Cristiano Ronaldo liderou a vitória segura de Portugal - Foto: EPA/MIGUEL A. LOPES
Cristiano Ronaldo liderou a vitória segura de Portugal - Foto: EPA/MIGUEL A. LOPES

Portugal responde ao ruído com... 'Silêncio, que vai cantar Ronaldo!' (crónica)

Nada como uma goleada para esquecer a pobreza de um empate com a RD Congo que tanta poeira levantou entre Palm Beach e Houston. Depois de Messi, Mbappé e Haaland, eis CR7 também a ‘entrar’ no Mundial

HOUSTON — Houve muito ruído lá fora, aquele barulho mundano e cinzento das dúvidas eternas, das projeções táticas e das análises frias que tentam prender a beleza do jogo a meros esquemas de laboratório. Mas quando a bola começou a rolar no imenso e imponente anfiteatro do NRG Stadium, em Houston, o mundo inteiro aprendeu que a verdadeira arte não se discute nas redes sociais; contempla-se em silêncio no relvado.

A Seleção Nacional não se limitou a vencer um jogo de futebol em solo americano; assinou, sim, um tratado inesquecível de beleza, poder e superioridade coletiva, um monólogo avassalador de camisolas vermelhas que transformou o tapete verde num palco de opulência futebolística. Cinco golos foram cinco pancadas secas de um mestre num concerto sinfónico perfeito, onde o esforçado Uzbequistão acabou por ser quase um mero espectador, impotente e atónito perante a imponência e sofisticação da armada lusa.

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E o silêncio fez-se ordem, respeito e oração quando a genialidade intemporal de Bruno Fernandes decidiu desenhar uma linha reta perfeitamente geométrica onde os simples mortais só conseguiam ver o caos e a densidade defensiva adversária. Um passe teleguiado, executado com a precisão milimétrica de um cirurgião e com a alma sensível de um poeta, rasgou o horizonte cinzento para encontrar o homem do destino.

Cristiano Ronaldo, eterno, imutável e insaciável na sua caminhada dourada, recolheu a oferenda divina com a classe dos eleitos. Quase sem ângulo de tiro, desafiando as leis elementares da física e a própria geometria sagrada do jogo, desferiu o golpe fatal que todos ansiavam. Era o 3-0 ainda antes do intervalo, para trás ficava outro golo do capitão e mais um de Nuno Mendes - quem se lembra de como foram decisivos para a conquista da Liga das Nações há um ano?

O estádio ruiu em êxtase, a assistir ao vivo a mais uma página de ouro do ídolo de milhões que, aos 41 anos, ainda consegue mover-se com o faro de golo intacto e com a fome de quem, mesmo já tendo conquistado o firmamento, ainda persegue a perfeição em cada milímetro de relva que pisa.

Portugal geriu o tabuleiro com a altivez e a serenidade dos grandes conquistadores da história. No miolo, o jogo fluía com um perfume inebriante, pautado pela inteligência coletiva e pela batuta de Roberto Martínez, que ia movendo as suas peças com a segurança de um xadrezista que sabe antecipadamente o xeque-mate.

Entretanto, João Félix ia desgastando as muralhas contrárias até à exaustão, lutando entre os centrais, numa pressão que acabou por forçar o oponente ao erro trágico e fatal do autogolo: Khusanov, com um desvio infeliz, anunciava a tempestade perfeita no Texas.

Pouco depois, Vitinha, o motor silencioso e o arquiteto dos equilíbrios da equipa, saía de cena sob merecida e estrondosa ovação dos deuses do estádio. Um tributo merecido ao motor criativo desta equipa e que tão bem controlou o meio-campo neste duelo.

Mas ainda havia mais: o  fado desta noite mágica e quente na América guardava um crescendo avassalador para o fecho solene das cortinas: Rafael Leão saltou do banco de suplentes com a irreverência indomável dos grandes predadores da noite, esboçou o perigo na ala, saboreou o quase num lance anterior que lhe escapou por entre os dedos, até que,, aos 87’, ligou o turbo supersónico, desfez toda a oposição direta como quem afasta nuvens pesadas com as próprias mãos e soltou um trovão dos céus.


Um míssil terra-ar, disparado à velocidade absurda e impressionante de 113 km/h, que quase rasgou a alma das redes uzbeques e selou a contagem na mítica mão cheia. Foi um estoiro tremendo de raiva, talento puro e potência física que ecoou por toda a América do Norte.


O apito final do árbitro foi o culminar lógico de uma sinfonia perfeitamente executada.


Portugal calou, para já, o ruído exterior com o estrondo dos seus golos, com a leveza perfumada do seu futebol e com a certeza absoluta de que, quando o talento luso decide cantar de peito feito, o resto do mundo só tem mesmo espaço para escutar com atenção, reverenciar e aplaudir de pé.

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