José Mourinho a falar com Vinícius Júnior após o alegado caso de racismo
José Mourinho a falar com Vinícius Júnior após o alegado caso de racismo - Foto: IMAGO

«A análise de Mourinho é a de uma pessoa pequena»

Lilian Thuram deixou duras críticas ao treinador do Benfica pelas palavras proferidas no final do jogo entre Benfica e Real Madrid

Lilian Thuram, antigo internacional francês e uma voz ativa na luta contra o racismo, reagiu aos incidentes ocorridos no Estádio da Luz, onde Vinícius denunciou ter sido alvo de insultos racistas por parte de Gianluca Prestianni. O ex-defesa reagiu com dureza ao incidente e não poupou críticas a José Mourinho.

Para Thuram, o que aconteceu na Luz é reflexo de um problema estrutural que persiste em 2026. «Eu penso que estamos em 2026 e que, em 2026, ainda se pode humilhar negros dentro de um campo de futebol. Porque o racismo é humilhação. E o que me impressiona é que ainda se coloque em dúvida o que aconteceu. Vinícius contou os factos, Kylian Mbappé contou os factos. Mas não chega, a dúvida continua. Porquê? Porque a palavra dos homens negros não é considerada fiável?», começou por dizer, ao L´Équipe.

«É sempre a mesma coisa. Denuncias um ato de que foste vítima e é de ti que se duvida. Como acontece com mulheres vítimas de violência ou violação. A ideia de pôr em causa a vítima está sempre presente, e é por isso que é tão difícil denunciar.»

Thuram elogiou a atuação do árbitro do encontro, o francês François Letexier: «O árbitro ouviu-o e aceitou a sua palavra. Essa é a atitude correta. É assim que se avança. Não se negocia com o racismo ou com a violência. A vergonha tem de mudar de lado.»

Sobre as imagens do jogo — nomeadamente o momento em que Prestianni tapou a boca com a camisola — o francês foi direto: «Eu vi tudo. E vi mais uma vez um branco chamar macaco a um negro. Digo-o com serenidade, porque é essa a história do racismo: podes ser rebaixado por causa da cor da tua pele. O racismo avança sempre mascarado, porque os racistas são cobardes. Ele sabia o que estava a fazer. Estava consciente. Queria rebaixá-lo, humilhá-lo. Naquele momento, foi mais forte do que ele, tinha de o tratar por macaco.»

«As investigações muitas vezes acabam da mesma forma: afinal não foi bem um ato racista. Mas repito, não se deve negociar nem transigir. Se as pessoas brancas que estão encarregadas de erradicar o racismo o fizessem realmente, não estaríamos no mesmo ponto em 2026.»

«Quem é o senhor Mourinho para decidir o que Vinicius pode ou não fazer?»

As críticas mais duras foram, no entanto, dirigidas a José Mourinho, depois de o treinador português ter sugerido que o comportamento de Vinícius poderia ter influenciado o que sucedeu.

«Mourinho é um grande treinador, com uma carreira excecional, trabalhou com muitos jogadores negros. E isso não o impede, primeiro, de duvidar da veracidade do ato racista e, segundo, de questionar a responsabilidade da vítima, por causa da forma como celebrou o golo. Mas como pode ele dizer isso?», questionou.

«Quem é o senhor Mourinho para decidir o que Vinicius pode ou não fazer? Há nesse julgamento um sentimento de superioridade e de narcisismo branco. O ato de racismo não tem nada a ver com o comportamento de Vinícius, mas com a cor da sua pele. Mourinho sugere que talvez seja culpa de Vinícius, que ele tenha provocado. Isso é de uma violência total.»

E concluiu com uma crítica frontal: «Quando Mourinho quer fazer-nos acreditar que Vinícius é responsável pelo racismo que sofre, isso é patético. Com esse tipo de análise, torna-se uma pessoa pequena. Enquanto existirem comportamentos assim, nunca estaremos todos juntos na luta contra o racismo.»

«Os problemas do racismo devem ser resolvidos antes de mais pela população branca. Não se trata de culpar, mas de assumir responsabilidade. É preciso ouvir quem sofre racismo e não dizer-lhes como devem comportar-se. Caso contrário, perpetua-se esse sentimento de superioridade», terminou.