Loja em Fort Lauderdale, estado da Florida, Estados Unidos
Loja em Fort Lauderdale, estado da Florida, Estados Unidos

Queria pagar a t-shirt... e a caçadeira, por favor

Entre as praias de Miami e o quartel-general de Portugal em Palm Beach, a rubrica Route 66 faz uma paragem obrigatória no Outdoor World. Uma imersão na mega loja Bass Pro Shops que serve de autêntico banho de realidade sobre a cultura de armas de fogo nos Estados Unidos

FORT LAUDERDALE — A viagem que une os pontos nevrálgicos deste Mundial 2026 estende-se muito além das quatro linhas. Fazer a cobertura de uma grande competição em solo americano é, também, esbarrar com os contrastes profundos de uma sociedade que teima em desafiar a lógica europeia. 

No trajeto de regresso de Miami para a tranquilidade de Palm Beach, onde a Seleção de Portugal prepara o embate com o Uzbequistão, a equipa de reportagem d’A BOLA fez um desvio de rota. O destino? O Outdoor World, que alberga no seu interior a famosíssima Bass Pro Shops.

O que se perspectiva como uma simples visita de curiosidade transforma-se num choque cultural avassalador. À entrada, a imponência impressiona: tetos altíssimos de madeira rústica, decorações que emulam florestas densas e quedas de água artificiais. O verdadeiro banho de realidade surge ao avançar em direção aos balcões laterais.

Nos Estados Unidos, a venda livre de armas de fogo acontece sob as mesmas luzes brilhantes com que se escolhe um boné. Ou um chocolate. Nas vitrines de vidro, mesmo à nossa frente, repousam dezenas de pistolas e revólveres com etiquetas de preços banais e, atrás do funcionário — que manuseia o telemóvel com total indiferença —, a parede ostenta caçadeiras, espingardas de alta precisão e, até, metralhadoras automáticas que pareceriam mais adequadas a um cenário de guerra.

A mecânica do processo deixa transparecer uma simplicidade que assusta quem vê de fora: é chegar, escolher e pagar. Exige-se identificação e segurança, mas a rotina do consumo retira qualquer peso dramático ao ato. Comprar uma recordação ou uma arma faz parte do mesmo quotidiano. É a banalização de um dos temas mais fraturantes do país. Enquanto a bola não rola e Cristiano Ronaldo e companhia mantêm o foco total nos treinos, a nossa jornada continua a render crónicas que vão muito além do futebol.

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