Em entrevista a A BOLA, o futebolista que colocou recentemente ponto final na carreira elege os nomes mais marcantes de um percurso com mais de duas décadas

«Fomos todos para a Zara comprar fatos e tirar medidas antes da Champions»

Diogo Valente viveu tempos de glória na Briosa, onde trabalhou com Sérgio Conceição, a quem deve «a longevidade». No Cluj, realizou sonho... milionário

— Do FC Porto, saiu por empréstimo para o Marítimo e passou por outros clubes da Liga até chegar ao 'novo grande', o SC Braga de 2009/10, que ficou em 2.º lugar no campeonato...

— Cheguei a um SC Braga muito forte, com uma base deixada pelo Jorge Jesus. Tínhamos uma excelente equipa e lutámos pelo título até à última jornada com o Benfica. Foi uma época em que comecei a jogar, depois tive uma lesão... Foi oscilante para mim. O SC Braga já tinha uma estrutura muito profissional e organizada, muito semelhante à do FC Porto. Não me admira o sucesso que o António Salvador tem tido, é o grande obreiro. Este ano, o SC Braga está longe dos objetivos no campeonato, por isso acredito que o foco esteja na conquista da Liga Europa. Já deu provas nessa competição, por isso, a minha aposta é que pode ganhá-la.

Diogo Valente passou pelo 'super Braga' de Domingos Paciência - Foto: A BOLA

— Depois do SC Braga, vem um dos clubes mais especiais da sua carreira: a Académica. Como foi essa fase?

— Eu já tinha tido o convite da Académica a meio da época, quando estava no SC Braga. Na altura, o André Villas-Boas era o treinador e manifestou interesse. Optei por não sair em janeiro — aprendi com a experiência no FC Porto que as saídas a meio da época podem ser complicadas. Se fosse hoje, não tinha saído. Se tivesse ficado e esperado, talvez tivesse tido oportunidades que me podiam ter relançado. Como tinha cometido esse erro no FC Porto, optei por ficar em Braga em janeiro. No final dessa época, a Académica voltou a mostrar interesse, mas já com o Jorge Costa como treinador. O Jorge Costa marcou-me muito. Aquela imagem de agressividade e competitividade que ele passava em campo era o oposto do que era como treinador e fora do relvado. Era uma pessoa genuína, com um coração enorme. Aprendi muito com ele a nível de liderança. Fiz uma boa época em Coimbra, conquistei as pessoas e fui feliz. Consegui voltar a mostrar o meu valor, senti que precisava de mais uma época ali. Acabei por ficar e foi das melhores da minha carreira.

— Que foi a época em que venceu a Taça de Portugal...

— Foi, foi a maior conquista da minha carreira. Marcou-me muito por tudo: pela época que fiz, pelo grupo fantástico que tínhamos e por todos os momentos que vivemos na Taça. Foi especial.

— E como foi essa final?

— Foi um jogo inesquecível. Vínhamos de garantir a manutenção no campeonato nas últimas jornadas, o que nos deu confiança. Sabíamos que era difícil contra um Sporting forte, mas sentíamos que era possível. O estádio estava dividido, metade Sporting, metade Académica. Aquela mancha negra no Jamor deu-nos a sensação de que podia ser o nosso dia. Fizemos o primeiro golo muito cedo, depois soubemos sofrer e fomos competentes defensivamente. Os momentos finais, a subida da escadaria, estar no varandim com as maiores figuras do país, levantar a taça, a viagem para Coimbra com uma multidão à nossa espera... São momentos indescritíveis.

Aquela mancha negra no Jamor deu-nos a sensação de que podia ser o nosso dia

— Os adeptos da Académica são especiais?

— São especiais. É pena que não sejam constantes. Coimbra é uma cidade que gosta da Académica, mas as enchentes, como temos acompanhado na Liga 3, só costumam acontecer nos momentos decisivos. É uma cidade estudantil, o que também influencia, mas o clube precisa desse apoio de forma mais constante. Acredito que este ano possa subir à Liga 2. Tem boa equipa e está bem estruturada.

«Mandaram-nos por grupos para a Zara...»

— No final dessa época em que vence a Taça de Portugal, o contrato termina.

— Sim, foi a única altura na carreira em que fiquei livre. Tinha estado sempre ligado contratualmente a clubes. Tinha feito uma grande época e surgiu o convite do Cluj, da Roménia. Foi uma oportunidade, não só financeira, mas também para realizar outro sonho: jogar na Liga dos Campeões.

— Foram ganhar a Old Trafford, mas não jogou. O que aconteceu nesse jogo?

— Acabei por ficar na bancada. Na Champions, adotámos um sistema mais defensivo, que não me beneficiava. Foi uma frustração não jogar ali, naquele estádio mítico, embora o ambiente não estivesse tão fervoroso, porque o Manchester United já estava apurado.

Diogo Valente, à direita, viveu a era dourada dos romenos do Cluj

— Viveu alguma experiência insólita na Roménia?

— Muitas. O Cluj é um clube grande, ao nível dos nossos três grandes em termos financeiros, mas depois falha muito a nível organizacional. Lembro-me de que íamos jogar o primeiro jogo da fase de grupos da Champions contra o SC Braga e, 15 dias antes, o clube não tinha fatos para os jogadores. Então fomos divididos em grupos e mandaram-nos à Zara comprar fatos e tirar medidas. Uma equipa que ia jogar a Liga dos Campeões a ir à Zara tirar medidas... surreal.

«Tive muitas pegas com o Sérgio Conceição, mas devo-lhe muito»

— Depois voltou à Académica. Porquê regressar?

— Voltei, mas não foi por minha vontade inicial. Eu tinha contrato com o Cluj por três anos. No ano em que jogámos a Champions, o investidor fez um investimento muito forte, mas no ano seguinte não nos apurámos para as competições europeias. Por isso, houve desinvestimento. Queriam reduzir-me o salário e eu não aceitei. A solução foi sair. Na altura, tinha o Estoril do Marco Silva para ir, mas o coração falou mais alto. Já tinha tido sucesso na Académica, era muito querido lá e decidi voltar, na altura com o Sérgio Conceição.

— Como foi trabalhar com o Sérgio Conceição?

— Foi uma época de grande aprendizagem. O Sérgio é extremamente exigente e obsessivo pelo sucesso, o que causa muitos atritos, ainda para mais num clube onde a obrigação não é ganhar sempre. Os objetivos da Académica não são os mesmos do FC Porto e ele trazer essa mentalidade causou atrito. Tive muitas pegas com ele, mas sempre com muito respeito e com uma ótima relação. Foi um treinador com quem tive uma evolução muito grande aos 28 anos, a nível tático e de rigor, quando já tinha oito anos de Liga. Senti que, para estar ao alto nível, o jogador tem de ser assim. A partir daí, ativei ali um chip de competitividade, ética e capacidade de trabalho que, sem dúvida, foi o segredo para esta minha longevidade. Agradeço-lhe muito por isso.

Diogo Valente conquistou a Taça de Portugal pela Académica, em 2012 - Foto: A BOLA