Rafa veio criar um problema
No meio do turbilhão que foi o Benfica-Real Madrid e o seu pós, com mais um episódio da longa sequela de casos com Vinícius Júnior como protagonista, pouco se falou de futebol. É pena. Se José Mourinho tinha tido muito mérito na forma como abordou o primeiro jogo contra o Real, na última jornada da fase de Liga, desta vez a equipa não soube desamarrar-se da teia espanhola.
Arbeloa aprendeu com a hecatombe de 28 de janeiro e soube fechar a porta ao Benfica, que pouco conseguiu criar. E, do banco, Mourinho não foi capaz de incutir outro nervo na equipa a partir do banco: Ríos e Lukebakio, sem ritmo para um jogo desta dimensão após tanto tempo parados, pouco ou nada acrescentaram. É certo que todo o contexto, por se tratar, agora, de uma eliminatória a duas mãos, obriga a outras cautelas e há um segundo jogo para jogar, mas há ilações que podem ser tiradas.
E é difícil, com base na meritocracia, encontrar justificações plausíveis para que Rafa tenha passado a ser titular e Sudakov suplente para jogar aos quartos de hora de cada vez, porque a eficácia do jogo do português depende muito da sua capacidade física e essa, depois de várias semanas sem jogar e em greve no Besiktas, está, nesta altura, muito longe de ser a ideal. Na noite de quarta-feira, de gala na Luz, Rafa passou completamente ao lado — e, por isso, a nota 3 na avaliação de A BOLA.
Um brutal contraste com o jogador que saiu há ano e meio e que se tinha tornado num especialista de Champions, carregando a equipa e assumindo a responsabilidade nestes grandes jogos, sobretudo na primeira época de Roger Schmidt (10 jogos, 5 golos e 1 assistência). Não duvido da capacidade individual de Rafa para somar, nos meses que faltam até final da época, golos e assistências e desatar jogos que estejam complicados, mas, já nem falando da razoabilidade do negócio em si, pagando para fazer regressar um jogador que ano e meio antes tinha (legitimamente) recusado renovar para mudar de ares, as peças não estão, por agora, a encaixar.
José Mourinho andou aos papéis durante largos meses, experimentando várias fórmulas que não funcionaram, até que as lesões de Lukebakio e Ríos permitiram descobrir a melhor versão da época do Benfica, com Sudakov nas costas de Pavlidis. Foi assim que a águia se tornou mais equipa, mais imaginativa e encostou o Real às cordas, a 28 de janeiro. Com Rafa, jogador de impulsos ao longo do jogo, a equipa perde clarividência na hora de se organizar no último terço.