300 km diários, um jejum de 27 anos e um 'casamento' perfeito graças a… um negócio de relvados sintéticos
O Portel celebrou, no dia 8 de maio, 61 anos de existência e, como prenda, nada melhor do que o regresso aos campeonatos nacionais… 27 anos depois! Um dos obreiros foi Jorge Prazeres - literalmente. O mister, de 57 anos, explica, ao nosso jornal, como é que, sendo de Setúbal, foi parar a Portel.
«A minha vida é fazer relvados sintéticos. Há cerca de 20 anos fiz o do Estádio Municipal de Portel e, a partir dali, criei uma relação com as pessoas da terra. Foi nessa base que conheci o presidente do clube e fui conversando sempre com ele sobre futebol. Já depois desta época ter arrancado, ligou-me e convidou-me. Eu aceitei e, a partir dali, peguei na equipa», confessa. O resto é história.
«Eu já tinha metido na minha cabeça que o meu trajeto no futebol tinha terminado», lembra o técnico, que treinou muitos anos equipas do Campeonato de Portugal e que conseguiu pôr lá outras, como fez agora, de forma distinta, com o Portel. «Foi uma temporada absolutamente irrepreensível. Um grupo muito jovem, com talento, que tem miúdos que nunca tinham sido expostos a um rigor maior, a um nível de complexidade do jogo e treino tão intensa. Acabou por ser um ano soberbo, onde foram evoluindo e onde realmente fomos a melhor equipa do distrital», salienta, depois de 22 jogos, 19 vitórias, dois empates e apenas uma derrota.
O treinador dos alentejanos explica que conseguiu criar «uma base sólida de comportamento e de padrão de atitude para encarar o Campeonato de Portugal, que é um salto enorme em relação àquilo que é a realidade da distrital de Évora».
«Somos um dos concelhos mais pobres a nível nacional»
Ainda assim, tanto o mister como o presidente, Luís Salsa, estão cientes de que a boa figura nos nacionais não está apenas dependente dos atletas. Longe disso. «Temos de contextualizar a nossa realidade: estamos a falar de um dos concelhos mais pobres a nível nacional e, obviamente, não conseguimos ter a força que outros têm. Quando eu digo a força, tem que ver com a força financeira. Nós não a temos. Tentamos fazer muito, com pouco», admite o líder do clube, em entrevista A BOLA.
«Temos de estar bastante agradecidos à ajuda que o município nos dá, mas não chega para fazer face às necessidades que o clube já tinha este ano, com o projeto de subida, e que terá para o ano», acrescenta o dirigente, traçando objetivo da manutenção no CP, numa «série tremendamente difícil, já com muitas SADs criadas e que trazem investimento».
Luís Salsa faz contas e afirma que esta subida trará retorno financeiro para a vila alentejana, com cerca de 2500 habitantes: «Isto é bom para toda a gente. Vamos receber clubes, como o Vitória de Setúbal, que irão trazer a Portel muita gente, o que será bom para a economia local, em tudo o que tiver que ver com a restauração e a venda de produtos e bens.»
300 km diários para ligar a equipa à vila
Jorge Prazeres conta que o que lhe deu sentido ao apelido, nesta aventura em Portel, foi ter conseguido ligar a equipa clube à vila e a vila à equipa: «Nos últimos anos, o clube esteve sempre tão afastado da possibilidade de ser campeão que, com as nossas vitórias, as pessoas aos poucos foram voltando a ter o sentido de pertença que, até então, não tinham expressado e que foi crescendo, tendo tido o expoente máximo no jogo em que fomos campeões. Foi fantástico. Foi uma experiência única. Eu ando no futebol há muitos anos e foi genuíno, porque foram os jogadores que conquistaram a terra. Esta é uma zona onde as pessoas são muito agarradas ao jogador da terra e nós não temos nenhum jogador da terra.»
«Foi um momento de muita alegria, mas não foi fácil conquistar os adeptos. Estamos a falar de uma equipa que não tinha nenhum atleta de cá e, obviamente, as pessoas desconfiaram. Muitos portelenses achavam que pelo facto de a malta ser de fora não tinha ligação a Portel, mas acabaram por perceber que todos aqueles que representam o clube é como se fossem de Portel. Ao longo do tempo, com as vitórias, fomos cativando as pessoas», conta, por seu turno, Luís Salsa.
Só debaixo desta união e amor ao clube (e à terra) é que os 57 mil quilómetros que Jorge Prazeres e o seu adjunto Daniel Marques fizeram, desde setembro, em viagens Setúbal-Portel fizeram sentido: «Fazia diariamente 300 quilómetros. 150 para Portel e 150 para Setúbal. Quatro vezes por semana mais o jogo. Fizemos as contas, andou à volta dos 57 mil quilómetros neste ano.»
«Mas, com o entusiasmo de ver as coisas a crescer, os miúdos começarem a jogar um futebol muito giro, de perceber o quanto eles apreciavam aquilo que a gente estava a fazer por eles, acabámos por embalar todos. Todos fizemos um pouco de sacrifício. O presidente também fez em termos financeiros e em termos de logística, porque mudou muita coisa: desde as refeições, jantares de grupo, desde um posto médico melhorado, com profissionais. Passou a haver muito mais rigor no dia a dia e isso foi aliciante porque era um clube profundamente amador, mas em que eu vi que havia também vontade de toda a gente em crescer, aprender e criar as bases para um caminho que nós estávamos a desenhar e que era notório semana a semana», acrescenta, com orgulho.