Quando acaba a carreira, quem fica?
O final de uma época é sempre tempo de balanços. Há títulos, descidas, renovações, despedidas e silêncios. Mas, para alguns atletas, este período traz uma pergunta mais profunda do que qualquer resultado: e agora, quem sou eu sem a competição?
O fim da carreira desportiva é uma das transições mais exigentes da alta competição. Não se trata apenas de deixar de treinar, jogar ou competir. Trata-se, muitas vezes, de perder uma parte central da identidade. Durante anos, o atleta vive organizado em torno de horários, objetivos, convocatórias, rendimento, reconhecimento e pertença a uma equipa. A sua identidade pessoal fica frequentemente fundida com a identidade atlética: ‘Sou atleta’, ‘sou jogador’, ‘sou competidor’. Quando essa estrutura desaparece, pode surgir um vazio difícil de nomear.
A literatura sobre identidade atlética mostra que, quanto mais exclusiva for a identificação com o papel de atleta, mais complexa pode ser a adaptação ao pós-carreira. Esta identidade pode ser fonte de motivação, disciplina e sentido. Mas, quando ocupa todo o espaço psicológico, pode também dificultar a reconstrução de outros papéis: profissional, familiar, social ou pessoal.
Também a teoria das transições de carreira no desporto, trabalhada por autores como Stambulova, ajuda-nos a compreender que terminar a carreira não é um episódio isolado, mas um processo. Envolve perdas, reorganização emocional, redefinição de objetivos e reconstrução de significado. Mesmo quando o fim é planeado, pode implicar luto: pelo corpo que mudou, pelo estatuto perdido, pela rotina que desaparece, pelo aplauso que deixa de chegar.
Para demonstrar a profundidade desta questão e o sofrimento psicológico que o final de carreira pode implicar, alguns estudos indicam que cerca de 29% dos ex-atletas apresentam sintomas de ansiedade/depressão, enquanto a prevalência de consumo problemático de álcool, analgésicos ou outras substâncias pode variar entre 5,8% e 39%, muitas vezes como forma disfuncional de lidar com a dor, o vazio identitário, a perda de rotina, a ansiedade e a difícil adaptação ao pós-carreira.
Por isso, a retirada desportiva não deve ser vista apenas como uma decisão individual ou contratual. Deve ser acompanhada como uma transição psicológica. Clubes, equipas técnicas, famílias e agentes precisam de preparar os atletas não só para render, mas também para mudar. Preparar uma carreira deve incluir preparar o seu fim.
No desporto, fala-se muito de performance, resiliência e superação. Mas talvez a verdadeira medida da alta competição também esteja aqui: na capacidade de ajudar o atleta a continuar inteiro quando deixa de competir. Porque o fim da carreira não deve significar o fim da identidade. Deve ser o início de uma nova forma de existir para além do jogo. E, para que essa transição seja mais saudável, os clubes têm o dever de apoiar os seus atletas ainda durante a carreira, preparando-os para este momento antes de ele chegar. Mas essa responsabilidade não é apenas institucional: a família e as pessoas mais próximas têm também um papel decisivo na escuta, no apoio e na monitorização dos sinais de sofrimento, ajudando o atleta a perceber que continua a ter valor, pertença e futuro para além da competição.