Tiago Zorro, treinador do Belenenses (Foto: Miguel Nunes)
Tiago Zorro, treinador do Belenenses (Foto: Miguel Nunes)

«O Belenenses será um clube de Primeira Liga a breve, médio prazo»

Tiago Zorro substituiu João Nuno no comando dos azuis a 29 de setembro e leva a equipa à fase de apuramento de campeão da Liga 3, que tem o objetivo de ganhar

— Qual é a memória mais antiga que tem do futebol?

— O futebol nasceu cedo para mim. Tenho memórias do meu pai, que me passou esse bichinho, ele também foi jogador e eu acompanhava-o muito nos treinos e nos jogos. Depois a minha vida acaba por ser ligada ao futebol, começando como um jogador mediano e depois enveredando pelo treino. Há um jogo em particular que me marcou há muitos anos, quando era criança: um PSV-FC Porto, em que o FC Porto perdeu 0-5. A minha família tem origens no Norte e as coisas ficaram um bocado tremidas lá por casa. É um jogo que me ficou na cabeça.

— Chegou ao Belenenses a 29 de setembro para substituir João Nuno, que foi para o Estrela da Amadora, qual foi a principal herança ou aspeto positivo que encontrou na equipa?

— O grupo de trabalho. O ambiente em torno do grupo é muito bom, é um grupo saudável. Mas, mais do que saudável, é um grupo de jogadores com muita qualidade. O que fizemos aqui é muito fruto do que os jogadores são capazes de fazer.

— Como mantém a equipa motivada quando o objetivo de apuramento para a fase de subida à Liga 2 foi alcançado a quatro jornadas do fim da primeira fase?

— Estamos num clube gigante. A exigência do Belenenses obriga-nos a ganhar todos os jogos. Essa é a mentalidade que temos, que me foi passada desde a primeira hora que cheguei. Quem quer objetivos altos tem de exigir diariamente. Os jogadores sabem disso e têm respondido muito bem, tanto no dia-a-dia como na hora do jogo.

Quando cheguei, o presidente disse que o objetivo é subir de divisão e ser campeão.

— Não costuma mexer muito no onze, mas acredita que uma equipa, ao invés de ter titulares e suplentes, tem sim starters e finishers?

— Sem dúvida. Acreditamos muito na importância de todos os jogadores, percebendo que há jogadores com características ideais para virem do banco. Isso é importante para a nossa ideia de jogo e estratégia, poder contar com variabilidade e com um grupo heterogéneo. Temos mexido pontualmente na estrutura base da equipa, mas num plantel de 23, 24 jogadores, só dois ou três ainda não foram titulares todos têm tido minutos.

Jogo com o Estoril foi um acreditar que podemos ombrear com qualquer equipa

— Que desafios espera encontrar nesta fase de subida à Liga 2, que ainda não terá sentido esta época?

— A pressão no Belenenses é diária e é boa. Quando cheguei, o presidente [Patrick Morais de Carvalho] disse que o objetivo é subir de divisão e ser campeão. Sabemos que vamos entrar numa fase em que outras equipas têm as mesmas ambições, mas esta pressão é muito melhor do que lidar com alguma indiferença. Gostamos da pressão, o objetivo é alto, sabemos que quando as equipas jogam contra nós têm uma motivação maior o que dificulta as coisas, mas acreditamos no caminho que estamos a traçar, sabendo que ainda não ganhámos nada.

— Entrar numa equipa a meio da temporada é sempre complicado. O que tem sido mais desafiante até agora?

— O desafio foi grande até porque a troca de treinadores ocorreu por algo positivo (o João Nuno saiu para um contexto superior); às vezes mudam-se os treinadores quando os resultados não estão a aparecer e não foi o caso. Houve uma fase de adaptação mútua entre mim e o grupo. A minha mensagem foi clara e simples, tentando manter o que estava a funcionar e introduzindo as minhas ideias aos poucos.

— Jogou com o Estoril para a Taça de Portugal logo no seu terceiro jogo à frente do Belenenses, que jogou olhos nos olhos com uma equipa da Liga, o Estoril só marca o golo da vitória aos 90+4’, esse jogo teve um significado importante para o que o Belenenses já veio a alcançar?

— Penso que sim, acaba por ser um jogo de motivação extra, mas mais do que isso, este grupo já tinha eliminado o Marítimo, que está a fazer uma Liga 2 muito boa e este grupo tem personalidade. Jogadores experientes, outros não tão experientes, mas com fome de quererem aparecer e acho que fizemos um jogo muito positivo. Igualámos as forças em muitos momentos. Não digo que foi com injustiça que sofremos um golo no último minuto, mas ficou um amargo de boca…

— Até porque foi em contra-ataque?

— Foi uma perda de bola, que deu numa transição que não defendemos assim tão bem. Mas foi um acreditar que podemos ombrear com qualquer equipa. Se o fizemos contra uma equipa da Liga, na nossa realidade também precisamos de estar sempre num nível alto.

— O que fez Afonso Pinto ganhar a titularidade de forma tão repentina e como viu o gesto de Nuno Tomás, ao oferecer-lhe o prémio de homem do jogo frente ao Atlético (onde foi titular pela primeira vez e marcou um golo)?

— É-me difícil falar de jogador individualmente, mas o Afonso não estava a ser opção para a equipa técnica anterior, vindo de uma época muito positiva. O Belenenses tem quatro centrais e qualquer um pode jogar, mas o Afonso trabalha muito bem, quer aprender, e quando a oportunidade surgiu (num jogo contra o Atlético onde queríamos ser mais fortes na bola parada), ele agarrou-a. Quisemos manter um pouco o que a equipa técnica anterior estava a fazer e depois ver o que podia acontecer no plantel dentro das nossas ideias. O gesto do Nuno Tomás ao entregar-lhe o prémio de homem do jogo é o reconhecimento de um líder pelo trabalho que o Afonso fez, mesmo quando não era convocado. E acaba por ser um exemplo para todos, o futebol muda muito rapidamente, tocou ao Afonso e pode tocar a outro qualquer. Num grupo com qualidade, todos podem jogar como podem não jogar.

— Como tem sido trabalhar com Wilson Eduardo?

— É um jogador como os outros na personalidade e no dia-a-dia, mas com uma experiência que nos acrescenta muito dentro de campo. Está num bom momento e todos lucramos com isso.

Bem sei que as expectativas no Belenenses estão criadas.

— Como explica o domínio que o Belenenses está a ter numa liga que costuma ser muito competitiva, tendo mais cinco pontos que o 2.º e mais 10 que o 3.º?

— Temos estado a um nível muito bom. O grupo e a equipa têm qualidade e temos mostrado isso semana após semana. É uma liga muito competitiva e, embora tenhamos esta vantagem, os jogos são quase sempre decididos pela margem mínima e têm muito equilíbrio. Na Covilhã ganhámos por números expressivos (4-0) e se calhar foi dos jogos em que a equipa adversária nos criou mais oportunidades de golo.

— Assinou contrato até ao final desta época, com mais uma época de opção, essa opção está dependente da subida de divisão?

— Não estou muito preocupado com isso. O meu foco é cumprir o objetivo, que é um bem muito maior do que o Tiago Zorro ou o meu contrato. O que nós queremos mesmo é subir de divisão.

— Treinou o Alverca e o Casa Pia quando estavam em divisões inferiores e agora são equipas na Liga contextos diferentes. O que pode o Belenenses aprender com estes clubes que subiram tantos patamares?

—  O Belenenses está no caminho certo. Tem uma estrutura cada vez mais forte e preparada para as exigências dos campeonatos profissionais. Resta-nos fazer o trabalho dentro do campo, sabendo que as coisas não são tão simples como por vezes parecem. Bem sei que as expectativas estão criadas. O Belenenses é um clube de Primeira Liga e acredito que voltará a sê-lo a breve, médio prazo.