Sudakov, médio do Benfica (foto: Imago)
Sudakov, médio do Benfica (foto: Imago)

«As pessoas estão preparadas para ver um jogador chorar?»

Quando algum famoso como um jogador de futebol assume problemas de saúde mental, muitos reagem em pânico: afinal, pode acontecer a qualquer um de nós... Outros levantam-se do chão... E não há maior grandeza... Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do meu Desassossego

Ricardo Lemos lançou a pergunta durante mais recente O Lado Direito do Mister, de A BOLA: «As pessoas estão preparadas para ver um jogador chorar?» A questão nasce num tempo em que cada vez mais futebolistas assumem publicamente problemas de saúde mental ou dramas pessoais difíceis de carregar. Luís Suárez revelou recentemente que não vê as filhas há mais de dois anos, consequência de um litígio com a mãe das crianças. Sudakov admitiu não estar com a cabeça a cem por cento no Benfica nem na profissão, num testemunho que expôs algo tantas vezes escondido: a depressão também entra em campo.

Há uns anos, a pergunta seria outra. Estariam os jogadores preparados para chorar em público? Para assumirem problemas de saúde mental? Hoje o centro da questão deslocou-se para nós, para a sociedade, para a forma como olhamos para quem idolatramos. Porque muitos adeptos continuam a ver os jogadores como figuras suspensas acima da condição humana, seres superiores que existem para transportar multidões para uma espécie de território sem dor. O futebol surge, assim, como uma interrupção do peso da realidade, um instante de evasão coletiva capaz de anestesiar angústias pessoais, contas por pagar, fracassos íntimos e silêncios acumulados. Talvez seja precisamente por isso que há quem se assuste quando um jogador admite fragilidade. Porque essa fragilidade obriga cada um a confrontar-se consigo próprio. Se alguém que ganha bem, é admirado por milhões e é protegido pela fama também sucumbe à tristeza, à depressão ou ao vazio, então ninguém está a salvo, nenhum ser humano é imune.

É um erro recorrente associarmos saúde mental a sucesso profissional e/ou financeiro, a  estatuto ou privilégios. O sofrimento é profundamente democrático. E é também um erro recorrente fugirmos destes problemas a qualquer custo, como se viver fosse apenas uma tentativa desesperada de evitar quedas e cicatrizes. Procuramos fórmulas mágicas para não sofrer, em vez de aprendermos a dar sentido ao sofrimento.

Viktor Frankl escreveu que «quem tem um ‘porquê’ suporta quase qualquer ‘como’». E talvez seja isso que tantas vezes nos falta: não a ausência de dor, mas uma razão suficientemente forte para atravessá-la. Porque a coragem e a resiliência vêm do sentido que damos às coisas pelas quais temos de atravessar; vêm da forma como valorizamos e quanto queremos a luz ao fundo do túnel. 

Olho para estes e muitos outros jogadores com muito respeito. A vulnerabilidade não lhes retira dimensão; acrescenta-lhes humanidade. E há uma forma de heroísmo que só existe depois da queda. A grandeza não é propriedade dos invencíveis. 

Nenhum dos meus heróis passou pela vida sem falhar.  Há maior grandeza em quem se levanta do chão do que em quem sobe ao céu. Porque o verdadeiro exemplo não está na ausência de dor, mas na coragem silenciosa de continuar apesar dela. É aí que nasce a admiração genuína: não no talento, não no sucesso, mas na recusa que os medos e as fraquezas ditem destinos, cavando sepulturas de corpos ainda vivos. E porque nem todos têm as mesmas forças para lutar, cabe-me a mim e a si, no esplendor da nossa humanidade, ter dois braços estendidos e não duas mãos fechadas. Não apenas para segurar o outro, mas para que o outro também nos segure… 

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