Laurence Fournier Beaudry e Guillaume Cizeron conquistaram o ouro. IMAGO
Laurence Fournier Beaudry e Guillaume Cizeron conquistaram o ouro. IMAGO

Ouro na dança no gelo forjado na polémica e nas acusações de abusos sexuais

Os franceses Laurence Fournier Beaudry e Guillaume Cizero subiram ao lugar mais alto do pódio nos Jogos Olímpicos Milão2026, uma dupla improvável até há um ano. Ele acusado de ser dominador, ela de proteger um namorado violador que está nas bancadas do recinto a apoiar os novos campeões olímpicos

A dupla francesa Laurence Fournier Beaudry e Guillaume Cizeron conquistou a medalha de ouro na competição de dança no gelo dos Jogos Olímpicos de Inverno em Milão e Cortina d’Ampezzo (2026) e foi uma vitória histórica para Cizeron, que se tornou o primeiro patinador de dança no gelo a ganhar duas medalhas de ouro olímpicas consecutivas com parceiras diferentes.

Esta parceria entre Laurence Fournier Beaudry, que apenas há três meses adquiriu cidadania francesa, e Guillaume Cizeron, e que culminou com o título de campeões olímpicos, nasceu de um contexto caótico e controverso, longe da história de encantar que a sua amizade de adolescência poderia sugerir.

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Amigos desde que se conheceram num estágio internacional em Oberstdorf, na Alemanha, nunca imaginaram que, quinze anos depois, se juntariam para conquistar o ouro olímpico. A realidade por trás da sua união é bem mais complexa, como ambos admitem. «Obviamente, lamentamos o contexto em que aconteceu, mas pensei que formar dupla era a única maneira de transformar duas situações infelizes em algo belo e positivo», confessou Cizeron antes dos Jogos, numa entrevista ao jornal francês L'Équipe.

A formação da dupla aconteceu no fim 2024, num período turbulento para ambos os patinadores. Guillaume Cizeron estava debaixo de fogo depois do fim da sua parceria com Gabriella Papadakis, que o patinador francês considerou difamatória, após ser acusado por Papadakis no seu livro Pour ne pas disparaître, onde esta descreve uma relação «dominadora». Mais tarde diria: «Era uma dinâmica profundamente prejudicial e perigosa para mim, que levei muito, muito, muito tempo para entender».

A oportunidade surgiu de uma situação dramática. Em outubro de 2024, Nikolaj Sorensen, parceiro de patinagem e companheiro de Laurence Fournier Beaudry, foi suspenso por seis anos por «maus-tratos sexuais». A acusação remonta a 2012, quando o dinamarquês terá agredido sexualmente uma antiga patinadora em Hartford, nos Estados Unidos. A denúncia foi feita a um órgão canadiano independente, o BCIS, que investigou o caso e cujas conclusões foram desfavoráveis a Sorensen, que sempre clamou inocência.

Fournier Beaudry, que não foi ouvida durante o processo, quebrou o silêncio no documentário «Dança no Gelo: O Brilho do Ouro», da Netflix.

«Senti-me um dano colateral. Quando decidiram suspendê-lo, significava que a carreira dele tinha acabado e que a minha carreira tinha acabado. Foi extremamente difícil, porque não se tratava apenas de patinagem, mas também da minha integridade e da dele. Conheço o meu amigo de coração a 100%. Eu conheço-o. E permanecemos fortes, juntos.»

O apoio de Fournier Beaudry e Cizeron a Sorensen tem sido alvo de críticas por parte da imprensa norte-americana. A queixosa, por sua vez, insurgiu-se publicamente, afirmando que «os comentários da equipa francesa criam um ambiente perigoso para os patinadores que precisam de denunciar abusos» e que estes «reforçam a cultura do silêncio na patinagem artística».

Apesar de a suspensão de Sorensen ter sido anulada em junho por um árbitro do Centro de Resolução de Litígios Desportivos do Canadá (CRDSC) por questões de competência — o patinador não era cidadão canadiano nem competia pelo Skate Canada na altura do alegado delito —, a queixosa recorreu da decisão e o caso continua em tribunal.

Foi neste cenário caótico que Cizeron propôs a parceria a Fournier Beaudry. Inicialmente «em choque» com o convite, a patinadora acabou por aceitar, impulsionada pelos argumentos do seu companheiro e pela sua própria vontade de continuar a competir. Apesar do que Adam Rippon, ex-patinador americano, descreve como uma «energia sinistra» em torno da dupla, os franceses conseguiram impressionar o mundo com a sua harmonia no gelo.