Escocês admite que, em função das limitações orçamentais e estruturais do clube da Amoreira, é importante ser flexível e «retirar o máximo» dos ativos existentes

«Num clube como o Estoril, talvez não seja a melhor coisa ter um treinador teimoso»

Ian Cathro reconhece começo de época «difícil» e definiu as suas linhas mestras para o clube a nível de abordagem ao jogo, capacidade para «perceber a realidade» e procurar «soluções» para conduzir à «estabilidade» desejada

— O Estoril fechou a primeira volta da Liga no nono lugar. Que balanço faz até agora?

— Não é um balanço simples. Acho que na primeira metade da época passámos por muita coisa, teve um lado mais difícil e talvez contando com isso o mais importante a dizer agora é que o grupo conseguiu superar muitas coisinhas para chegar ao ponto em que, nas últimas seis a oito semanas, está a produzir muita qualidade de jogo e muito trabalho. Por isso, gostava mais de dar um balanço mais positivo do que negativo, porque o lado negativo não tem que ver com os nossos jogadores, foi mais em algumas circunstâncias. O que formou o nosso principal objetivo durante o verão foram as expectativas na parte final da época passada e acho que falhámos em algumas coisas aí, mas já aceitámos essa realidade com uma atitude muito positiva, muita energia para continuar, para repintar algumas coisas no nosso jogo, no nosso trabalho. O trabalho que os jogadores fazem é excelente.

O Estoril habituou-se a promover e desenvolver jovens jogadores. Trazer jogadores com mediatismo ou estatuto internacional como Mangala, Xeka ou, mais recentemente, Pizzi poderá fazer o Estoril diferenciar-se?

— Sei que o Estoril é um clube que lançou muitos jovens e vai continuar a tentar fazê-lo, mas é importante lançar jovens numa equipa mais consistente. Uma coisa é lançar um super talento quando a equipa está a lutar para não descer de divisão, outra é lançar um talento aos poucos com mais calma, estabilidade, ordem e com uma equipa com outra tranquilidade e confiança. Acho que tudo isso tem passos e acredito muito que antes de fazer B, é preciso acertar no A. Isso foi muito importante para mim - se eu quisesse ser treinador de sub-23, não ia sair do meu país para o fazer, então quero trabalhar com jogadores mais feitos, também é mais perto da minha zona de conforto. Então pedi e falei muito de que temos de ter mais experiência, como eu lhes chamo mais grown-ups, mais homens, mais homens e jogadores feitos. Normalmente quando um clube procura isso, muitas vezes é num central, mas em todas as linhas vamos precisar de um jogador com mais experiência porque este vai ter um impacto enorme em ajudar o crescimento e desenvolvimento dos jogadores mais jovens e também garantir que conseguimos acelerar o nosso processo de construir jogo, uma ideia, uma mentalidade, porque como treinador não se consegue fazer essas coisas sozinho. Este trabalho tem de ser feito em conjunto e temos aqui um grupo de capitães com os quais adoro trabalhar com todos eles. Adoro ainda mais trabalhar com eles porque conseguimos ter uma relação muito positiva, aberta e trabalhamos juntos, acho que isso é notável e é mesmo preciso, se este clube quiser dar os passos seguintes e ir para frente. Vou ajudar os nossos jovens talentos, mas se queremos ter essa estabilidade, mais ambição e uma mentalidade um pouco mais forte para tentar ganhar todos os jogos, temos de ajudá-los também e essa ajuda muitas vezes vem de ter o colega ao lado que já sabe, que já viu este filme algumas vezes e já sabe o que pode acontecer.

— Ter um jogador que tem mais minutos como o Joel Robles que além de toda a experiência que aporta, está em campo e pode também servir de referência?

— Sim, mas nem é tanto com o estar em campo - é estar aqui, é comer lá em cima [no refeitório] é chegar àquela hora, é estar no balneário, no treino, no pré-treino, no pós-treino, na reunião, na conversa quando talvez haja uma dúvida num break qualquer no treino, no intervalo das conversas… sinto-me até mais confortável a trabalhar com jogadores um pouco mais velhos porque também se olhar para a minha carreira profissional, passei metade dos anos a trabalhar na Premier League, onde há jovens, sim, mas estamos a falar do melhor campeonato e chegas lá quando estás um pouco mais feito. Cada um tem a sua experiência, a sua zona de conforto e talvez a minha zona de conforto seja sempre pedir jogadores um pouco mais velhos e do outro lado, no clube eles têm de dizer nós precisamos.

— Há umas semanas teve uma frase interessante, em que afirma que esperava ter começado o segundo ano do projeto e não ter de cumprir um primeiro ano outra vez e iniciar tudo de novo. Acha que isso também explica o início de temporada não tão positivo para o Estoril?

— Acho que isso complicou algumas coisas. O que eu queria transmitir naquele momento era que talvez essa inconsistência que estávamos a sentir em alguns jogos, não muitos, mas em dois ou trêshá sempre uma explicação para tudo e acho que levámos uma certa ideia do jogo e estrutura em campo na época passada e queríamos levar esse trabalho para uma segunda época e com esse trabalho também levar as nossas expectativas para a época seguinte. No fundo, isso não tem a ver com os jogadores e a sua qualidade. O que os jogadores que chegaram neste verão estão a fazer é mais pelo facto de que não conseguimos acertar nas peças fundamentais para levar exatamente este trabalho da primeira para a segunda época no timing certo e passámos muito tempo na pré-época e no início da época sem ter três centrais para manter este trabalho, até tivemos o Pedro Amaral a fazer não sei quantos jogos como central - e ele fez e ele e tem essa capacidade mas não é a posição dele. Obviamente que isso tem impacto em outras coisas, acho que é uma observação e que falhámos nisso, mas é preciso perceber a realidade, isto não vai mudar e era preciso observar e também aceitá-lo, trabalhar em soluções e a partir daí fomos procurando outras e cada vez mais dinâmicas diferentes para refazer algumas coisas no nosso jogo e estrutura ofensiva e defensiva sem perder o princípio de tudo, que é querermos encontrar maior estabilidade com uma atitude de nunca jogar com medo e de tentar ganhar todos os jogos.

— Referiu-se a essa mudança tática - na época passada, o Estoril teve um início mais complicado, alterou para três centrais e fez uma época muito positiva e na atual acaba desfez essa linha de três para passar a jogar com quatro defesas. Percebeu que a quantidade de centrais não lhe permitia ter a qualidade suficiente para jogar com a linha de três?

— Sem tocar num setor em específico, obviamente no início a parte mais óbvia era a linha defensiva mas num clube como o Estoril - acho que é mesmo preciso explicar de outra forma - talvez não seja a melhor coisa ter um treinador teimoso, porque há certas limitações e o mais importante é ter a capacidade de retirar o máximo de cada um dos jogadores e dos que estão no melhor momento, que conseguem dar um pouco mais à equipa em certos momentos. Olhando para tudo, acho que era mesmo preciso fazer este ajuste para garantir que temos o equilíbrio que precisamos para fazer muitos jogos. Somos uma equipa pequena, pressionamos, somos agressivos e estamos em Portugal, vamos levar muitos cartões amarelos e depois de se ter cinco, já ficam de fora um jogo. Mais cedo ou mais tarde, isso vai acontecer com vários jogadores e obviamente os centrais, que jogam um bocadinho mais alto, são expostos a situações de duelos que podem criar mais faltas ou, pelo menos, situações que podem ser falta e é preciso proteger o equilíbrio do plantel para todas essas circunstâncias.

— E nessa linha do equilíbrio do plantel, também percebeu nessa altura que havia aqui um lado bom na adversidade? Com esse problema nos centrais, a linha média oferecia essa quantidade de soluções para mudar?

— Sim, talvez a coisa mais importante em tudo isso é que temos uma certa maneira de fazer as coisas que é mais baseada numa atitude e em certos princípios do jogo que trabalhamos todos os dias e se é com três, dois, quatro, oito, sete [médios]… Acho que não é e nunca pode ser a parte mais importante num clube como o Estoril, porque não podemos ir ao mercado e ter, por exemplo, um lateral que é mesmo assim e ter um segundo lateral que tem exatamente o mesmo perfil porque não dá, é impossível para nós e talvez até não faça sentido. Há que ser capaz de tentar identificar a melhor estrutura para tirar o máximo dos jogadores que estão aqui hoje, porque não sabemos o que pode acontecer amanhã. Se algo mudar amanhã, provavelmente vamos mudar também, porque acho que pela nossa realidade temos de ser capazes de manter a cabeça mais lúcida e identificar o que é o mais importante para adicionar e nunca abdicar da essência de tudo, que é... bora!

— Onde acredita que pode colocar o Estoril antes de, a dada altura, deixar o clube?

Só posso repetir a primeira coisa: antes de pensar no B, tens de garantir o A. Ainda estamos no processo de garantir essa estabilidade, não consigo olhar para uma equipa de futebol como um trabalho só de uma época. Uma época é pouco. A pior coisa que pode acontecer, e sei que aconteceu várias vezes, é que uma equipa tenha uma época extraordinária e no ano seguinte desce de divisão, não é bom para o clube. Tenho quase a certeza que há malta que fica na bancada e vão desfrutar aquele primeiro ano, mas talvez não valha a pena ter um ano assim para depois ter o ano seguinte completamente diferente. Num momento em que as pessoas olhem para trás, para o tempo em que estive aqui no Estoril, quero que eles sintam que conseguimos ter uma estabilidade maior e gostaram de ver o que os jogadores fizeram.