Crescer com equilíbrio
No futebol, há uma tentação recorrente: confundir crescimento com capacidade de gastar. Que um maior investimento é, sempre, sinal de desenvolvimento. Mas há uma pergunta anterior, menos mediática e talvez mais importante: quanto desse crescimento é sustentável?
É aqui que entra o fair play financeiro. Não como travão à ambição, nem como exercício burocrático de controlo, mas como condição para que a ambição possa durar. Porque uma competição só é verdadeiramente mais forte quando os seus clubes conseguem crescer sem transformar o futuro numa dívida do presente.
O incumprimento financeiro de um clube não fica, aliás, dentro das suas próprias contas. Produz efeitos sobre todo o ecossistema. Afeta fornecedores, trabalhadores, jogadores, credores, investidores e, sobretudo, a confiança que o mercado deposita na competição. No futebol profissional, a credibilidade de uns é também um ativo dos outros.
É por isso que o equilíbrio financeiro não pode ser visto apenas como uma questão moral. É uma questão económica. E uma competição que quer valorizar o seu produto, atrair capital e aumentar receitas precisa de regras que assegurem previsibilidade, transparência e responsabilidade.
A centralização dos direitos audiovisuais torna esta discussão ainda mais relevante. A partir de 2028/29, o Futebol Profissional português tem uma oportunidade única para aumentar o valor coletivo das suas competições, respeitando a vontade das Sociedades Desportivas, decisoras em todo este processo. Mas distribuir mais receitas sem reforçar a disciplina financeira seria apenas aumentar a dimensão de um problema que queremos, precisamente, resolver.
O objetivo não pode ser gastar menos. Tem de ser gastar melhor. Isso significa criar condições para que as Sociedades Desportivas planeiem, invistam e assumam risco empresarial, mas dentro de limites que protejam a sua própria sustentabilidade e a da competição. Significa também reforçar a governação, a transparência e a capacidade de antecipar problemas, em vez de esperar que eles cheguem ao ponto de rutura.
É este o sentido do trabalho que a Liga Portugal está a desenvolver com as Sociedades Desportivas em matéria de fair play financeiro: construir um modelo que combine ambição e responsabilidade, investimento e sustentabilidade, competitividade e equilíbrio.
O fair play financeiro não é, por isso, o preço a pagar para crescer. É uma das condições para podermos crescer. Porque o verdadeiro sucesso não está em gastar mais hoje. Está em criar valor suficiente para continuar a crescer amanhã.