Guarda-redes campeão europeu de sub-20 falou sobre o peso da responsabilidade de representar Portugal

O sonho de quem conquistou a Europa com Portugal: «Viemos para ficar»

Cristiano Almeida recorda, em entrevista a A BOLA, a conquista do Europeu sub-20 de futebol de praia. O guarda-redes fala da surpresa inicial, do espírito de «família» no grupo e da noite inesquecível em que até... bisou na final

Depois de uma campanha dominadora e de uma final memorável frente à Espanha (9-3), Cristiano Almeida ainda demorou alguns dias a perceber a dimensão do feito alcançado pela Seleção sub-20 de futebol de praia. Numa entrevista a A BOLA, o jovem guarda-redes revisita o percurso até ao título europeu, fala da surpresa inicial, da força de um grupo que se tornou uma «família» e da emoção vivida dentro e fora de campo — incluindo os dois golos que marcou na final, a distinção individual como melhor guarda-redes do torneio e a receção apoteótica no regresso a Portugal.

Já tens noção do feito que alcançaram?

Talvez agora já tenha entrado mais na cabeça o que conseguimos fazer, mas nos primeiros dois dias ainda ninguém acreditava, porque, apesar de os dois primeiros jogos terem sido resultados mais fáceis, [17-3 com Inglaterra e 17-0 com a Chéquia], o jogo com a Itália já era de uma exigência maior e a malta estava surpreendida como conseguimos ganhar 3-0 à Itália. Depois na final com a Espanha, que tinham internacionais A a jogar na seleção de sub-20, também conseguimos e foi incrível.

Como foi o dia do jogo? Algum nervosismo ou estavas tranquilo?

Foi bom, porque recebemos o presidente Pedro Proença à hora do almoço e sentimos que Portugal estava connosco, a Federação Portuguesa de Futebol estava connosco. Então a malta aí sentiu um alívio e percebeu mesmo que tínhamos de ser campeões da Europa. A partir do almoço, começámo-nos a concentrar, senti que a equipa estava com vontade, que todos queriam o mesmo, todos queriam ser campeões da Europa e aconteceu.

Sobre o jogo, és guarda-redes, mas marcaste os dois primeiros golos da final. O que te passou pela cabeça nesses momentos?

Um guarda-redes quando entra em campo nunca pensa em marcar golos, ainda por cima importantes. Na minha cabeça, objetivo era não sofrer, tentar defender o máximo porque no futebol de praia há muita finalização e, eventualmente, se houvesse oportunidade de rematar à baliza, rematava. E logo nos dois primeiros remates, fiz dois golos. Nem eu estava a acreditar. Foi um sentimento inexplicável.

Tornaram o jogo mais fácil do que estavas à espera?

Sim, a partir do momento em que nós entrámos no jogo a ganhar 2-0, acreditámos que ia dar para nós. Com o 3-0 do Gonçalo Loureiro, percebemos que tínhamos o pássaro na mão e não o íamos deixar voar. Íamos ser campeões da Europa. Conseguimos reagir bem aos golos da Espanha e sentimos que a estrelinha estava connosco.

E quando ouves o apito final?

Nesse momento não estava em campo, ainda estava a ser mais difícil. Saí quando faltavam 2 minutos e 40 segundos para acabar o terceiro período e já estávamos a tremer de ansiedade. Quando o árbitro apita, a euforia foi enorme.

Cristiano Almeida nas instalações de A BOLA. Foto: Maycon Quiozini

Como foram as celebrações essa noite?

Incríveis. Jantámos logo depois do jogo, consegui estar com a minha família, com os meus pais e com a minha irmã que foram me apoiar a Itália. Foi sem dúvida uma das melhores noites da minha vida.

Foi importante ter o apoio da tua família?

É sempre fundamental. Se olhares para a bancada e veres que os teus estão lá. Saber também que antes dos jogos tinha sempre uma chamada do meu tio, da minha avó, dos meus sobrinhos... falava com a família inteira, mas senti-los presentes é diferente.

O objetivo foi sempre conquistar o título?

A partir do momento em que representamos Seleção Nacional, só podemos pensar em vencer, seja qual for a competição.

Falou-se muito do vosso grupo de serem quase uma família. Foi mesmo assim?

Foi um grupo muito bom. Toda a gente vai levar os 15, porque houve três que infelizmente ficaram de fora, mas que também foram campeões europeus porque estiveram no estágio antes da partida para Itália, o Egar Zarro, o Miguel Pereira e o Simão Liceia. Criámos uma família e quando chegámos a Itália olhámos uns para os outros dissemos: 'Isto vai ser nosso.' Quando o grupo está unido, incluindo equipa técnica, fisioterapeutas, coordenação... sentirmos o apoio da FPF também.foi muito bom e uma das partes fundamentais para a conquista do título.

Cristiano em ação no Europeu. Foto: FPF

Foste considerado o melhor guarda-redes do torneio. Como é que te sentiste ao receberes essa distinção?

Não estava à espera, mas fiz por isso. Qualquer jogador tem ambições e se pudesse ser o melhor guarda-redes da Europa de sub-20, eu ia ser. Consegui esse feito muito graças à minha equipa, à equipa técnica, ao meu colega Tiago Gomes, guarda-redes que também me ajudou muito. Se não fosse ele, também não ia ganhar, se não fosse o treinador de guarda-redes, o Nuno. Esta conquista é minha mas é dos três. Se não fossem eles, também não iria conseguir alcançar a minha melhor versão.

Para ti é uma motivação para continuares a trabalhar e a conquistar títulos?

Claro, agora daqui para a frente é ganhar. Quando ganhamos uma vez, ficamos com o gosto e só pensamos em quando chega a próxima vez.

«Ter o melhor de sempre connosco é incrível»

Cristiano Almeida destacou a importância de Madjer no sucesso da Seleção sub-20, sublinhando o impacto do atual coordenador da Federação Portuguesa de Futebol junto do grupo. «O Madjer é muito importante, pela história que tem no futebol de praia e pelo que está a fazer», afirmou o jovem guardião, lembrando que «é a maior referência do futebol de praia português».

Revelou ainda que a presença do antigo internacional serviu de motivação extra durante a competição: «Pensámos: ‘vamos fazer por isto ti também. Queremos ajudar-te a meter o futebol de praia lá em cima.’» E concluiu: «Sentir que o melhor de sempre está connosco é incrível.»

Disseste que o teu primeiro objetivo é proteger a baliza, obviamente, mas jogando futebol de praia, também é importante estares com um olho na baliza contrária?

É muito importante um guarda-redes de futebol de praia ter um bom jogo de pés, conseguir gerir a bola a partir de trás. O campo é pequenino, a bola facilmente chega ao outro lado. Se tivermos oportunidade de logo a partir da baliza conseguirmos que a equipa faça golo, é perfeito.

Vocês conquistam o troféu, voltam a Portugal e têm à espera uma multidão no aeroporto. Estavas à espera?

Ninguém estava à espera. Aterrámos, ficámos um bocado dentro do avião e quando saímos vimos o carro da polícia e achámos estranho. No transfer, um colega nosso, o Crespo, recebe um vídeo da multidão lá à espera e nós: 'Será que isto é mesmo para nós?' O Gonçalo, que também é treinador dos miúdos de futebol 7 lá no Sesimbra, disse: 'São os miúdos do Cris' A equipa que eu treino. e eu: "O quê? Calma, o que é que se está a passar? Eles supostamente iam estar a treinar.' Ficámos com a sensação de que conseguimos um feito histórico.

Sentimento de orgulho, mas também de responsabilidade?

Quando soubemos que ia existir esta seleção de sub-20, tivemos logo esse sentimento. De mostrar que esta seleção vem para ficar e para marcar, com o objetivo de continuar a fazer crescer a modalidade em Portugal. Tivemos o Madjer conncosco, ele que está a fazer um trabalho fundamental para o futebol de praia. O presidente Pedro Proença desde que chegou, está a querer investir e a mostrar muita consideração pela nossa modalidade. A partir daí, sentimos que íamos marcar a modalidade e fazer com que ela cresça.

«Futebol ou futebol de praia? Não há dúvida»

És de Sesimbra, uma terra virada para o mar. Como começou a ligação ao futebol de praia?

Já começou há muito tempo. A minha primeira conquista foi no Sesimbra, num torneio que era o Summer Cup. Devia ter uns 9 ou 10 anos. Era um torneio de futsal e futebol de praia em conjunto, e fomos à final em futsal e perdemos. No dia a seguir, fomos campeões no futebol de praia. Mesmo muito novo, já tinha um gosto pela areia. Em Sesimbra, no verão, íamos sempre para a praia jogar à bola, via os mais velhos, os treinos deles. A seleção A foi muitas vezes estagiar à praia de Sesimbra e ia tudo para o campo. O gosto pelo futebol de praia vem desde aí.

Seleção venceu o primeiro Europeu sub-20 da modalidade. Foto: FPF

Pensaste logo em ter uma carreira no futebol de praia?

Não, tinha o objetivo do futebol de 11. Aliás, até este europeu, estava focado no futebol 11. Quando vi que ia acontecer este Europeu pensei que era uma oportunidade no futebol de praia e que devia focar-me. É uma modalidade excelente. Podem pensar que não é nada de especial, mas é preciso muita qualidade técnica e também muito físico, porque correr na areia não é a mesma coisa que correr na relva. Se continuar a crescer como tem crescido, vai ser uma das melhores modalidades no futuro.

Pegando nessa parte do futebol 11. Jogas no Sesimbra em futebol também. Como conciliavas as duas modalidades?

Antes, estava mais focado no futebol. Estava a jogar no Sesimbra e a lutar por objetivos. Quando soube que ia haver este europeu, comecei a treinar nos dois. Fui mais para a praia, para voltar a sentir a areia, porque é diferente estarmos habituados a um terreno e depois irmos para a areia. É diferente defendermos numa baliza de 11 e numa baliza de futebol de praia. No futebol de praia, a bola bate na areia e muitas vezes passa por cima de nós, temos que ter mais reação.

Se tu tivesses que escolher um ou outro, qual escolhias?

Sem dúvida o futebol de praia. Depois deste feito, o objetivo é chegar ao topo, à seleção A e ficar lá. Foco máximo no futebol de praia.

Foste chamado para o estágio da Seleção A pela primeira vez. Como te sentiste no momento em que soubeste que foste chamado?

Pensei: 'O que é que está a acontecer?' Porque tínhamos acabado de ganhar o Europeu de sub-20, fui o melhor guarda-redes do torneio, chegámos a Portugal, tivemos a cerimónia de manhã na Cidade do Futebol, e, passadas três horas, recebo a notícia que fui convocado para a seleção A. Fiquei super contente. Um sonho realizado.

Guarda-redes foi chamado pela primeira vez à Seleção A. Foto: Maycon Quiozini

Que outros planos tens para o futuro?

Fui convocado para este estágio da seleção A, quero chegar lá e dar o meu melhor, mostrar a qualidade que tenho. Também vai começar o campeonato e quero dar o melhor contributo possível ao meu clube, o Sesimbra, seja na equipa A ou na B. Defender sempre a camisola, honrar o clube e dar o meu melhor.

Para as pessoas que não acompanham o futebol de praia, como é que descreverias a modalidade?

A modalidade é divertida, com muito combate físico e artística. Talvez a palavra mais adequada é a arte. É um desporto de arte como vemos como os pontapés bicicleta, todo o envolvimento, os saltos que os jogadores dão para cortar as bolas... é muita arte. O futebol de praia tem muito esse toque artístico. Seja de qual jogador for, até pode ser do guarda-redes, de certeza que vai haver um golaço.

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