«Presidente disse-me que havia jogos que íamos ter de perder e fiquei sem reação»
Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo. Hugo Moreira, lateral-esquerdo do Hong Kong, recorda a passagem pelo Zimbru (Moldávia), em 2016 e 2017.
— Deste os primeiros passos no Salgueiros. O teu sonho era seguir uma carreira profissional e chegar a uma Primeira Liga?
— Sempre foi. Tanto é que os meus pais até me puseram a jogar no Salgueiros por causa disso mesmo. Eu em casa não fazia outra coisa a não ser jogar futebol. Cresci basicamente na casa da minha avó e destruía-lhe tudo, os vasos que tinha no pátio, o portão. Eles queriam era ver-se livres de mim. O meu pai na altura conhecia um vice-presidente do Salgueiros, que mais tarde até foi presidente do clube. Falaram e comecei a minha aventura aos sete anos a jogar futebol no Salgueiros. E o meu sonho sempre foi ser jogador profissional de futebol. Aos 18 anos entrei no ISEP para Engenharia Civil, mas foi mais do género, tenho que tirar um curso, porque não queria saber de Engenharia Civil. Tanto é que estive lá três anos e quase a acabar o curso, desisti e dediquei-me outra vez ao futebol, só a treinar. Na altura começámos a treinar de manhã no Salgueiros. Foi quando subirmos para a antiga Segunda B. E depois, mais tarde, é que voltei a estudar outra vez. Fui para a Católica estudar gestão, mas nessa altura também surgiu a possibilidade de ir para a Moldávia e tive de parar outra vez.
— Como é que surgiu essa oportunidade. Foi algo de repente?
— Foi. Na altura até estava a começar a ficar um bocadinho frustrado, já era julho. Um amigo meu, o Digas, assinou nesse verão pelo Boavista. Sinceramente tínhamos os dois aquela ambição de que iria ser o nosso ano, porque tínhamos feito bons anos no Salgueiros. Estava a ficar um bocado frustrado, na altura havia conversas com o Santa Clara, Académica, que na altura estavam na Segunda Liga, só que nada. Estava à espera de respostas, até que um dia acordo com uma chamada de um número que não conhecia. Era o Rémulo [Marques]. Na altura era o diretor desportivo do Zimbru. Conhecia-me do Salgueiros, gostava muito de mim. Disse-me que tinham jogado a primeira eliminatória [de qualificação da UEFA Europa League], contra uma equipa da Geórgia, o Chikhura. Tinham lá um lateral-esquerdo brasileiro, mas o treinador que tinham contratado não estava a gostar muito dele e o Rémulo lembrou-se de mim. Isto numa quarta-feira. Disse-me as condições do contrato, onde ia morar, no hotel do clube, que ficava no complexo do Zimbru. Eu, pronto, na minha inocência, disse-lhe que ia pensar, falar com os meus e dava-lhe uma resposta. E ele... ‘Esquece, tens de me dar uma resposta agora, porque queremos tratar da tua viagem o mais depressa possível’. Isto foi uma quarta-feira, porque na próxima quinta-feira, ou seja, daqui a uma semana, tinham um jogo com a UEFA Europa League com o Osmanlispor e o treinador estava a contar comigo. Ele já tinha visto uns vídeos meus... os vídeos valem o que valem, porque lá são todos craques. E eu... disse que sim.
— E qual foi a reação da tua família?
— Eu estava no meu quarto, vou até à cozinha, por acaso estavam lá os dois. O meu pai tinha ido ao escritório, mas já tinha voltado a casa. E eu... a minha mãe é assim muito curiosa e eu cheguei com uma cara um bocado estranha. A minha mãe olhou para mim e perguntou-me o que se passava e se eu queria contar alguma coisa. Disse-lhe que tinha recebido uma chamada para jogar futebol... um bocado longe de Portugal. Ficaram um bocado intrigados a olhar para mim e não disseram nada. Sem qualquer tipo de reação. E eu disse-lhes que era a Moldávia. E a minha mãe... ‘Onde é que fica a Moldávia?’. Nem eu sabia, sabia que ficava no leste, mas não sabia ao certo onde ficava. E o meu pai... ‘Fica à beira da Rússia, não é?’... E a minha mãe... ‘Para a Rússia não! Onde é que te vais meter? Tu disseste que não’. E eu disse-lhe que não, que tinha dito que sim. E pronto, estive-lhes a contar o que tinha acontecido. O meu pai foi muito pragmático. ‘E agora como é que vai ser?’. Pronto, disse-lhe que o Rémulo ia mandar-me as passagens de avião e teríamos de tratar de tudo, passaporte, registo criminal.
— Isso na quarta-feira, quando é que viajaste?
— Não tinha o meu passaporte válido e tive de tratar disso. Disseram-me que só chegava ao Porto no sábado e tinha de viajar na sexta-feira. Tive de ir com o meu pai pedir o passaporte de urgência e fui buscá-lo a Lisboa. Era Porto-Lisboa. Tive de voltar ao Porto. Isso tudo num dia. Na sexta-feira estava a embarcar para Barcelona. Estive um dia todo em escala. Cheguei a Chisinau lá às seis da manhã e o Rémulo estava à minha espera. E ele... ‘Está aqui o teu quarto, descansa um bocado que depois venho buscar-te'. Perguntei a que horas, eu a pensar que se calhar seria ao final da tarde ou assim... ‘Tens uma hora para dormir que às sete da manhã tens de estar a pé para tomar um pequeno almoço, vai haver treino de manhã’. E eu basicamente fui sem dormir. Fui naquela adrenalina pura para o treino e foi daqueles treinos... sorte de principiante. Tudo o que fazias, faziam bem. O treinador acabou o treino, foi falar com o Rémulo e disse-lhe que gostou muito.
— Alguma história engraçada relacionada com a claque do Zimbru ou acerca do campeonato?
— Lá o pessoal sofria muito com as apostas. Tanto é que quando eu cheguei lá, o presidente do Zimbru disse-me logo: ‘Hugo, vai haver aqui alguns jogos que vamos ter de perder’. Aquilo para mim foi um choque. Nem sabia o que havia de dizer. Tinha chegado a um clube novo, com condições financeiras que ainda não tinha tido na minha vida, quase a jogar Liga Europa... E eu assim: ‘Está a brincar, presidente?’. E ele disse que o clube estava a atravessar um processo um bocado difícil a nível financeiro. Fiquei sem reação e disse ao presidente que se houvesse algum jogo que estivesse decidido que era para perder, preferia não saber nada e passar a ser o ignorante. Não queria fazer parte disso. Atenção que o Rémulo nada teve a ver com isto, tanto é que ao fim de quatro, cinco jogos já tinha deixado o clube.
— Houve jogos que deu para perceber que algo se passava?
— O jogo mais flagrante foi contra o Sheriff, em casa. Estávamos a fazer um bom jogo em casa, 0-0, e substitui o nosso guarda-redes titular aos 80 minutos. Depois disse que se tinha aleijado. Tira também o lateral-direito, que era o capitão e da seleção moldava, e começa a meter miúdos da equipa B. Depois há um atraso ou uma saída de bola e manda-nos subir. Vai para chutar, dá um pontapé na relva e a bola vai a morrer... Anda uns 20 metros e quem está à frente dele? O avançado do Sheriff e golo. O que é certo é que nessa altura estávamos com um mês de ordenados em atraso e passado uma semana estávamos em dia. Eu falava disso com os meus pais e dizia-lhes que não queria ter nada a ver com isso, mas também não queria passar dificuldades financeiras. A nível de apostas era complicado. Havia pessoal dos ultras a mandar-nos mensagens na Internet, a ir ao centro de treinos para tentar tirar satisfações connosco, porque sempre que perdíamos diziam que nos tínhamos vendido.