A empatia, segundo Farioli (um entre muitos portugueses no banco)
Ri-me, confesso. Quando se começou a dizer que a grande lacuna de Roger Schmidt no Benfica era, ao fim de tantos meses, não dizer uma única palavra de português, ri-me. E foi mesmo um dos pregos na sua cruz.
Não só os jornalistas o entendiam e podiam filtrar as suas palavras para gente menos esclarecida, como provavelmente todos os jogadores percebiam o que deles era pedido sem esforço, desde o primeiro dia. Schmidt foi campeão, porém desmoronou-se, face ao peso dos resultados posteriores. A falta de apoio por parte da direção, que o deixou sozinho a lutar com adeptos em fúria, qual D. Quixote e moinhos de vento, foi decisiva. Mais do que as exibições — quem viu ambas, não pode dizer, em perfeito juízo, que as de agora são melhores —, a falta de rumo no mercado, a falência da ligação ao scouting e uma rigidez tática de fundamentalista combinaram entre si para o adeus.
Hoje, todos se lembram do teimoso alemão a dizer aos adeptos para ficarem em casa se estavam no estádio para assobiar. A lógica do politicamente correto alerta-nos que não o deveria ter dito. No entanto, tinha razão. E não podemos viver num meio em que não se tolera a verdade. Schmidt alertava-nos para a cultura desportiva que não temos.
Francesco Farioli não fala português. Está em Portugal há sete meses. É italiano e fala italiano, que tem muito mais parecenças com o português do que o alemão. Num mundo feroz como o de hoje, ambos preferem expressar-se em inglês, a fim de evitar equívocos. Só que o paralelismo acaba aqui. Se um foi crucificado, o outro é endeusado. Muito provavelmente, o italiano será o novo campeão. Ao vencer, a comunicação foi fácil. A mensagem passou, mas as conferências foram brilhantes? Ou talvez o latino tenha sido mais empático. Mais português entre muitos no banco.
O técnico contou sempre por perto com Villas-Boas — dá-me pena que após tantos anos se mantenha esta inspiração em truques do passado, como a TV na cabine do árbitro, bolas que desaparecem nos descontos e cartazes no balneário rival — disposto a fazer o trabalho sujo na guerra pelo penálti e pelo poder, aliviando também a pressão sobre os jogadores.
Na Luz, nunca houve apoio ao treinador. O Benfica não passa de enormes peças soltas a gravitar à volta do passado. É, por isso, que um aglutinador como Amorim e um Mourinho doutros tempos fazem sentido porque preenchem o vazio na decisão. E vejam: até falam português!