Pipocas no colapso do Benfica
Benfica e Sporting esfregaram as mãos quando o FC Porto, justíssimo campeão, deu indícios de poder fraquejar no último terço da época e, um ano depois do tombo impensável que viveu no Ajax, Francesco Farioli poder ver repetir-se o pesadelo, mas acabaram por ser os rivais de Lisboa, afinal, a terem de disputar entre si o título de maior falhado na Liga. Em dois anos na presidência, André Villas-Boas já é campeão nacional de seniores e juniores, tem o de juvenis ao virar da esquina e o de iniciados também é bem possível. Arrasador.
Contra um Sporting estoirado física e mentalmente, o Benfica pensava ter minimizado os danos de (mais) uma época falhada na era Rui Costa e nem a borla do rival nas Aves foi aproveitada para garantir os tão necessários milhões da Champions. Com nove dias para preparar a receção ao SC Braga, que vinha de uma meia-final europeia a jogar com 10 desde os sete minutos, o Benfica foi, uma vez mais, insuficiente. Não foi bom, como José Mourinho no final quis crer, no habitual sacudir de responsabilidades e responsabilização de terceiros dos últimos anos da sua carreira.
Em quase uma época de trabalho, e a jogar uma vez por semana desde há bastante tempo, não se vê ponta de evolução na equipa, que continua letárgica, pouco pressionante e quase 100 por cento dependente do que Andreas Schjelderup, um gigantesco talento que foi ignorado tempo demais e esteve com pé e meio fora no mercado de janeiro, invente lá na frente.
Falhar a Liga dos Campeões, o cenário muito provável nesta altura, será absolutamente catastrófico, mas pouco surpreendente e o resultado natural de uma gestão calamitosa de Rui Costa, sem fio condutor que possa explicar que esteja à procura do sexto treinador em outros tantos anos. E todos eles tão diferente entre si como são Roger Schmidt, fã do gegenpressing e da pressão alta com domínio do jogo, ou Mourinho, um assumido resultadista que se molda ao adversário. Lógica? Não há.
De querer renovar até por 10 anos até ao evidente desejo de sair para terminar o trabalho no Real Madrid foi um instante e o silêncio de Rui Costa quando o rolo-compressor de nomes para a sucessão começou foi mais um ato da ingestão que tomou de assalto o Benfica nos últimos anos.
Do futebol às modalidades (as águias falharam em quatro das cinco decisões de títulos no último fim de semana), a Luz é um castelo de cartas a ruir por todos lados e ao qual o presidente assiste, resignado, de pipocas na mão, vendo os títulos fugir enquanto os rivais são campeões europeus. Em junho há Assembleia Geral, presumivelmente quentinha, e Rui Costa deverá dar explicações aos sócios. Muitos dos que se revoltaram anteontem votaram nele em outubro e novembro passados, mas as labaredas do incêndio são demasiado grandes para que possam ser ignoradas pelo presidente do benfica.