Arda Guler agarra Prestianni, que se dirige a Vinícius Júnior (Foto: Miguel Nunes)
Arda Guler agarra Prestianni, que se dirige a Vinícius Júnior (Foto: Miguel Nunes)

Se estivesse inocente dava dois estalos em Vinícius Jr.

Tenho a certeza de que Prestianni não é racista. Mas admito que possa ter dito uma frase racista. Só ele sabe. Sei que muito do que se passou é de mau gosto... Que a intolerância deve ser com TODAS as formas de discriminação. Se Vinícius tiver razão, Prestianni que peça desculpa; se o argentino falar a verdade, estão a reação do próprio e do Benfica foi muito mole... Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do Livro do Desassossego

«A ignorância não é apenas ausência de conhecimento, é recusa em compreender», frisa Umberto Eco, cujo décimo aniversário da morte se assinala esta quinta-feira. O escritor, filósofo, professor e semiólogo italiano falava da ignorância como «o terreno mais fértil ao ódio». De resto, «a intolerância nasce frequentemente da ignorância».

Evoco Umberto Eco ao ler e ouvir tudo o que se tem escrito e dito sobre o alegado insulto racista de Prestianni a Vinícius Jr. Racismo é ignorância, sim, mas é também medo de abraçar a diferença e enriquecer com isso; é o exercício ignóbil da ofensa com base numa característica genética. É discriminação. E todas são abomináveis: cor de pele — sejam brancos, negros, vermelhos, amarelos ou castanhos —, religião, orientação sexual, peso, nível económico, etc. Todas as formas de discriminação devem provocar o mesmo grau de indignação.

Não sei se Prestianni chamou «macaco» a Vinícius Jr. Mas digo que não apreciei a reação mole do Benfica — que quer provar em vídeo que os jogadores do Real Madrid não podem ter ouvido o que disseram que ouviram — nem a defesa de Prestianni — que garante que não insultou o avançado brasileiro e acrescentou que «interpretou mal algo que pensa ter ouvido». Meus amigos, se qualquer um de vós que me lê neste momento fosse injustamente acusado de racismo perante o mundo inteiro e com poder para danificar irremediavelmente a imagem… como reagiriam? A lamentar que possa ter sido mal interpretado? Que ninguém pode ter ouvido? Ou, como filho de boa gente, haveria de sentir o sangue a ferver e dar dois sopapos na cara do mentiroso?

Também não gosto que se acuse Vinícius Jr. de ser uma espécie de rei das queixinhas de racismo... Até poderia ser, mas a única questão é: foi alvo de racismo ou inventou? Tudo o resto é fumo para não se responder ao essencial.

Acredito que Prestianni é racista? Não. Não faz sentido. Tem companheiros negros na equipa, por quem dá tudo em campo. Tem adversários negros e, a ter insultado, terá escolhido apenas um alvo. Acredito que uma pessoa que não é racista pode ter comportamentos racistas — talvez porque não teria gostado da forma como Vinícius Jr. festejou o golo, que os adeptos e jogadores do Benfica terão considerado insultuosa. Se Vinícius Jr. fosse gordo, seria chamado de pote de banha; se usasse óculos, «seria caixa de óculos»; se usasse batom para o cieiro, seria insultado de gay... O facto de ser mais um desabafo e um protesto do que uma tentativa de insulto racista atenua? Nada.

Atenção: o racismo e o antirracismo, por vezes, podem cruzar-se em terreno perigoso: o da intolerância. Este é um caso em que nem é preciso começar a ensinar no infantário que todos os seres humanos são iguais: todas as crianças o sabem até desaprenderem com maus exemplos. O racismo é ignóbil. Também já o senti.

O ator Morgan Freeman perguntava um dia: sabem quando sabemos que o racismo desapareceu? No dia em que não for preciso falar dele. Sonho com o mesmo dia.

Não é do nosso julgamento que Prestianni tem de ter medo: é do da consciência. Se for culpado, que peça desculpa, aprenda e siga em frente — não gosto de sentenças para a vida inteira; se está inocente, a minha solidariedade — é horrível essa acusação.