José, 'El Especial Blanco'
Escrevo hoje no aeroporto OR Tambo, em Joanesburgo. Muita gente, dos quatro cantos do mundo. Muitas referências ao Mundial de futebol, seja pela venda de artigos oficiais, seja pelas camisolas (sobretudo sul-africanas) que se passeiam com passageiros, antecipando uma competição única, nunca realizada em três países, nunca com 48 seleções, nunca com 104 jogos ao longo de 39 dias.
É o futebol na sua mensagem verdadeiramente transversal, celebrando identidades e proporcionando encontros e amizades que dificilmente surgiriam noutro contexto.O Real Madrid, por exemplo, marca única no desporto mundial, celebração de uma tribo imensa espalhada por todos os continentes, é outro elemento global que rivaliza, por estes dias, com o aquecimento para o maior Mundial de sempre.
Ainda que os merengues tenham feito uma temporada aquém das suas expectativas competitivas (ou, provavelmente, por isso mesmo…), serão sempre matéria de interesse e conversa. Ademais, após a semana horribilis que antecedeu o que de pior pode acontecer ao emblema do Paseo de la Castellana: ir ao recinto do maior rival, jogar o clássico que faz parar o planeta futebol, perder e, com isso, ver o Barcelona festejar o seu 29.º título espanhol.
Arbeloa já não sabe o que fazer num balneário fragmentado, a falar (a discutir, por vezes) a várias vozes. Não bastaram as altercações entre Tchouaméni e Valverde. Mbappé amuou quando soube que não seria titular no Camp Nou, e abandonou o último treino em Valdebebas antes da viagem para a Catalunha.
Emergiu Vinícius Júnior, com a braçadeira de capitão e a convicção de que, junto do treinador, era uma espécie de aliado, ainda que o vestiário blanco não compreendesse muito o que estava a suceder…
No topo de um bolo azedo, a cereja fora de prazo: uma monumental assobiadela a Mbappé quando o francês iniciou o aquecimento na receção ao Real Oviedo, e outras, sempre que tocava na bola.
A afición madridista não perdoa a quem coloca interesses pessoais acima do nome e do símbolo do gigante da capital espanhola. E assim o demonstrou aumentando os decibéis em pleno Bernabéu.
Porque é disso mesmo que se trata: a primeira e principal tarefa de reconversão do Real Madrid reside na gestão de um grupo de grandes jogadores e igualmente imensos egos, tentando torná-los numa equipa que reflita os princípios do clube. A primeira grande vitória terá de ser essa, antes de a bola entrar em qualquer baliza.
Reformular o grupo nunca será tarefa fácil, desde logo pelos imensos entraves financeiros e contratuais com estrelas pagas a peso de petróleo (agora o rei dos custos inflacionados…). É um papel administrativo, que compete a Florentino Pérez (não acredito que tenha concorrência à altura no ato eleitoral que ele próprio, inteligentemente, provocou e antecipou), à gestão desportiva e, para mal dos pecados de Pérez, aos agentes dos jogadores que possam estar envolvidos na operação.
Mas há, também, a necessidade de blindar a estrutura, de ter alguém com voz de comando e com um braço-direito inquestionável. Alguém com peso, com estaleca, com passado, com folha de serviços indiscutível. E alguém que conheça por dentro e por fora a Casa Blanca, os seus riscos, os seus vícios, as suas potencialidades e o caminho a trilhar para o regresso às glorias. Entram dois nomes nesta equação: José Mourinho e Toni Kroos.
Comecemos pelo antigo internacional alemão: oito anos no Bernabéu, posição indiscutível na equipa, duas ou três vagas de companheiros de balneário, voz experiente e autorizada. O ideal para ser o gestor de balneário, falando a mesma linguagem das estrelas, mas impondo as regras pela respeitabilidade que todos lhe reconhecem. A escolha ideal para ser o elo de ligação que Mourinho pretende.
Porque o setubalense sabe onde se vai meter: entre 2010 e 2013, apesar de só ter ganho uma LaLiga, uma Taça do Rei e uma Supertaça, passou três anos onde impôs a sua áurea única de treinador vencedor, competente, equilibrado nas opções quotidianas, mas intransigente nas resoluções de fundo. Mourinho soube contratar e deixou um legado de que Florentino não se esquece, sobretudo agora, em que não é apenas necessário um bombeiro: o Real precisa de artilharia pesada, de pulso firme e de dois tipos de comportamento de gestão.
No imediato, a capacidade de estancar a hemorragia e de impedir que a alergia alastre. A médio prazo, a reformulação do grupo, considerando objetivos desportivos domésticos e internacionais, que aliem ao extraordinário investimento estrutural feito com a remodelação total do Estádio Santiago Bernabéu um ciclo vitorioso nos retângulos e a projeção, de novo, de uma verdadeira equipa, baseada na união e nos valores mais consolidados do clube da capital espanhola.
Florentino tem nas mãos de uma das mais delicadas decisões, porque são amplas as franjas madridistas que não veem em Mourinho a solução para todos os males. A análise mais imediata e epidérmica proporciona outros nomes. Klopp, o mais desejado (e disso não há grandes dúvidas), declinou essa possibilidade.
Aqui, entra o espírito do treinador de Setúbal que conquistou o planeta futebol. José pode voltar a ser especial, e não tem nada a perder. É uma espécie de relação win-win, e de desafio final, antes de regressar a Portugal para assumir a Seleção, como ele próprio definiu, numa perspetiva de fase final de carreira.
Embarco agora para a Etiópia, onde o futebol internacional também suscita interesse desmesurado. E estou certo de que, em Addis Ababa, como nos quatro cantos do mundo, Mourinho terá adeptos sedentos de o verem como El Especial Blanco.
Faltam três dias para o anúncio da convocatória final da Seleção portuguesa para o Mundial. Se é verdade que há 18 ou 20 nomes praticamente indiscutíveis, em face do seu mérito e da regularidade de chamadas ao combinado nacional, é igualmente certo que se abrem algumas janelas de incerteza e, provavelmente, de oportunidade a nomes menos aguardados.
Roberto Martínez teve tempo, um fator essencial (determinante) para poder, com a sua equipa, fazer uma escolha ponderada, em função das necessidades e dos (grandes) objetivos desportivos já assumidos por Portugal. A lista, ao que sei, está pronta. E haverá espaço para surpresas.
Que se aceite o trabalho do espanhol que tem tido sucesso em Portugal, e que as escolhas se revelem as melhores para uma equipa que chegará às Américas a sonhar muito alto…
As prima donne não têm lugar no mundo do futebol internacional, sobretudo quando, deliberadamente, se assumem como centro da conversa.
Mbappé é um jogador de incrível talento e capacidade, mas a sua atitude imediatamente antes do encontro com o Barcelona, saindo do último treino quando percebeu que não seria titular na Catalunha, prova que a cabeça do astro francês ainda não está ao nível do futebol que pratica.
Atitude mimada, e que não augura nada de bom para a sua relação com o Real Madrid, sobretudo considerando as reações de la grada, assobiando-o com veemência durante o jogo com o Real Oviedo.
A sua sorte é que vem aí o Mundial.