Os profissionais da indignação e a arte de não resolver nada
A morte de Fernando Mamede reacendeu, como tantas outras antes, o ritual previsível do espaço público: homenagens sentidas, palavras certas, diagnósticos corretos e indignações recicladas. Durante alguns dias voltou a falar-se de esquecimento, de saúde mental, de falhas estruturais no desporto. E, como quase sempre acontece, a intensidade da comoção foi inversamente proporcional à capacidade de produzir mudança.
Não se trata apenas de Fernando Mamede. Trata-se do que invariavelmente acontece quando um nome maior desaparece: o país olha-se ao espelho por breves instantes, reconhece falhas antigas e regressa rapidamente ao conforto do costume. É neste contexto que emerge um tipo de protagonista recorrente no espaço público — não o cidadão comum, nem a indignação espontânea de quem observa de fora, mas figuras que falam a partir de dentro.
Falamos de quem teve palco, mandato, acesso e legitimidade institucional. De quem circulou por conselhos, federações, associações, gabinetes, comissões e painéis de especialistas, precisamente nos domínios mais estruturantes para o desenvolvimento desportivo: integridade, carreiras duais, transição e pós-carreira, boa governação, ética e transparência. Temas repetidos até à exaustão e adiados com igual persistência.
Este protagonista não é o oportunista óbvio nem o cínico declarado. É mais sofisticado. Apresenta-se como consciência crítica, como voz precoce, como alguém que «avisou antes de ser moda». Faz questão de sublinhar que esteve lá quando ninguém estava, que falou quando ninguém quis ouvir, que fez quando outros se calaram. E talvez seja verdade. Mas quando esse passado é usado não como enquadramento, mas como escudo moral, deixa de ser virtude e passa a ser álibi.
A crítica que produz é ampla, confortável e cuidadosamente desfocada. O culpado é sempre abstrato: «o sistema», «o Estado», «as entidades», «a sociedade». Uma nebulosa de responsabilidades que nunca ganha nome próprio, cargo, decisão ou cadeia de comando. Curiosamente, isto acontece sobretudo nos domínios onde seria mais fácil exigir métricas, modelos e prestação de contas — precisamente aqueles que se proclamam pilares do desporto moderno. Quando todos falharam, ninguém responde — sobretudo quem esteve em posição de responder.
O tom é sempre alto, como se a gravidade fosse prova de seriedade. A indignação mantém-se em regime permanente, sem pausas, sem dúvida, sem autocrítica. Mas a indignação contínua não mobiliza; anestesia. O discurso torna-se automático e confortável, porque dispensa balanços e evita a pergunta essencial: o que ficou efetivamente montado?
Depois surge o momento-chave: o da legitimação pessoal. A narrativa faz questão de explicar quem fez, quem liderou, quem esteve à frente, quem organizou, quem alertou. Não como contexto, mas como eixo central. A causa transforma-se em palco, a crítica em currículo. Questões estruturantes como integridade, carreiras duais ou pós-carreira deixam de ser problemas de sistema para se tornarem cenários onde o protagonista reafirma que tinha razão — ainda que essa razão nunca tenha produzido arquitetura institucional duradoura.
É aqui que a pergunta inevitável se impõe, e quase nunca é enfrentada: se tanto foi feito, porque é que o problema continua exatamente igual? Se após décadas de discursos sobre ética, governação e transição de carreira os atletas continuam desprotegidos, se o pós-carreira continua entregue à sorte e à boa vontade episódica, então o problema não é de diagnóstico — é de incapacidade de transformação. E insistir na enumeração do que foi feito deixa de ser argumento: passa a ser confissão de impotência estratégica.
O discurso resvala então para aquilo que mais diz combater: a instrumentalização. Pessoas reais, com percursos complexos e fragilidades profundas, tornam-se exemplos funcionais. O sofrimento legitima a narrativa. A ética vira palavra-chave. A integridade transforma-se em slogan. Tudo serve para reforçar a posição moral de quem fala; pouco serve para criar sistema.
Quando surge a responsabilidade coletiva, o tom muda. Fala-se vagamente de falta de solidariedade, de silêncio dos pares, de ausência de união. Mas nunca com a contundência reservada às entidades. Nunca com consequências. Porque aí o custo é outro: fratura, desconforto, isolamento. E o profissional da indignação prefere o aplauso transversal ao conflito necessário — sobretudo quando esse conflito implicaria mexer em modelos de governação que ajudou a legitimar.
O desfecho é previsível. Depois de páginas de denúncia, sobra um apelo genérico a políticas estruturantes, códigos de ética, acompanhamento e transição de carreira. Tudo certo. Tudo consensual. Tudo vazio de engenharia institucional. Não há prioridades, não há modelo, não há responsáveis, não há calendário. A crítica morre no ponto exato em que teria de se tornar executável.
Este tipo de protagonista não falha por falta de lucidez. Falha por excesso de conforto. Sabe o que está errado e diz bem o que está errado, mas constrói o discurso de modo a nunca se colocar verdadeiramente em risco — nem a si, nem aos seus pares, nem às estruturas que habitou.
É aqui que se dá a transição mais perigosa: da relevância para a irrelevância funcional. A figura deixa de ser agente e torna-se caixa de ressonância. Amplifica o discurso sobre ética, integridade e carreiras, mas não deixa mecanismos. Repete princípios, mas não cria garantias. Denuncia falhas, mas não constrói legado.
Porque legado não é ter razão.
Não é falar de ética.
Não é invocar boa governação.
Legado é aquilo que permanece quando a voz se cala. Quando a estrutura funciona sem precisar do protagonista. Quando o sistema protege quem dele depende.
No fim, o país continua igual. Os problemas repetem-se. Os temas são os mesmos. Os protagonistas também.
Não lhes falta razão. Falta-lhes coragem para sair do lugar seguro da crítica e entrar no território instável da responsabilidade.
Porque denunciar é fácil. Organizar é difícil.
E transformar exige mais do que ter razão — exige abdicar do conforto moral de a repetir.
Até ao próximo caso.
Até à próxima indignação.