Ricardinho, antiga estrela do futsal, sempre surgiu ligado a projetos de futebol de rua. Foto Miguel Nunes
Ricardinho, antiga estrela do futsal, sempre surgiu ligado a projetos de futebol de rua. Foto Miguel Nunes

Precisaremos de um futebol de impacto?

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Nuno Brito Jorge, cofundador e CEO da Goparity, empresa de investimento sustentáveis

O Mundial de futebol de 2026 terminou há pouco, mas já nos deu muitas razões para parar de acreditar — se ainda o fazíamos — nos seus méritos desportivos. As ingerências de Trump, a fraca figura da FIFA, as denúncias de corrupção, os problemas com o controlo de fronteiras e entradas no país — com expoente máximo no tratamento e condições da seleção do Irão —, ou a excessiva dependência de uma tecnologia com margens de erro superiores a alguns dos offsides assinalados.

A nível nacional, não foi melhor: o fracasso de uma Seleção portuguesa refém da sua grande vedeta — o que é diferente de ser o seu melhor jogador (e não, não querer o Ronaldo 90 minutos em campo não é ser mal-agradecido) —, com um Selecionador que quase não disse uma coisa acertada em todo o mundial, das referências à numerologia ao orgulho em perder 1-0 com Espanha.

A tudo isto junta-se o modelo make the rich richer levado ao expoente máximo, com David Beckham, que já nem joga futebol, mas é dono do Inter de Miami (equipa onde joga Lionel Messi), a liderar nos contratos publicitários com patrocinadores do Mundial e a beneficiar da americanização do futebol, que passou a ter três pausas publicitárias.

Mas não é sobre isto que quero escrever, nem sobre o cartel de patrocinadores liderado por casas de apostas que, tal como acontece na Federação Portuguesa de Futebol, um pouco por todo o Mundo e também noutros desportos, arruínam famílias e vidas de jogadores enquanto nos querem convencer (e aos milhões de crianças que vêm os jogos do Mundial) que apostar é fácil, dá dinheiro e faz sonhos acontecer.

O que pretendo é fazer uma reflexão mais profunda sobre o desporto em geral, mas em especial sobre o futebol como desporto-Rei.

O futebol de seleções era uma espécie de último reduto para os que queriam vibrar com futebol, com grandes jogos, grandes jogadores e grandes golos de forma descomplexada, sem a sombra da monetização, dos casos de corrupção, das manipulações de resultados, dos clubismos exacerbados ou dos vieses criados pela entrada de capital privado na estrutura de capital dos clubes. Para os que queriam apenas amor à camisola, orgulho na seleção e deixar tudo em campo. Hoje, isso acabou.

Mas é quando os sistemas vigentes e os incumbentes falham que as alternativas avançam. Foi quando a economia mostrou que, apesar da criação de riqueza, não era possível evitar a sua má distribuição nem assegurar a inclusão dos mais desfavorecidos, que nasceu a economia social. Foi quando os Bancos falharam na transparência e nos valores que nasceu a Banca Ética. Foi quando as utilities deixaram de ter o objetivo de servir o consumidor e passaram a ter como prioridade maximizar os lucros, que renasceram as cooperativas de energia («renasceram», porque as primeiras tiveram origem na eletrificação onde as elétricas não chegavam). E foi quando as gestoras de fundos falharam em deixar fora dos seus investimentos áreas como armamento, guerra, jogo ou destruição ambiental que nasceu o investimento de impacto.

Será que precisamos de um futebol de impacto? Futebol jogado pelo jogo, pela glória, mas sem faltas simuladas, sem corrupção, sem o 11 inicial condicionado pelos empresários mais influentes... Um futebol em que a equipa e o jogo estão acima do ego (admito, aqui, um viés de português).

Podemos chamar a estas áreas ou setores nicho, mas a verdade é que assumem volumes já muito relevantes: são investidos, anualmente, mais de 50 mil milhões de euros em impacto e há mais de 500 milhões de pessoas que escolheram a banca ética e estruturas cooperativas ou mutualistas. Contudo, estes números ainda representam só as pessoas e empresas que decidiram atuar quanto a uma preocupação. O potencial é gigante.

No futebol também já conseguimos encontrar alguma iniciativas com relevância e com impacto, como o Futebol de Rua da Associação CAIS em Portugal, o A.E. Ramassá na Catalunha (o primeiro clube ONG de futebol em Espanha), o Dragones de Lavapies em Madrid, e torneios como a Homeless Word Cup, focada em combater o problema dos sem-abrigo (que deu origem ao filme The beautiful game), ou a FENIX Cup, para clubes de gestão democrática ou um propósito especial, e outras iniciativas mais institucionais como a Common Goal ou Football for the Goals das Nações Unidas.

Não sei exatamente a que se parecerá o futebol de impacto ou o futebol ético, mas tenho a certeza que será parecido com aquilo que devia ter sido.

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