Provocação não é permissão
Este artigo não pretende ser mais um que discute se Gianluca Prestianni teve ou não um comportamento racista perante Vinícius Júnior, até porque com o que podemos observar pelas imagens é impossível assegurar se disse ou não disse e exatamente o que disse. Quero, antes, fazer uma reflexão sobre muito do que se tem dito e escrito sobre o tema, não só no contexto desportivo, mas também em toda a reflexão que alguns discursos nos merecem, inclusive do ponto de vista societal. Afirmações essas que para mim merecem tanto ou mais destaque que o ato em si.
Depois do episódio ocorrido terça-feira, 17 de fevereiro, no estádio da Luz no jogo entre Benfica e Real Madrid da primeira mão do play-off de aesso aos oitavos de final da UEFA Champions League, tenho ouvido algumas declarações que colocam o comportamento (por muitos visto como incorreto e provocatório) de Vinícius Júnior como a causa quer do comportamento de Prestianni quer dos próprios adeptos através do arremesso de objetos que se dirigiam ao jogador.
Destaco algumas das afirmações a que me refiro, por exemplo de José Mourinho: «Disse a Vinícius, de modo independente, que quando um jogador faz um golo daqueles sai em ombros. Não se vai mexer com um estádio ou com o coração do estádio do adversário. Como se diz em Espanha, quem faz golos daqueles corta rabo e orelha e não acaba o jogo e ele acabou com o jogo», ou também do treinador quando questionado sobre se o atleta teria contribuído ou incitado o arremesso de objetos por parte dos adeptos: «Sim, acredito que sim. Infelizmente, ele não se contentou em marcar aquele golo espantoso. Quando se marca um golo assim, celebra-se de forma respeitosa. Disse-lhe que a maior figura da história deste clube era negra. A última coisa que este clube é, é racista.»
No mesmo sentido foram as palavras do árbitro inglês Mark Clattenburg: «O problema é que Vinícius não se ajudou muito a si próprio. Tornou as coisas mais difíceis para o árbitro. Marcou um golo maravilhoso e o que tem de fazer é comemorar, mas depois voltar para o seu campo. Tornou esta situação muito, muito difícil.»
O arremesso de objetos contra o atleta é visível e inegável, o ato racista de Prestianni ainda não está devidamente analisado para percebermos a sua exatidão, contudo, e independentemente da sua veracidade ou não (fator que deveria ter levado os intervenientes a acautelarem o seu discurso), uma coisa é certa: colocar a totalidade do ónus do nosso comportamento no outro é demasiado redutor.
A ideia de que o comportamento gera comportamento não está errada, mas cingir o comportamento humano a processos mecanicistas, com todo o desenvolvimento cognitivo do ser humano é minimalista. Esta relação não é direta, até porque podemos e devemos incluir consciência nos nossos processos emocionais.
Ou seja, responsabilizar o comportamento antecedente da vítima para justificar comportamentos de agressão não é correto e é perigoso. Não só no mundo do desporto, mas também, e principalmente enquanto sociedade jamais poderemos aceitar este discurso.
É verdade que o comportamento antecedente e o contexto podem permitir compreender, inclusive do ponto de vista científico, o que gerou determinado comportamento, mas nunca, em tempo ou situação alguma, esse comportamento prévio, por incorreto que possa ser, pode desculpabilizar, justificar ou tornar aceitável um comportamento de agressão, seja verbal ou física.
Não vivemos numa sociedade primitiva, onde os impulsos não são controlados e achamos isso normal, procurando culpados ou responsáveis pelos atos incorretos. Se Vinícius Júnior teve um comportamento provocatório aquando dos festejos do golo, como alegado, pois bem, o mesmo foi castigado pelas leis vigentes, neste caso desportivas, com o respetivo cartão amarelo.
Isso em nada legitima nem desresponsabiliza qualquer ato violento ou agressivo que possa ter sido praticado após esse momento, devendo os mesmos ser igualmente penalizados de acordo com as leis vigentes.
As palavras nunca são neutras, sobretudo quando proferidas por figuras com autoridade e influência pública. No desporto de alta competição, onde milhões observam, repetem e amplificam discursos, a forma como interpretamos e explicamos comportamentos tem impacto real na cultura que construímos.
Questionar um festejo é legítimo, utilizá-lo para normalizar a agressão não é. Quando agentes desportivos deste nível sugerem, ainda que indiretamente, que alguém se colocou a jeito, contribuem para uma narrativa perigosa de diluição de responsabilidade.