Benfica-Académico de Viseu (Foto: Miguel Nunes)
Benfica-Académico de Viseu (Foto: Miguel Nunes)

Ineficaz, anacrónica e desmiolada

Jogos à porta fechada são um crime de lesa-desporto, cometido pelo legislador. O Benfica perdeu 1,5 milhões com a decisão? Então que fosse punido em 1,5 milhões e as portas se mantivessem abertas. Quem pode falar em justiça quando se trata, por igual bitola, o adepto ‘normal’ e o ‘hooligan’? Noutro âmbito, a centralização continua com muito que se lhe diga…

NÃO vou discutir o mérito da decisão de ordenar que o Benfica-Académico de Viseu se realizasse à porta fechada. Os tribunais não fazem as leis, aplicam-nas, e se queremos encontrar ‘responsáveis’ por esta medida devemos virar-nos para os legisladores.

Estes, ao estabelecerem como sanção o encerramento ao público dos estádios durante os eventos desportivos, prestaram um péssimo serviço, e colocaram-se contra a essência do futebol, que tem nos adeptos o alfa e o ómega. Quando determinaram esta medida não pensaram, ou, se o fizeram, não foram suficientemente profundos e maduros. Recorrer ao império do cimento e à ditadura do silêncio para resolver problemas disciplinares, não só não ajuda nada, como ainda cria uma sensação de revolta que tenderá a piorar a situação.Os adeptos, ‘lato sensu’, não têm culpa das ações de meia dúzia de energúmenos e não podem ser punidos todos pela mesma bitola. E, do que estamos a falar, é, a um tempo só, dos direitos dos adeptos e da essência do jogo, desvirtuado por uma legislação anacrónica, ineficaz e populista.

Peguemos no exemplo do Benfica-Académico de Viseu que trouxe ao Benfica, segundo a comunicação social, prejuízos na ordem dos 1,5 milhões de euros. Partindo do princípio de que os atos praticados, que levaram à sanção de se jogar à porta fechada, não podiam ficar sem punição (e quanto a isto, a doutrina parece-me pacífica), porque não alterar a lei e obrigar o clube prevaricador (que responde pelos ‘hooligans’ que são seus alegados adeptos) a uma sanção de igual valor monetário? Haverá alguém que pense que 1,5 milhões são trocos, seja para quem for? Não me parece. Assim, pela dureza do castigo, haveria eficácia garantida, ou, se quisermos, incentivo para uma maior proatividade quanto a quem tem acesso aos lugares destinados aos sócios e adeptos; e ao mesmo tempo não se assassinaria a natureza do futebol, impedindo a presença de adeptos.

Depois do que passámos durante a pandemia, em que foi preciso sobreviver (fechando, por questões sanitárias, as portas dos estádios), para que a seguir pudéssemos voltar a viver, deveria haver uma sensibilidade maior por parte do legislador, porque essa experiência, embora necessária, não deixou de ser traumatizante. Mas não. O empedernimento quanto à natureza do jogo foi total e, apesar da inquestionável legalidade da medida agora aplicada, ninguém poderá dizer que foi feita justiça. Pensem, pensem melhor, pensem com maior reflexão, e alterem a lei, no sentido de fazerem pagar o clube e não os adeptos. O Benfica ou outro qualquer…

O TEMA da venda centralizada dos direitos televisivos dos clubes está muito longe de ser assunto arrumado. Depois de vários encontros com as lideranças parlamentares, o Benfica avançou com uma petição à Assembleia da República, no sentido de esta matéria ser discutida (e repensada) no Plenário de São Bento. Durante os próximos 60 dias, a petição dos encarnados, que tem em Rui Costa o primeiro signatário, estará em discussão pública; precisa de 7.500 assinaturas para subir ao Plenário para reapreciação da legislação aprovada pelo último governo socialista. Por não me parecer difícil que o Benfica consiga atingir os requisitos legais necessários, o melhor mesmo é não darmos nada como certo e prepararmo-nos para assistir às cenas dos próximos episódios.

FOTOLEGENDA

Há um número mágico no universo da FIFA, o 106, que corresponde ao número de votos necessários para eleger o presidente da instituição, num universo das 211 Federações nacionais que tomarão, em março de 2027, a decisão sobre o sucessor de Infantino. Pelo que se tem visto, o suíço que lidera o futebol a partir de Zurique, está mais do que disposto a ir a jogo e, pelo sistema eleitoral vigente, é tudo menos uma carta fora do baralho. Podemos estar na antecâmara do primeiro grande cisma na FIFA, desde a fundação, em 1904, e essa é uma questão que deve manter a chamada ‘família do futebol’ em estado de alerta máximo.

CAPA

Bernardo nunca viveu uma ‘chicotada psicológica’

Bernardo Silva, ao longo de 13 épocas, conheceu poucos treinadores, nos quatro clubes que representou: Jorge Jesus, Leonardo Jardim, Pep Guardiola e agora José Mourinho. Será, até, um dos poucos jogadores a poder dizer que não sabe o que é uma ‘chicotada psicológica’. Em Madrid, na ‘Casa Blanca’, logo que recupere índices físicos ‘normais’, ‘Mou’ tem-lhe reservado o papel de ‘playmaker’. Um desafio que não irá, por certo, tirar o sono a Bernardo… 

CARTAS

ÁS

Demi Vollering

A neerlandesa de 29 anos, ciclista da FDJ United-Suez, venceu pela segunda vez o Tour de France, que juntou a um Giro e a duas Vueltas. Estamos perante uma das maiores desportistas da terceira década do século XXI, numa modalidade que, no feminino, está a viver um ‘boom’ espetacular.

REI

João Almeida

‘Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay…’ Eu sei que a vida de um desportista é assim mesmo, mas no que respeita ao ciclista de A-dos-Francos dá vontade de dizer «basta!». Depois de tudo o que passou não merecia aquela queda na Volta a Polónia. Enfim, venha de lá essa Vuelta.

DUQUE

Luciano Gonçalves

A nomeação de Gustavo Correia, que mentiu no relatório do Famalicão-Benfica da época passada, para o Gil Vicente-Rio Ave ontem disputado, é a prova provada de que o Conselho de Arbitragem não passa de uma extensão da APAF. É corporativo e desprestigia a arbitragem.

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