse-o demonstrado no dia em que precisávamos. E recordo ao senhor Mourinho as danças que ele fez e como celebrava os golos a correr a linha lateral inteira em Stamford Bridge, na cara dos rivais, a mandar calar a bancada, a subir para cima dos ombros do José Callejón em Mestalla, de joelhos a deslizar... o que me parece muito bem. Mas vais criticar o Vinícius por celebrar um golo a dançar? Um golaço? Ofendeste todo o madridismo ao quereres justificar um insulto racista repugnante. Isso chama-se cobardia», acrescentou.
As críticas de José Mourinho à arbitragem também não caíram bem junto do jornalista. «Numa noite em que esteve muito infeliz, essa foi a cereja no topo do bolo. O árbitro não tinha nenhuma notinha. Os três que ele nomeia... não há nenhuma jogada que se diga que deviam ter visto o cartão. Portanto, é um argumento absurdo. Além disso, se depois andas a dizer que és tão do Madrid, estás a dizer que ao teu Real Madrid o árbitro vai predisposto a ajudá-lo? Na Europa? Com o que o Madrid tem sofrido com o tema da arbitragem, atreves-te publicamente a dizer que um árbitro vai predisposto a ajudar o Real Madrid? Ficas desacreditado como madridista. Nesse momento, o Mourinho demonstrou que é um pseudomadridista. Porque atacou o coração do Madrid.»
«O Benfica é um clube imperial, senhor e vencedor. O Benfica ganhou as duas Taças dos Clubes Campeões Europeus seguintes às cinco consecutivas que o Real Madrid ganhou. O Estádio da Luz será sempre um estádio que trará aos madridistas recordações maravilhosas pela Décima. Mas em todos os clubes grandes há momentos em que alguém o mancha. Manchou-o o Prestianni, com um insulto racista vergonhoso e cobarde por não o querer reconhecer e manchou-o o Mourinho com as declarações que fez depois do jogo, justificando o insulto racista. Mas o Benfica tem de estar acima disso. O Benfica é o grande clube de Portugal. O que acontece é que há duas pessoas que não estiveram à altura. O Prestianni, pelo que fez, que foi indefensável, vergonhoso e espero que sancionável. E o Mourinho, por lhe procurar uma desculpa, um álibi para o que o seu jogador fez, para tentar desviar as atenções. Então Mou, Prestianni, os dois têm uma saída muito fácil: é pedirem desculpa. Toda a gente tem direito a enganar-se e a pedir perdão. Com humildade, peçam perdão os dois. Tiveram uma noite muito má. Estão a tempo de retificar», concluiu.