Do Sporting ao FC Porto: a falácia do belo 'chutão'
Li nas últimas horas várias críticas à saída de bola do Sporting, sobretudo na situação do penálti que ofereceu o 1-0 ao Bodo/Glimt, em contraste com o 2-0, que nasce precisamente do guarda-redes Nikita Haikin pontapear a bola para a frente em situação simétrica. Amigos, quando queremos encontramos sempre argumentos para aquilo que queremos defender. No entanto, o facto de termos vivido um outro futebol não torna errado tudo o que seja novo. E não se trata de defender uma moda ou um treinador. Apenas um processo válido.
Na jogada da grande penalidade (inexistente, diz o analista Pedro Henriques), não se trata da situação em si, mas sim da forma como é executada. Primeiro, porque se constrói a partir da baliza? Porque se quer precisamente atrair o adversário, ainda mais um tão pressionante como o Bodo. O risco existe. No entanto, também o há para o adversário. Ao subir linhas, ameaça partir-se em campo e expor-se ao ataque rápido dos leões. No entanto, naturalmente só se vê algo de errado em quem sai a jogar. E quem estava a sair a jogar até tem qualidade no passe, o que até reduz o perigo.
A disposição de Rui Silva e dos centrais é normal, com um de cada lado e os laterais baixos para dar maior segurança. Hjulmand é apoio central, embora já tapado, mais à frente e o resto da equipa está projetada, incluindo João Simões. Até aqui, tudo bem. Se os da frente baixarem já, comprimem o espaço por onde os companheiros podem sair.
Rui Silva já está virado para Diomande e, com isso, denuncia por onde tudo começará, retirando tempo de decisão ao marfinense. Este, depois, também hesita, uma traição num modelo de risco e o gatilho de pressão de que os nórdicos precisavam. Quando se decide, não vai pela opção segura: dar em Vagiannidis, que, depois, poderia bater na profundidade, para Catamo ou Suárez, ou até igualmente ligar com Trincão, provavelmente mais à espera deste passe. Não, Diomande tenta ainda assim rasgar o Bodo/Glimt com um passe difícil para um Trincão que lê o colega tarde demais.
E é então que tudo se precipita. Mas, mesmo aí, o Sporting está equilibrado — chega até a fazer um 2x1 sobre Fredrik Bjorkan junto à linha —, culminando então no penálti escusado, cometido por Vagiannidis. Tudo isto, a partir de certa altura, poderia ter acontecido num pontapé longo, perdendo-se a posse. Nesta má execução da saída, ainda assim, os leões mantêm quatro defesas e três médios (e atenção que Catamo ainda recua) atrás da linha da bola!
Existe equilíbrio também no 2-0, apesar de Diomande não conseguir ser assertivo o suficiente pelo ar. A defesa está posicionada, não há qualquer superioridade numérica conquistada pelos nórdicos. Ter resultado de um pontapé longo é apenas coincidência (e talento, já agora, em ambos os casos, da equipa da casa; e desnorte absoluto dos visitantes).
Dito isto, a exibição do Sporting foi terrível. Talvez Rui Borges tenha tentado jogar com as mesmas armas do adversário, mas nitidamente falhou. Talvez lhe faltasse a certa para entrar de forma mais estratégica, nomeadamente Pedro Gonçalves, que poderia tornar o leão mais cerebral e as contas mais equilibradas no miolo. Talvez um Morita dos velhos tempos também. Reter bola, organizar, controlar. Colocar-se bem para recuperar rápido.
Diante de um conjunto que tem muito a ensinar às equipas portuguesas, sobretudo na forma como se evolui de forma sustentada, com um projeto e boa liderança, o Sporting capitulou. Não em definitivo, mas capitulou.
De Estugarda, com amor
Um dia depois, o FC Porto venceu em Estugarda. Os alemães são uma equipa com fragilidades defensivas, como quase todas as do seu país exceto apenas o Bayern, contudo, não deixa de ser quarta na Bundesliga e é um feito para o clube e para o futebol português.
Os dragões ganharam mantendo a identidade, não abalada com mais uma revolução no onze. Houve organização defensiva e explosão e contundência no ataque, mas também pressão agressiva e construção a partir da baliza. Mesmo sabendo da pressão terrível dos germânicos, Farioli não recuou e conseguiu impor-se. Teve momentos de sufoco na segunda parte, mas sobreviveu. Diogo Costa mostrou que não havia outra solução, quando tentou meter na frente e, pouco depois, desistiu.
Os que defendem que se deve bater sempre longo devem certamente ter ficado satisfeitos. O guarda-redes estava a passar a bola diretamente ao adversário.
O bom Schjelderup de sempre!
Andreas passou de flop, de alguém que se esquecia de defender e fazia sempre o mesmo movimento para dentro, para um outro, que se integra sem bola em termos posicionais e é o mais decisivo elemento do ataque no momento do desequilíbrio.
Claro que muita gente vai apontar essa evolução ao treinador, se calhar até mesmo o próprio, porém não vejo aí mais do que uma afinação do que o jogador já tem nele, com um acréscimo: a confiança. Hoje, o norueguês sabe que, mesmo que 60, 70 por cento dos seus movimentos sejam diagonais, conseguirá ultrapassar adversários na rota para a baliza. É certo que beneficiaria de um lateral mais profundo do que Samuel Dahl, e que acredito que possa ser José Neto, e de alguém que combinasse de forma mais proativa e seja melhor na tomada de decisão, como Sudakov; além de, obviamente, de uma equipa que soubesse coletivamente tirar-lhe adversários da frente, atraindo-os para o lado oposto antes de o chamar a jogo.
Não me surpreende nada a ascensão de Schjelderup a este novo estatuto, de renovação iminente depois de há poucos meses estar-lhe a ser apontada a porta do empréstimo. Minto. Surpreende-me apenas tê-lo conseguido enquadrado num onze que fala uma linguagem bem diferente, de transição, bola no espaço e explosão. Só que este Schjelderup sempre esteve lá. Já era o mais associativo de todos os extremos e aquele que o clube mais precisava em campo. Faltou, mais uma vez, bom senso.