Mudar as regras a meio
Diz-se que não se devem mudar as regras a meio e que demasiados cozinheiros estragam o caldo. No Futebol Profissional, estas verdades da vida devem aplicar-se de forma clara: deve o setor depender de si próprio e ser dono do seu caminho, com estabilidade, previsibilidade e responsabilidade.
Vejamos o tema da distribuição dos fundos de solidariedade da UEFA aos clubes da Liga Portugal, uma prática que remonta aos anos 90, com partilha entre os emblemas da Liga e da Liga 2. É certo que detalhes e fórmulas foram evoluindo, mas o princípio manteve-se… até agora.
O que mudou? Mudou o entendimento da Federação Portuguesa de Futebol que, enquanto legítimo gatekeeper delegado da UEFA no nosso País, entendeu que a deliberação unânime das Sociedades Desportivas existente para essa partilha carecia de revisão a partir de 2026. Esse entendimento não acompanhou a leitura da atual liderança da Liga Portugal, para quem a deliberação tomada em setembro de 2024 produzia efeitos, nos seus próprios termos «a partir da presente época de 2024/25», sendo, portanto, e no mínimo, aplicável à presente época. Assim, o que era matéria assente deixou de o ser e a vontade expressa pela maioria dos votos das Sociedades Desportivas que integram a Liga deixou de ser considerada suficiente no enquadramento do sistema internacional governado pela UEFA, onde a FPF, por direito, representa Portugal, uma vez que era exigido 75 por cento para a sua aprovação.
Estas dinâmicas contrastam claramente com o momento vivido pelo País, que, assolado por uma terrível calamidade, demonstra uma extraordinária capacidade de entreajuda e cooperação, visível também, neste contexto, nas manifestações de solidariedade protagonizadas, de imediato, por Vitória SC ou o Estrela da Amadora —, e vai às urnas em pleno respeito pela regra da maioria.
Mas tudo isto reforça a importância de um modelo de financiamento sustentável para as Sociedades Desportivas. Um modelo que deve radicar no valor que o próprio produto gera, como é o caso dos direitos audiovisuais, (ainda) reconhecidos explicitamente na lei como património exclusivo das Sociedades Desportivas.
Ficam igualmente evidentes os riscos associados a receitas que não estão sob controlo direto das Sociedades Desportivas, dependentes de mecanismos externos e suscetíveis de gerar instabilidade ou de ficar à mercê de outros entendimentos. O Futebol Profissional tem, assim, de depender de si próprio e de construir o seu caminho, de forma aberta ao exterior e com a mesma reciprocidade com que capitais portugueses são também acolhidos noutros países. Importa, por isso, trabalhar na construção de soluções que reforcem a sustentabilidade do setor, com foco no aumento de receitas e na implementação de mecanismos que promovam maior racionalidade e controlo dos custos.
É esse o nosso objetivo!