Portugal: põe os olhos no andebol
Neste espaço escrevo sobretudo sobre futebol — dentro e fora das quatro linhas. Tem sido assim, como aliás assim é na maioria do espaço mediático, mas já escrevi também sobre atletismo e algumas vezes, à boleia do desporto, também sobre temas que vão além dele ou nada com ele têm a ver. Mas há uma modalidade que não o futebol que me centrou as atenções já mais do que uma vez e que volta a merecê-la — e não é o atletismo, que me é caro por o ter praticado na juventude, com corridas de velocidade e saltos em comprimento pelo já extinto e saudoso Desportivo da Juventude Aljustrelense, em provas regionais e nos nacionais DN e Olímpico Jovem pela seleção da Associação de Beja. É do andebol a que me refiro.
Será provavelmente a modalidade coletiva de maior sucesso em Portugal além das que têm a bola no pé como base e além do hóquei em patins, que no entanto não tem nem de perto nem de longe a mesma visibilidade internacional, por pena minha que me habituei a ver os jogos do Mineiro Aljustrelense ainda no Parque Desportivo Municipal, antes de haver o Pavilhão Municipal dos Desportos Armindo Peneque — onde jogou e treinou Filipe Gaidão pelo tricolor —, muitas vezes à chuva mas que não fazia os jogos parar.
Já mais do que uma vez enalteci aqui as campanhas do Sporting na EHF Champions League, talvez nesta altura a equipa de clube nacional mais forte nas mais fortes modalidades (de pavilhão e não só). E podia também enaltecer campanhas do FC Porto na mesma principal prova europeia, ou na EHF European League que o Benfica já conquistou. Enalteço e lamento que a maioria dos portugueses não tenha a noção da atual dimensão do andebol nacional. Ao nível de clubes e da Seleção.
Vem bem a propósito depois da vitória de Portugal sobre a Dinamarca, atual campeã olímpica (duas vezes) e mundial (quatro vezes) e que tenta conquistar um Europeu pela terceira vez. A atual principal potência mundial do andebol derrotada pela Seleção Nacional que, apesar de ontem ter perdido 30-32 com a Alemanha, luta por um lugar nas meias-finais da prova continental do mais forte continente a jogar andebol. E a noção que (não) se tem desta Seleção é para mim tão incompreensível que não percebo como não há empresa que se digne a patrociná-la na medida da sua dimensão mundial. Arrisco mesmo dizer que os dinamarqueses terão mais conhecimento da real qualidade desta equipa do que a maioria dos portugueses e de meios generalistas que por muito menos dão destaque a feitos de dimensão microscópica ou a participações honrosas com direito a imenso tempo de antena em programas da manhã ou da tarde em que o andebol pouco tem aparecido apesar do que tem feito.
Talvez seja preciso Portugal ganhar o Europeu para que muitos se apercebam que existe uma equipa desta dimensão e para muitas empresas acordarem para este potencial — das equipas, das Seleções e de jovens jogadores carismáticos e que se projetam para serem (e já são) dos melhores do mundo, como é o caso dos irmãos Costa. Não lhe dar já a atenção merecida já seria injusto, porque o andebol nacional é sem dúvida exemplo a seguir por outras modalidades e por muitos setores que não do desporto. Comigo podem contar para reclamar o que merece e que lhe é devido. Mesmo antes de se conquistar um título que acredito que um dia vai acontecer...