O décimo quase da ‘laranja’
Q UASE vinte e três anos depois da meia-final do Europeu ingloriamente perdida em Amesterdão (1-3 no desempate por penáltis) para uma ultradefensiva Itália, a selecção laranja voltou a perder em casa, agora em Roterdão, a possibilidade de disputar uma final em casa. O carrasco foi a Croácia que, ao contrário da azzurra em 2000, mereceu amplamente a vitória (4-2). Ontem, no final do jogo, ao contrário do desespero que se lia na cara de Frank Rijkaard há 23 anos, Ronald Koeman estava conformado com o resultado e com a superioridade do adversário. O futebol da laranja tem a cara dele, aliás: demasiado bonacheirão e ingénuo para poder fazer mal a uma equipa tão batida como a da Croácia.
A primeira meia-final da Liga das Nações na lendária banheira de Roterdão foi um jogo trepidante até ao último minuto do prolongamento, que deu um quinto golo aos croatas (bis de Petkovic), posteriormente anulado. Os neerlandeses forçaram o prolongamento com um golo feliz (2-2) em tempo de compensação, após dois falhanços sucessivos de Cody Gakpo e Nathan Ake, mas manda a verdade dizer que os maduros croatas controlaram a seu bel-prazer os acontecimentos do primeiro ao último minuto. A Croácia, semifinalista do último Mundial e finalista da mesma competição em 2018, é uma equipa sólida, hiperexperiente, muito habituada aos momentos decisivos. A selecção dos Países Baixos, por outro lado, não consegue contrariar a velha sina de morrer na praia: foi a décima meia-final perdida num total de 15, um registo perturbante dada a qualidade de muitas dessas equipas que se ficaram pelo quase…
O veterano Luka Modric (37 anos, 165.ª internacionalização) mostrou uma vez mais que é um jogador extraordinário, quiçá irrepetível, mas não esteve sozinho. A guarda de honra que o acompanha há muitos anos (Brozovic, 30 anos, 86 internacionalizações; Perisic, 34 / 126; Kovacic, 29 / 95 e o eterno Domagoj Vida, 34 / 101) também disse «presente!» no De Kuip, para desespero dos adeptos da casa, pouco habituados a verem a selecção laranja tão atrapalhada com o visitante.
Luka Modric declarou antes do jogo que ia fazer tudo para conduzir a Croácia ao título tão ansiado pelos adeptos. Metade do caminho está percorrido. Falta saber quem terão pela frente na final do próximo domingo: a Espanha de Luis de la Fuente ou a Itália de Roberto Mancini.
‘DJOKO’ E JOKIC: SÉRVIA ‘TOP’
E IS como um país tão pequeno (6,5 milhões habitantes e uma área de 88,500 km2) e ainda tão atrasado em tantos aspetos importantes consegue no espaço de dois dias fazer manchetes na Imprensa desportiva mundial graças aos feitos de dois atletas excecionais. Primeiro foi o tenista Novak Djokovic (36 anos), agora o recordista de Grand Slams (23) depois de ganhar, com tremenda autoridade, o torneio de Roland Garros. Logo a seguir foi o poste Nikola Jokic, génio do basquetebol que levou os Denver Nuggets à conquista do seu primeiro título de campeão da NBA. Djoko será porventura o mais completo tenista da história. De Jokic, já diz a Imprensa europeia, que será o melhor estrangeiro que alguma vez passou pela NBA. Em suma: dias felizes para os sérvios.
A ITÁLIA SEM ‘CAVALIERE’
A MADO e odiado, inteligente e burlesco, populista e pragmático, intuitivo e empático, visionário e vulgar, carismático e grosseiro, autoritário e afável, demagogo e generoso, otimista e misógino, desbocado e atencioso, Silvio Berlusconi, Il Cavaliere, foi tudo isso e mais um par de botas. Verdadeiro animal político, moldou a Itália à sua imagem no último quarto de século com doses industriais de esperteza, faro político, compadrio, tráfico de influências e uma aguda perceção dos sinais dos tempos.
Foi homem de inegável sucesso em vários campos: nos negócios imobiliários, nos media (os seus popularuchos canais televisivos acabaram com a hegemonia da RAI), no futebol (presidente e pai do grande Milan pentacampeão europeu com Sacchi, Capello e Ancelotti) e na política (primeiro-ministro quatro vezes e amigo dos players deste Mundo, de Clinton e Blair a Putin e Khadafi; a exceção foi Angela Merkel, que nunca o suportou). Embora a origem da sua colossal fortuna sempre tenha suscitado dúvidas, tal como a forma como sempre exerceu a governação em sintonia (digamos assim) com seus negócios privados, ninguém contesta a marca do cavalieri na Itália que hoje conhecemos, com todo os seus esplendores e misérias nunca resolvidas.
No futebol, foi o maior presidente da história do Milan: enquanto esteve ali pensou sempre grande. Em 1987, menos de um ano após comprar o clube, contratou o desconhecido Arrigo Sacchi ao Parma e começou a investir em estrelas de primeira grandeza. Rapidamente construiu aquela que foi, sem sombra de dúvida, a equipa italiana mais admirada, titulada e temida na história do futebol europeu: o fabuloso Milanda de Van Basten, Rijkaard e Gullit, máquina de jogar futebol que depois teve continuação com outros treinadores e outros solistas, Rui Costa incluído.