Não podia haver melhor final: jogo do século na Escócia e com muita pimenta
Talvez seja de menos chamar-lhe o jogo do século. Porque quando um dos protagonistas foi campeão pela última vez em 1960, há que ir muito mais atrás no tempo, ainda às TV a preto e branco. Hoje, pelas 12h30, a Escócia vai parar e provavelmente boa parte dos olhos da Europa atentos ao melhor que acontece no continente vai dedicar uma atenção maior do que o habitual ao evento do Celtic Park.
Afinal, e excetuando Inglaterra, tudo já está decidido nas principais ligas. Já há campeão em França, Espanha, Alemanha, nos campeonatos de média dimensão idem. Mas não na Escócia, cuja última jornada reservou o jogo do título entre Celtic e Hearts, equipas separadas por 1 ponto - vantagem do emblema da capital Edimburgo, que se desloca a Glasgow.
O contexto que envolve a partida não podia ser mais latino: feito de muita polémica após o golo da vitória do Celtic em casa do Motherwell (3-2) apontado aos 90+9', de penálti após sinalização do VAR - «nojento», afirmou o técnico do Hearts, Derek McInnes.
À mesma hora, os adeptos do Heart of Midlothian (o nome oficial do clube) levavam com um balde de água fria, e após a vitória por 3-0 sobre o Falkirk já se imaginavam no conforto de verem a sua equipa defrontar o Celtic na última ronda e poder até perder por dois golos.
Assim não o foi e eis que depois de uma temporada em que esteve grande parte do tempo na liderança da competição, o Hearts encara a última etapax com o receio de morrer na praia e ver adiada uma verdadeira epopeia - porque a última vez que o clube conquistou o campeonato foi há 66 anos ( temporada 1959/60).
Aliás, esta temporada é atípica também por haver um outsider ao habitual domínio esmagador dos dois clubes de Glasgow - a última vez que nem Celtic nem Rangers levantaram o troféu foi em 1985, quando o Aberdeen decidiu intrometer-se entre os gigantes, num momento da história particularmente feliz, já que dois anos antes o clube também vencera a Taça das Taças. Responsável: Alex Ferguson.
Campeonato com dois turnos
O Celtic foi 13 vezes campeão nos últimos 14 anos e por isso não se pode falar de um campeonato tradicionalmente competitivo, mas num ano em que os verde e brancos viram abanar as suas estruturas com três trocas de treinadores (Brendan Rodgers saiu em outubro em litígio com a Direção pela falta de reforços de qualidade, Martin O'Neill entrou para fazer uma transição, Wilfried Nancy foi depois o escolhido, mas 33 dias bastaram para ser despedido e regressar O'Neill) desta vez o rival não aproveitou e foi o clube de Edimburgo a embalar - e embalado pelo ponta de lança português Cláudio Braga (17 golos em 43 jogos), eleito, aliás, o jogador do ano naquele país.
Celtic: 55 títulos;
Rangers 55
Aberdeen 4
Hearts 4
Hibernian 4
Bumbarton 2
Motherwell 1
Kilmarnock 1
Dundee 1
Dundee United 1
Third Lanark 1
Desde o ano 2000 que o campeonato escocês tem uma configuração diferente em relação aos congéneres europeus: são 12 equipas que jogam entre si três vezes no primeiro turno (duas em casa e uma fora), entre as jornadas 1 e 33. Depois a prova é separada em duas: os seis últimos decidem quem desce e quem fica e os seis primeiros realizam cinco jornadas (34 a 38) para decidir quem é o campeão. Herts e Celtic vão assim defrontar-se pela quarta vez esta época, depois de dois triunfos e um empate da equipa da capital.
Paulo Sérgio no museu do Hearts e o ano terrível de Jota no Celtic
Poderiam ser três portugueses em ação, mas apenas Cláudio Braga deverá estar em campo no jogo do século na Escócia, no Celtic Park, ao início da tarde de hoje. O avançado tentará voltar a colocar Portugal na história do Hearts, já que o último troféu conquistado pelo clube de Edimburgo foi a Taça da Escócia, em 2011/12, com Paulo Sérgio no cargo de treinador.
No lado da equipa da casa, Paulo Bernardo perdeu há muito a titularidade, somando 615 minutos distribuídos por 19 partidas, enquanto Jota não fez qualquer jogo nesta temporada em virtude de uma gravíssima lesão no joelho (rotura do ligamento cruzado), que o afastou por um período superior a um ano (lesionou-se no final de abril de 2025).
Bem que o extremo de 27 anos formado no Benfica poderia dar jeito a Martin O'Neill, o treinador dos católicos que usou da ironia para comentar as muitas críticas feitas ao tal penálti assinalado a favor do Celtic na última jornada do campeonato: «Não estou surpreendido com todo este ruído porque toda a gente, à exceção dos adeptos do Celtic, quer que o Hearts seja campeão. É assim a natureza das coisas...»