A reportagem de João Pimpim, André Carvalho e Miguel Nunes, enviados-especiais A BOLA ao Mundial 2026

O milagre dos tripés antes da goleada portuguesa em Houston

Crónica diária sobre o dia a dia de um jornalista na cobertura do Mundial 2026

HOUSTON — O Texas não é um estado; é uma hipérbole. Em Houston, o ar não se respira, mastiga-se, espesso de um calor que, logo às nove da manhã, já derretia as convicções de qualquer europeu. Foi nesta sauna apocalíptica que a nossa equipa de reportagem se propôs a acompanhar a fan walk portuguesa rumo ao estádio.

Um trânsito infernal, daqueles que transformam avenidas em parques de estacionamento, obrigou o fotógrafo Miguel Nunes a saltar a meio da viagem: foi a pé, de lente em riste, fundindo-se na maré vermelha e verde.

Ficámos eu e o André Carvalho. Às costas, o kit de sobrevivência do jornalismo moderno: mochilas com computadores, baterias, cabos e câmaras que pareciam pesar toneladas, microfones e o derradeiro inimigo das articulações humanas — os tripés. 

Sob o aparato de segurança digno de um filme de ação, um pequeno veículo da polícia que liderava o cortejo, com uma mini caixa aberta atrás, pareceu uma miragem no deserto. Num pacto luso-americano improvisado, nós e mais duas equipas de TV portuguesas depositámos ali os tripés. Alívio imediato.

O drama começou às onze da manhã, a uns escassos 60 minutos do apito inicial do Portugal-Uzbequistão. Às portas do gigante de aço, olhámos em redor e... a carrinha? Nem vê-la. Sumira-se no éter do dispositivo de segurança. Entrámos em pânico: fazer diretos para A BOLA sem tripé, em cima da hora do jogo e com tanto Mundial ainda por reportar, é o equivalente a jogar uma final sem guarda-redes.

Iniciámos marcha atrás, lavados em suor, interpelando autoridades dignas de uma série de TV. Mas, no meio daquela imensidão, nem a mística dos Texas Rangers parecia conseguir localizar o nosso material. Até que, num golpe de teatro digno de Hollywood, a carrinha cruzou-se connosco. O polícia travou e festejou o reencontro com o mesmo entusiasmo que todos nós.

«Ora aqui está um bom prenúncio para o jogo de Portugal», desabafou a Catarina, colega de outro canal. E que prenúncio. Completamente estourados, mas com o material a salvo, corremos para o estádio a tempo de ver o massacre: 5-0 ao Uzbequistão. Sobrevivemos ao Texas, os diretos estão garantidos e a Route 66 continua bem viva.

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