Vítor Matos, treinador português do Swansea, faz balanço de cinco meses em que conduziu os galeses à permanência a várias jornadas do final

«Estamos a tentar devolver ao Swansea a identidade»

Vítor Matos garantiu a permanência dos galeses há quatro jornadas do final do Championship. Em entrevista a A BOLA, falou pela primeira vez sobre uma época que pode ser o ponto de partida de um grande projeto, o regresso dos ‘Swans’ à Premier

A BOLA — Que balanço fazes destes cinco meses em que o Swansea atingiu o seu objetivo principal, que era a permanência?
VÍTOR MATOS — Como hei-de começar? Acima de tudo, foi um desafio pela altura em que a mudança aconteceu. Ou seja, pelo que significava o momento para o Marítimo e para o Swansea. Acima de tudo, foi uma decisão, acompanhada por um lado pelas ambições e, por outro, por algo que sempre quis e assumi, que era voltar a Inglaterra. É um balanço positivo. O primeiro grande desafio passava por estabilizar o clube, que se tinha juntado à parte mais baixa da tabela, muito perto ali das zonas de descida, uma ou duas posições acima, se não estou em erro…

— Quando chegaste, o Swansea estava no 20.º lugar…
— Sim, e num mau momento em termos de qualidade de jogo e de resultados. A grande prioridade tinha que ver com estabilizar o clube, aos poucos melhorar a qualidade de jogo e também, obviamente, a qualidade individual dos jogadores. De todo o projeto, essa foi a base. A forma como criámos aos poucos alguma sustentabilidade, como olhámos para o plantel e percebemos quais eram os jogadores… Mais do que os jogadores, quais eram as qualidades com as quais conseguiríamos trabalhar e iniciar aquilo que era o desenvolver ou o modelar da nossa ideia de jogo. Sentir qual era a prioridade a curto e médio prazo, ou seja, o que seria fundamental para que a equipa se conseguisse tornar mais competitiva e, ao mesmo tempo, construir em função daquilo que é a ideia de jogo. Isso não é fácil no Championship, porque chegámos após o jogo com o Bristol, tivemos dois treinos e depois logo jogo com o Derby em casa… A seguir, passados dois dias, jogo com o West Bromwich fora e, só depois, tivemos ali mais algum tempo para treinar. Portanto, a prioridade foi acima de tudo, nesses dias recuperar, mas tentar recuperar já dando alguma noção de como queríamos mudar algumas coisas.

— E isso não é fácil… 
— Tem que ver também muito com aquilo que é a abordagem em termos de grupo. De qual é a necessidade da equipa num curto espaço de tempo. Se é tornar-se muito mais compacta ou muito mais agressiva sem bola, se é começar a construir de trás e, acima de tudo, tornar-se dominante com bola… Trata-se de um ponto de vista de darmos também estabilidade, aproveitando as melhores e as maiores qualidades do plantel. E, na altura, esse foi o ponto de partida. A equipa vinha numa fase menos positiva e também a jogar numa estrutura de 5x3x2 ou de 5x4x1, que eu, desde o primeiro dia, tinha muito claro que queria mudar… Depois, tem a ver como vais sentindo o contexto, o momento, os resultados, para aproveitar a melhor oportunidade quando te apareça para mudar determinado tipo de dinâmicas que existam. Foi uma fase importante e o que conseguimos a partir daí tem a ver com consistência que tu vais conseguindo ter dentro do que são os teus princípios macro, os que mais caracterizam a tua forma de jogar. A consistência, nesta liga, tem muitas pequenas coisas. É um processo complexo. Tem a ver com o número de jogos em pouco tempo, com o tipo de oposição que tens, ou seja, tens muitas equipas muito diferentes na forma como abordam os jogos. Essa variabilidade, o número de jogos que tens, o plantel, tudo isso traz especificidades muito próprias ao Championship. E isso tem sido parte do crescimento daquela maturidade tática que a equipa necessita, da maturidade competitiva que necessitamos. Tem sido muito positivo. Acima de tudo, a qualidade de jogo que conseguimos apresentar, a forma como conseguimos competir, independentemente do jogo, o dominarmos ou termos mais iniciativa com bola ou sem ela… A forma como a equipa consegue competir e manter-se coletiva nesses momentos é fundamental. E é isso que temos feito. Temos crescido, conseguimos ser consistentes em muito mais coisas. Obviamente, ainda há muito para melhorar, mas faz parte também do crescimento que queremos no clube, faz parte do projeto em si. É sem dúvida algo que todos nós, não só eu, mas o staff, os jogadores, porque grande parte é sempre sobre os jogadores… É muito importante que eles, primeiro, se sintam confortáveis, entusiasmados e atraídos pela ideia e que comecem a gostar e a desfrutar de estar em campo. É fundamental e uma grande parte daquilo que tem sido o trajeto.

— Chegas e a partir daí são 12 vitórias, quatro empates e 11 derrotas, e a eliminação na Taça nos penáltis… Hoje, são cinco lugares acima, mas com os mesmos pontos do 12.º. Isto não se consegue só com treino e táctica, há aí um forte lado emocional, não? Vê-se no que nos chega em momentos de balneário, na relação com os adeptos…
— Uma cultura não se constrói num dia. E a cultura que queremos desenvolver, enquanto treinador e clube, mais até enquanto clube, é fundamental. Quais são os valores, com que mentalidade em termos competitivos queres que a equipa cresça e que ligação queres que exista entre plantel, adeptos e treinador? É importante desde o primeiro dia que todos se consigam unir e ter uma visão sobre o que será o próximo passo. Sobretudo quando o ponto de partida era instável. O Swansea é um clube com uma história riquíssima, com uma identidade muito clara naquilo que foi o seu crescimento até à Premier League. Depois, tornou-se instável e acabou por perder um pouco aquilo que era a sua essência e forma de jogar. É isso que nós procuramos voltar a desenvolver. Claro que é sempre diferente em função do treinador, mas em termos macro tem de existir. E para isso existir tem de haver uma cultura à volta, uma visão em termos de recrutamento que vá ao encontro disso. Tem de existir uma visão de clube de como olha para a comunidade e de como se envolve com ela. Tem de existir quase um momento em que, para além da crença que existe ou que se pode fazer que exista, haja o passar não só a acreditar, mas também a desfrutar daquilo que é a identidade do clube. E é um bocadinho por aí que fomos construindo. Existia um conjunto de pressupostos importantes para mim que eram importantes resolver, desde logo, o encontrar um 11 base, mesmo sabendo que existiam muitos jogos, o encontrar a consistência naquilo que era capacidade da equipa se tornar muito mais competitiva e também mais dominante. O conseguir olhar para as equipas do top seis, três ou dois, e querer competir. Queremos também ser capazes de os dominar, seja por termos mais bola ou mais capacidade de pressionar, mantermo-nos competitivos. Era também importante o clube voltar a sentir que é possível estar nos lugares mais altos, que é possível competir contra as melhores equipas. E tem de ser esse o crescimento. A partir do momento em que dás este primeiro passo, também sabes quais os seguintes e de que forma é que consegues construir em termos de jogo, de plantel, de mercado, de que forma olhas também para o clube enquanto estrutura… Tudo tem o seu ponto de partida, o seu tempo para se desenvolver. Agora, como é óbvio, o mais importante é: tem sempre de ser a ganhar. É sobre o que se é julgado. E sobre isso também existe preocupação. Ninguém está cá para outra coisa. A forma como se faz é que pode sempre mudar.

Snoop Dogg com Vítor Matos (Foto: Swansea)
Snoop Dogg com Vítor Matos (Foto: Swansea)

— Falaste aí numa cultura de jogar e o Swansea, pelo menos do que me lembro, passou por uma altura em que esteve muito ligado à cultura da posse, por causa de treinadores como Michael Laudrup e Roberto Martínez. Encontraste esse passado ou alguns vícios desse passado que te dificultaram a tarefa?
— Sim, e também Brendan Rodgers e Graham Potter… Esse passado ligado a essa capacidade de conseguir dominar e criar…

— Até tinha uma alcunha, o 'Swanselona'…
— Sim, é um lado cultural muito marcante que tem a ver com este do Swansea de que tu falaste e que ainda existia, mas em função daquilo que são os resultados a curto prazo… Não há forma de se esconder que o curto prazo tem um peso muito grande naquilo que é a direção dos clubes. E isso muitas vezes pode afastá-los daquilo que os identifica ou antes identificava. Era um pouco o que estava a acontecer. Essa essência ainda existe, os adeptos ainda têm afeição a esse lado e muitos jogadores sentem que esse é o caminho. Uma das preocupações que tivemos foi trazer o Joe Allen e o Leon Britton [antigos médios retirados, que passaram a integrar a equipa técnica], que tinham estado ou passado por esse momento. Obviamente, o ponto de partida tem de ser o contexto, as qualidades dos jogadores ou do plantel, em conjunto com o que é a tua ideia enquanto treinador. E conseguimos encontrar este caminho de crescimento, respeitando aquilo que é a essência do clube. Isto é muito importante. Sabendo que, como é óbvio, ganhar é importante, porque também queremos incentivar esta cultura de vitória. Esta cultura de que o ganhar é um compromisso que tem de existir a partir do momento em que assinas ou começas a tua carreira no Swansea tem de ser sentida. E para o sentires tem de ser uma das coisas importantes da cultura que queres criar. E é óbvio, independentemente do processo que queres construir, tens de olhar para os jogos dessa forma. E a forma como olhas para os jogos tem de ver com a tua ideia de jogo, não é? Obviamente há jogos em que consegues ser muito mais consistente na forma como pressionas e como consegues dominar também com bola. Há outros em que não consegues, mas quando não consegues, tens de ser coletivo o suficiente e tens de entender esses momentos também de forma coletiva, a fim de conseguir competir. É esse ser capaz de competir e de voltar a trazer o jogo para ti, quando o jogo se torna diferente e obriga a coisas diferentes, que nos falta, que vamos construindo, porque é isso que nos vai garantir consistência no futuro.

Vítor Matos, treinador do Swansea — Foto: Swansea
Vítor Matos em discurso emocional no balneário do Swansea — Foto: Swansea

— O Swansea fez um investimento importante em ti, pagou uma cláusula de rescisão e deu-te um contrato longo. Isso tirou-te também alguma pressão?
— Obrigado, Luís, por me lembrares disso (risos)...

— Não… Tu sabes… (risos) OK, não digo que tirou pressão, mas deu-te alguma estabilidade o vínculo que assinaste?
— Não, eu nunca… É difícil para qualquer treinador pensar assim. É uma profissão volátil ou tornou-se tão volátil, não é? E tão julgada a curto prazo, que se também não montas o processo com este sentido de existir desde o primeiro dia uma resposta… Porque ao mesmo tempo a tua preocupação tem de ser melhorar aquilo que existe dentro do campo em termos de qualidade do jogo, não é? E essa tem de ser a tua preocupação a curto prazo. Independentemente do resto, tem de ser percetível, para um lado, para os donos, para o outro lado, para os adeptos, que estás a melhorar a qualidade do jogo. E essa direção que vais tomar tem muito a ver com aquilo que é a tua ideia de jogo em termos futuros, o que tu pretendes, mas também ao mesmo tempo qual é a tua prioridade no curto espaço de tempo e de que forma tu consegues fazer com que o processo de construção da equipa e da tua ideia do jogo se modele em função daquilo que é a realidade atual. Porque só assim, a meu ver, te consegues manter competitivo. E depois é óbvio, não é? Tu não podes mudar drasticamente tudo ao mesmo tempo por várias razões. Às vezes, é possível, dependendo dos resultados, outras vezes não. É preciso muito cuidado em termos individuais naquilo que é a alteração em termos metodológicos. Um momento em que há muitas lesões ao mesmo tempo é impeditivo de que o processo cresça. Nós conseguimos ter muita estabilidade nisso. Não usámos um número elevado de jogadores, conseguimos manter o número correto. Ainda há dois ou três dias estávamos a falar com o departamento médico e somos a equipa com menos lesões musculares da liga. Acho que isso tem a ver, primeiro, com uma cultura, mas também com sensibilidade. Às vezes é possível tê-lo, às vezes não é tão fácil. É um processo complexo. E é importante conseguires viver dentro dessa complexidade.

Vítor Matos, treinador do Swansea — Foto: Swansea
Vítor Matos, treinador do Swansea, perde cabeça erguida aos seus jogadores — Foto: Swansea

— Quando aceitaste, o Swansea era um clube com problemas a nível financeiro, havia questões relativas ao fair play, o que obrigava a um mercado a zero e muita criatividade…
— Quando eu e o CEO na altura falámos e o projeto me foi apresentado, falámos sobre essa questão, que era óbvia. Desde o primeiro dia me pareceu que o plantel tinha potencial. Muitos jogadores com um talento incrível. Assim, a minha maior preocupação foi conseguir olhar para o plantel e tentar tirar o maior rendimento possível, espremer ao máximo o potencial e as qualidades de cada um deles e torná-los muito mais coletivos, de forma a que relações pudessem nascer entre eles e os pudessem potenciar ainda mais. Esse lado era muito importante e, com isso, vem a questão de não perdermos jogadores no mercado de inverno. Foi a nossa maior preocupação. Conseguimos manter o núcleo, sem perder jogadores. Não se trata de chegares, trocares, mandares 14 jogadores embora e ir buscar outros 14 jogadores para começar outra vez. É olhar para o plantel, ver as prioridades, mas acima de tudo começar a construir algo. E só após construir algo, consegues saber o caminho, em que direção queres ir. O nosso maior objetivo foi olhar fundamentalmente para dentro, para a formação, para o plantel e para todos os jogadores que temos, incluindo os emprestados. E começarmos a montar as coisas a partir daí. Chegou o mercado de inverno, era fundamental não perder jogadores e ver ainda o que nos poderia trazer. Contratámos o Gustavo Nunes, do Brentford, e o Leo Walta, os dois por empréstimo, e o Joel Ward. Os três com diferentes perspectivas daquilo que nos podiam dar, mas sobretudo um bocadinho mais de profundidade no plantel a curto prazo. E o Joel trouxe-nos a experiência. Foi capitão do Crystal Palace, apesar de estar sem jogar. E em termos de qualidade do jogo, consegue dar-nos estabilidade, tem muita experiência em termos competitivos. A equipa também precisava de um jogador assim. O Leo, com muito potencial em termos futuros, com muita técnica, numa fase diferente da época, ou seja, tinha terminado a época na Suécia, ia iniciar a pré-época, portanto nem sempre é fácil conseguir chegar e ter um impacto imediato nesses momentos. E o Gustavo, um talento gigante do Brentford, que conseguimos contratar pelo que podíamos oferecer em termos de volume de competição. Ficámos com mais extremos, ou seja, mais uma possibilidade, e ele tem sido importante nesta fase, sobretudo em permitir-nos manter um conjunto de dinâmicas e ideias para conseguirmos ter estabilidade. A minha maior preocupação tinha que ver com isso: encontrar um ponto de partida em que, por um lado, o jogador se sentisse confortável e, por outro, conseguíssemos começar a acrescentar a qualidade do jogo, sem perdermos equilíbrio, sem perdermos a oportunidade de gerir o plantel, em momentos certos também refrescar. Usarmos uma maior rotatividade, sem perder grandes dinâmicas e sub-dinâmicas, termos essa estabilidade nos momentos com maior volume competitivo. Isso foi importante e foi uma das maiores razões para conseguirmos estar neste momento a poucos jogos do fim já bastante consolidados.

— O que há para o Swansea depois de garantir a permanência ainda esta época?
— Tens sempre de construir o presente, sabendo que o futuro é o que nos vai modelar. Faz parte da visão dos donos, da visão que, em conjunto, temos. Aquilo que queremos para o futuro é que o clube continue a crescer, que se possa ir para posições de play-off. E para ir nessa direção, primeiro tem de existir uma base. E essa base é aquilo que nós estamos a fazer. Obviamente que se me perguntares e sempre o disse, porque houve uma fase em que nós estivemos muito perto das posições de play-off…

— Sim, falámos disso…
— É muito normal que isso aconteça, mas também temos de ser estáveis emocionalmente para entender que é uma liga muito competitiva e com um número elevado de jogos. Estive a ver por causa do jogo do Bayern com o Real Madrid e nós temos mais jogos do que o Bayern. É um número tão elevado que obriga a que tu sejas estável emocionalmente para conseguir que a equipa também se mantenha estável. Para que se concentre naquilo que é o mais importante, que é o treino e o processo, e muitas vezes não existe treino, porque a prioridade tem que ver com recuperar. Portanto, para o futuro esse tipo de situações são sempre algo que tens de pensar. Por um lado, construir uma cultura, por outro a equipa tornar-se competitiva a curto prazo, construir também aquilo que queres enquanto valor e enquanto clube para o futuro. E com isso um conjunto de coisas, que tem a ver com os departamentos, a forma como também o clube olha para para os adeptos, para a comunidade, para o scouting, a forma como os diferentes departamentos se complementam em função da mesma visão… Ter um caminho e uma lógica processual que permita, acima de tudo, que o jogador esteja o mais fresco, predisposto possível para competir.