A moral (de vidro) de Infantino
Gianni Infantino surge agora a censurar e a pedir a expulsão de jogadores por taparem a boca quando falam em campo, acreditando que se trata sempre de insultos — no rescaldo do caso Prestianni-Vinícius — e fá-lo investido numa súbita autoridade moral sobre transparência e exemplo. O problema é que o edifício de onde discursa, a mesma FIFA que sempre compactuou com regimes ditatoriais e seus crimes, é alto demais. Inimputável devido a um volume de negócios tremendo e ainda impenetrável naquele ecossistema de regras próprias. É impossível ver, a olho nu, os extensos telhados de vidro que o cobrem.
Desde que assumiu a presidência, em 2016, a governação de Infantino tem sido acompanhada por rasto persistente de polémicas. A mais evidente está nos Mundiais organizados em países sem respeito pelos direitos humanos. O torneio de 2022 no Qatar ficou marcado pelas denúncias sobre as condições de trabalhadores migrantes. Seguiu-se a confirmação da Arábia Saudita como anfitriã de 2034, decisão amplamente criticada por organizações internacionais devido à repressão política, restrições à liberdade de expressão e discriminação de mulheres e comunidade LGBT+. A de 2018 na Rússia, embora decidida antes da sua eleição, faz parte do legado que defende.
A nível interno, foi investigado pela própria comissão de ética nos primeiros meses de mandato. Mais tarde vieram a público encontros não declarados com o procurador-geral suíço, que levantaram dúvidas sobre transparência. Houve ainda demissões no comité de governança e críticas de centralização de poder, enquanto a prometida nova FIFA se assemelhava cada vez mais à antiga.
Entretanto, multiplicaram-se decisões controversas: a expansão do Mundial de Clubes, contestada pelos sindicatos; a crescente proximidade a líderes políticos; a perceção de que a neutralidade institucional nem sempre é prioridade; o prémio da paz para Trump...
Nada disto constitui, por si só, crime provado. Mas forma um padrão. Um que fragiliza qualquer tentativa de posar como guardião da pureza do jogo. Quando o responsável repreende atletas por proferirem palavras suspeitas em campo, talvez se devesse lembrar de que lidera uma organização cuja credibilidade foi testada — e continua a ser — muito para lá de um gesto feito entre as quatro linhas. Que ninguém está a tentar apagar.
É legítimo exigir transparência. Mas nunca esqueçamos que começa no topo.