«Cada golo acende o espírito de partilha. Todos se levantam, todos correm a abraçar-se. O golo não é de ninguém, cada golo nasce de todos». Foto Catarina Morais/KAPTA +
«Cada golo acende o espírito de partilha. Todos se levantam, todos correm a abraçar-se. O golo não é de ninguém, cada golo nasce de todos». Foto Catarina Morais/KAPTA +

«Somos uma equipa de trabalhadores», como disse 'mister' Farioli

#minuto 92 é um espaço de opinião quinzenal da responsabilidade de Ricardo Gonçalves Cerqueira, jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto

Foco no jogo seguinte. Sem triunfalismos e sem ceder ao perfume inebriante de uma série vitoriosa que dura desde o início da época. Neste FC Porto não se comemoram vitórias antecipadas nem há espaço para ilusões. Não se consagram campeões em dezembro ou em janeiro, lembrava há dias Francesco Fariolli. O objetivo é simples e inegociável: ultrapassar o adversário que se segue, no próximo jogo, e amealhar mais três pontos.

A prioridade é treinar diariamente no limite, com determinação e concentração competitiva. Importa recuperar os atletas que eventualmente apresentem mazelas físicas e preparar, técnica e taticamente, o desafio que se avizinha, com o respeito absoluto que é devido ao adversário. As palavras de ordem são disciplina e rigor. Todos contam e ninguém está a mais: os que jogam com maior regularidade, os que entram para ajudar e os que treinam, dia após dia, para merecer a oportunidade. É uma equipa, um grupo. A La Famiglia portista, como os batizou o treinador do FC Porto. Ali, não há erros individuais a merecer reparo público; ali ninguém é sacrificado em direto no pós-jogo. Ganham todos, erram todos, seguem todos juntos. União!

Na I Liga, somam-se 17 vitórias e 1 empate em 18 jogos. São 37 golos marcados e apenas 4 sofridos. Números que valem 52 pontos e o primeiro lugar, com 7 de vantagem sobre o segundo classificado, o Sporting, e 10 sobre o terceiro, o Benfica. Na Taça de Portugal, aguarda-se que Sporting ou Aves SAD marquem dia e hora para novo encontro, com os olhos postos no Jamor. No contexto europeu, mantém-se em aberto a qualificação direta para a próxima fase da Liga Europa. Um registo que merece destaque e que se impõe como marca de água da seriedade com que o trabalho é encarado no Olival. O espírito de equipa, a ideia de unidade, pressente-se no ar.

Nas sessões de treino e no estádio, em dia de jogo. Cada golo acende o espírito de partilha. Todos se levantam, todos comemoram, todos correm a abraçar-se. O golo não é de ninguém: cada golo nasce de todos. Uma equipa em toda a dimensão da palavra. Cada lance, cada disputa de bola, é levado a sério. Ninguém se esconde, ninguém se entrega. As exibições podem ser mais ou menos exuberantes, com maior ou menor nota artística; o que não pode faltar é transpiração e sentido de compromisso.

Respeito absoluto pelo escudo da cidade, pelo adepto que se desloca — sabe-se lá com que sacrifícios — para acompanhar e estar presente. Honrar a instituição que se representa e fazer jus aos seus pergaminhos. Dentro de campo, Samu exibe, orgulhoso, o símbolo diante de Pavlidis, como que a dizer: «Isto é o Porto; aqui, é o Dragão.» Froholdt, incansável, não desarma venha quem vier. Bednarek e Kiwior, duros, concentrados e quase impenetráveis, honram a boa tradição de defesas-centrais que o FC Porto exibiu ao longo dos anos. Pablo Rosario, disponível e esclarecido, afirmou no final do jogo da Taça de Portugal diante do Benfica: «Jogo onde o treinador me pedir; quero é ajudar a equipa.» Rodrigo Mora revela todo o talento e virtude, enquanto o treinador lhe vai semeando a cultura tática, a leitura de todos os momentos do jogo e a constância competitiva. A arte de tratar a bola com requinte e delicadeza alia-se ao esforço e ao compromisso com a equipa. Este menino, Rodrigo de seu nome, cresce a olhos vistos e vai, seguramente, conhecer o Olimpo do futebol.

Pêpê e William, parceiros e compinchas fora de campo, aliados dentro das quatro linhas: «O Pepê é o titular da posição, mas eu estarei pronto sempre que o treinador me chamar», reafirmou William Gomes quando questionado sobre a disputa pela ala. O segredo — se é que de secretismo se trata — é que, neste FC Porto 25/26, a parte não se sobrepõe ao todo: o indivíduo cede perante o interesse transversal. Todos por todos. Sem individualismos nem vedetas de pacotilha. A época é longa. Estamos ainda a meio do caminho.

Seguem-se, naturalmente, os meses que tudo decidirão, nas competições internas e na Liga Europa. Ninguém desarma, ninguém se desconcentra; não há espaço para facilitismos ou deslumbramentos. O treinador não permitirá, a estrutura do futebol não dará margem e o Presidente, tal como nós — sócios e adeptos —, cá estará para manter o estado de alerta e os pés firmes no chão. A terra que pisamos mostra-se fértil; continuemos a cultivá-la com humildade e seriedade. Maio está ao virar da esquina. Não nos distraiamos. «Somos uma equipa de trabalhadores» e o nosso lema é fazer das tripas coração para defender o nosso lugar. O primeiro de entre os demais.