Rafa chega ao Benfica para unir ou para dividir?
Tenho de Rafa Silva uma ideia que me ficou (ele perdoar-me-á a inconfidência, até porque não se lembrará do momento) desde que se estreou em convocatórias da Seleção e teve de ir falar à imprensa, em Óbidos. Ele era um rookie meio assustado com aquele aparato (e com a praxe da qual sabia ir ser alvo nessa noite durante o jantar da equipa), mas ao mesmo tempo com um olhar que deixava entender estar acima daqueles rituais e muito consciente do que tinha de fazer para tentar ser feliz. Tímido, mas firme. Foi assim que se apresentou aos jornalistas na tenda de Óbidos, em março de 2014 (para situar a recordação e deixar tudo claro, eu na altura cumpria funções de assessoria na FPF).
Na Seleção Nacional, sabemo-lo, o percurso de Rafa ficou abaixo do que o talento lhe prometia. Em março de 2014 era do SC Braga, depois passou a ser do Benfica, mas nem isso lhe deu mais do que 25 internacionalizações, metade das quais em jogos particulares.
A dada altura da carreira, aliás, ainda em ponto de rebuçado, abdicou da Seleção. Nunca abdicou do Benfica e de o servir com excelência até terminar, em 2024, o contrato que o ligava ao clube da Luz. E aqui começa a divisão entre sócios e adeptos encarnados: de um lado os que acham que devia ter renovado ou permitido uma venda com encaixe financeiro para o clube; do outro os que aceitam a versão (que me parece verdadeira) de um jogador com mais de 30 anos que precisava de experimentar algo de diferente na vida e encerrava, pacificamente, um ciclo de sete anos e meio com números e exibições que deixam pouca margem para dúvidas quanto à qualidade do futebolista. Entretanto o homem (que traz com ele o futebolista) quis voltar a casa e a situação proporcionou-se. O que se questiona é o investimento em alguém que saiu de graça da Luz — o que dói a boa parte do terceiro anel — e a verdadeira utilidade de contratar um jogador de 32 anos num projeto que se espera de futuro.
Sobre a qualidade intrínseca de Rafa pouco haverá a dizer, embora não o vejamos jogar há alguns meses. O regresso dele, e Mourinho já o disse, representa experiência e estaleca para um plantel que necessita de alguma orientação, sobretudo num ano em que quase tudo se foi esvaindo por entre os dedos.
Rafa traz benfiquismo ao balneário, o que pode ser decisivo, até, num hipotético projeto de lançamento de jovens do Seixal. Além disso pode trazer qualidade no último terço (adoro estas expressões à treinador) e golos. É esperar para ver.