Nicolàs Otamendi já vestiu a camisola do Benfica, o clube que mais vezes representou, em 275 encontros, com 18 golos e 14 assistências - Foto: IMAGO
Nicolàs Otamendi já vestiu a camisola do Benfica, o clube que mais vezes representou, em 275 encontros, com 18 golos e 14 assistências - Foto: IMAGO

Otamendi: até as melhores novelas acabam um dia

O ciclo de Otamendi terminou há duas épocas, mas a insistência na continuidade — por medo de crescer e falta de rumo — hipotecou o futuro de António Silva e a evolução da equipa

De cada vez que me perguntam sobre Otamendi, sou o mais claro que posso. O ciclo do argentino no Benfica acabou há duas épocas e de cada vez que Rui Costa encolhe os ombros e assina a sua continuidade prejudica a evolução do setor. Até as melhores novelas um dia acabam. Esta é daquelas que tem mau argumento e péssimas interpretações. E, ao dizer isto, sei que a primeira coisa que a direção do Benfica vai fazer é lutar para que fique. Porque no gabinete da presidência se olha sobretudo a curto prazo, nunca ninguém dá um passo atrás para conseguir distinguir o quadro completo. The big picture.

Otamendi, se ficar, será titular. Nenhum treinador, e já ficou provado que Mourinho também não o fará — porque também ele pensa no imediato —, o colocará no banco. Há muito tempo que é o pior, mas joga sempre. Aqui, ainda há a justificação da situação física de Tomás Araújo, gerido com pinças desde a última temporada devido a uma pubalgia. No entanto, quando fica curto, recorrer a Barrenechea, em vez de a um miúdo do Seixal, que melhor conhece a posição, é sempre mais prático para o mais especial dos técnicos portugueses. O mesmo que diz que aposta na juventude e é sempre o primeiro a duvidar dela.

Jogando sempre, o argentino, de 38 anos, tapa, à vez, a utilização de António ou de Tomás, e impede quem joga ao seu lado de se assumir, finalmente, como patrão. Podem dizer-me que não há mais ninguém com o mesmo carisma, mas não confundam fragilidade emocional de quem passou por uma época difícil e teve de se reerguer praticamente sozinho com má-vontade para assumir o momento e o peso da camisola. Sempre esteve disponível, mesmo quando em luta consigo próprio.

Em nome da experiência, impede-se que outros, já mais que maturados, aos 22 e 23 anos, depois de quase 200 jogos a sério (somando equipa B, Gil Vicente e Seleção) evoluam finalmente para aquilo que se espera deles. Esqueçam o ridículo argumento de mais um ano de maturação. Parece que estamos a lidar com juniores acabados de chegar.

Porque Tomás é melhor, os técnicos têm feito a escolha mais natural. E, com isso, um ativo importante como o António, nunca será valorizado como deveria ser, com apenas mais uma época de contrato. O que é quase o mesmo que dizer que, para ter Otamendi e Tomás, o clube abdicou do caminho que tinha para ele traçado e a dúvida instalou-se na sua cabeça.

Se quiserem podem argumentar que ainda há tempo para renovar. Mas quantos já não o terão sondado e continuarão a fazê-lo? O Benfica tem duas janelas para evitar o custo zero. De alguém que, não sendo perfeito, mas com a continuação de trabalho específico, poderia tornar-se a grande referência para os próximos anos. Uma gestão quase criminosa.

A permanência de Otamendi evita também que haja um esquerdino sobre o eixo na construção. O argentino está longe de ser progressivo no passe com o pé direito e pior ainda é com o contrário, mesmo que por vezes tenha os seus momentos. Nico não foi feito para isso, ainda que tenha evoluído um pouco nos tempos passados com Guardiola. E isso quer dizer o quê? Que a equipa é mais facilmente pressionada. Qualquer solução que não seja bater na frente e, mesmo aí a definição dos colegas é superior, tem melhores intérpretes com António e Tomás. Depois, sim, é preciso contratar. Já era urgente no verão. E no verão antes desse. Ou então perceber se há no Seixal candidatos à altura.

Com o argumento da experiência, o Benfica evitou tocar num setor que pedia renovação há algum tempo, tapou o crescimento futebolístico e mental de jovens formados por si, viu talvez o seu maior ativo desvalorizar ao ponto de ficar a tiro num último ano de contrato, e constrói de forma desequilibrada a partir de trás, entregando-se mais facilmente à pressão dos adversários. Não digo aqui que Otamendi não faz cortes importantes e não luta, mas até aí, no seu perfil de liderança, por vezes deixa algo a desejar. Mais do que colocar a agressividade a resolver tudo, há que ser racional para encontrar as decisões certas.

O Benfica já não precisa assim tanto de Otamendi, embora não o tenha ainda percebido. Não pode é querer substituí-lo por qualquer um. Um upgrade na defesa é, há muito, necessário, e até Trubin tem cometido erros a mais entre algumas grandes defesas. Mas não só. A novela Otamendi revela parte do medo que o clube tem em crescer. Voltar à sua real dimensão.

Já se percebeu que José Mourinho só não continuará a ser treinador do Benfica se não quiser. Ainda que o triângulo amoroso de que faz parte com Pedro Proença e Roberto Martínez possa ser condicionante importante, tudo leva a crer que se passe com o Special One o mesmo que viveram Roger Schmidt e Bruno Lage. Se depois sobrevive ou não às primeiras jornadas é outro tema.

A julgar pelas últimas decisões, o técnico parece ter-se reequilibrado num duplo-pivot com Aursnes (talvez o verdadeiro capitão) e Barreiro, Prestianni à direita, Sudakov no meio e Schjelderup à esquerda. Na frente, Pavlidis. Mourinho estabilizou aqui depois de Rafa e Lukebakio terem respondido mal à titularidade.

Diria até que este onze seria o ideal para enquadrar um médio de criação atrás de Sukakov. Mais associativo, capaz de complementar Aursnes — a quem falta capacidade de romper linhas com o passe e em progressão — e se associar à frente. Alguém que não é Enzo, a não ser que se chame Fernández ou Pérez, Barreiro ou Rios, o tal ponto de interrogação de 27 milhões que irá prolongar-se para a próxima época. Mas Mourinho quer esse médio? Quer o mister que a equipa avance para o domínio dos encontros? Ou estará a pensar outra vez na dimensão física e com medo de mudar?

Será que o Benfica vai querer escolher o caminho ou irá entregar-se por inteiro ao treinador? Vai ser o Benfica à Mourinho ou aquele que os adeptos e os sócios querem que seja? Tantos anos depois, Rui Costa continua sem responder à pergunta mais simples e importante de todas: qual é o rumo, senhor presidente?