Injustiça no Tribunal da Luz
Os números não dizem tudo, no futebol. Podem até ser mentirosos, se um jogador tem 100% de eficácia de passe porque só joga para trás e para o lado, ou se corre muitos quilómetros, mas sem levar a equipa a lado nenhum. Os dados precisam sempre de interpretação, mas por vezes atingem um patamar tal — de dimensão e regularidade — que só possibilitam uma leitura.
Sete épocas e meia. 360 jogos. 94 golos. 92 assistências. 4 campeonatos, 3 Supertaças, 1 Taça de Portugal e 2 Taças da Liga.
Os números de Luís Miguel Afonso Fernandes não mentem: Pizzi foi um dos melhores jogadores do Benfica. Pelo menos deste século. Encerra agora a carreira, aos 36 anos, com a camisola do Estoril, e logo frente ao emblema da águia, o que reforça o pretexto para lembrar que não teve/tem devido reconhecimento na Luz.
O tempo será melhor juiz, porventura, mas Pizzi saiu do Benfica pela porta pequena, numa cedência apressada ao modesto Basaksehir. Empurrado para fora de forma pouco digna, muito por causa do rumor de que tinha unido esforços a André Almeida e Rafa para forçar a saída de Bruno Lage, algo depois desmentido até pelo próprio treinador.
O Tribunal da Luz foi cruel até na forma como excluiu Pizzi do mural comemorativo dos 20 anos do atual estádio, que reúne duas dezenas de craques de indiscutível qualidade, mas entre os quais estão nomes que muito menos deram ao SLB.
Pizzi merece ser ovacionado na despedida, mas isso nunca será suficiente para compensar a valorização que a Luz lhe deve, ainda que o jogador já tenha dito que ter consciência plena daquilo que deu ao clube vale mais do que qualquer mural.
Também José Fonte vai encerrar a carreira, mas nesse caso importa fazer uma declaração de interesses: sou amigo dele há quase 30 anos. Ainda eu mal sonhava ser jornalista, já ele era um profissional de futebol com 13 anos de idade, muito por influência do pai, Artur, ex-jogador. O Miguel (como eu o conheci) viveu a realidade dos salários em atraso no início de carreira (Salgueiros, Felgueiras, V. Setúbal), assumiu o risco de trocar o Championship pela League One com a (certeira) convicção de que chegaria mais cedo à Premier League. Fez a estreia na Seleção aos 30 anos e conquistou o título europeu aos 32, ironicamente treinado por Fernando Santos, que o tinha dispensado do Sporting e do Benfica. Uma fonte de inspiração para quem cede à adversidade. Bravo!