Clubes alemães em revolta contra multas por pirotecnia
Os clubes germânicos estão em crescente descontentamento com as pesadas multas impostas pela Federação Alemã de Futebol (DFB) devido ao uso de pirotecnia por parte dos seus adeptos. Só este ano, o valor total das sanções já ultrapassa os dois milhões de euros, incluindo a terceira divisão, e a tendência é de forte aumento.
Um dos casos mais recentes envolve o Union Berlim, que enfrenta uma possível multa recorde de até 900.000 euros. A sanção surge na sequência de uma celebração com tochas durante uma coreografia de aniversário no jogo contra o Eintracht Frankfurt (1-1), que obrigou à interrupção da partida. Sendo reincidente, o clube da capital deverá ultrapassar o Hamburgo, atual líder na tabela de multas.
A principal fonte de discórdia é o destino dado ao dinheiro das multas. Dois terços do valor são encaminhados pela DFB para as suas fundações, que apoiam causas como o futebol para cegos, sem-abrigo e reclusos. Nos últimos quatro anos, este valor ascendeu a 21,457 milhões de euros. Apenas um terço da verba pode ser reinvestido pelos clubes na segurança dos seus próprios estádios.
Vários clubes manifestam a sua frustração, argumentando que as sanções, apesar de financeiramente pesadas, não estão a ter o efeito dissuasor pretendido. Tarek Brauer, diretor do Werder Bremen, afirma que as multas para o seu clube atingem «a casa das centenas de milhares de euros por época», mas que «não se verifica uma redução sustentável do uso de pirotecnia a nível nacional».
«Quando se cobram milhões, esperamos um efeito mensurável. A realidade mostra que esta dissuasão não funciona», critica Brauer.
Esta opinião é partilhada por outros emblemas. O St. Pauli refere que «as multas não têm efeito dissuasor sobre os adeptos» e que «não resolvem nada, mas sobrecarregam enormemente os clubes». Também o rival Hamburgo nota que, embora o impacto financeiro seja «claramente percetível», o mais importante é o efeito prático, e que «a pura dissuasão não produziu o efeito desejado no passado».
A ineficácia das multas é corroborada por dados oficiais. O relatório da Central de Informação para Operações Desportivas (ZIS) revela que na época 2024/25 foram registadas 4.783 infrações relacionadas com pirotecnia nas três principais ligas, um aumento de 73% face à temporada anterior. Estes incidentes resultaram em 95 feridos, entre polícias, seguranças e espetadores.
Um dos acidentes mais graves ocorreu em setembro de 2025, em Rostock, quando um artefacto pirotécnico atingiu o teto de uma bancada, derretendo-o. As gotas incandescentes feriram gravemente um menino de nove anos, que necessitou de um transplante de pele. A multa para o clube foi de 32.950 euros.
Desde 2024 que um grupo de trabalho composto por 13 clubes, incluindo Borussia Dortmund, Colónia e Schalke, defende uma «evolução» do sistema de punições. A proposta passa por diferenciar a gravidade das sanções com base no perigo real de cada ato. «É diferente usar pirotecnia como um elemento visual numa coreografia ou lançar petardos e projéteis que põem em perigo as pessoas. Este último é um ataque à segurança e deve ser sancionado ao máximo», explica Tarek Brauer.
Modelo norueguês pode ser a solução
Face a este impasse, o St. Pauli procura «encontrar, em conjunto com todos os envolvidos, formas de legalizar a pirotecnia controlada dentro de um determinado quadro». O modelo norueguês é apontado como um possível exemplo a seguir. Na Noruega, as autoridades autorizaram um projeto-piloto de dois anos que permite o uso de pirotecnia em jogos selecionados da primeira e segunda ligas, sob um conjunto de doze condições rigorosas.
Entre as regras do projeto norueguês, destacam-se a obrigatoriedade de os responsáveis pelo uso dos artefactos serem maiores de 18 anos, estarem sóbrios e serem identificáveis. Apenas é permitido o uso de pirotecnia certificada, em, no máximo, duas áreas demarcadas do estádio, e é exigida a presença de equipamento de extinção de incêndios adequado. A fase de testes terminou na passagem de 2025 para 2026 e a federação norueguesa considerou-a um sucesso, tendo solicitado ao governo uma prorrogação por mais dois anos, apesar da oposição dos bombeiros.
No entanto, os dirigentes da Bundesliga mostram-se céticos em relação a esta solução, argumentando que o «fascínio pelo proibido» é o que motiva os ultras, que não teriam interesse em participar num uso controlado de pirotecnia.
Fontes da DFL e da DFB acusam muitos responsáveis de clubes de simplesmente incluírem as multas por pirotecnia no orçamento da época, em vez de agirem de forma mais dura contra os infratores. O receio é que uma repressão mais forte, como a imputação das multas aos adeptos identificados, possa gerar retaliação por parte dos grupos organizados de ultras, que frequentemente detêm a maioria nas assembleias gerais e influenciam a eleição dos órgãos sociais dos clubes.
Enquanto o debate prossegue, as multas continuam a financiar várias fundações ligadas à DFB. Por exemplo, a Fundação Sepp-Herberger promoveu dias de futebol de inclusão e as finais da liga de futebol para cegos. A mesma fundação apoia a ressocialização de jovens reclusos através do desporto. Por sua vez, a Fundação Egidius-Braun organiza campos de férias de futebol para jovens, e a fundação da seleção nacional realizou o campeonato alemão de futebol de rua para sem-abrigo.
Perante este cenário, o St. Pauli deixa uma reflexão no ar: «A questão deveria ser: conseguiria e quereria a DFB apoiar as fundações na mesma medida se as taxas fossem mais baixas?»