O Benfica é um lugar estranho
A biografia de José Mourinho é riquíssima, mas há sempre espaço para novos registos e seguramente que numa futura revisitação e republicação da carreira do treinador nascido em Setúbal o Benfica irá ocupar mais um capítulo opaco e cheio de interrogações. Porque foi o único clube com duas passagens curtas, saídas fora de tempo e criando porventura entre os seus adeptos aquela pergunta típica ‘o que poderia ter sido se ele tivesse continuado’.
Nos finais de 2000, sentindo-se um «treinador a prazo» porque Manuel Vilarinho tinha ganhado as eleições contra Vale e Azevedo e anunciara Toni como o seu escolhido, o ainda jovem técnico bateu com a porta, numa daquelas decisões que alteram o curso da história, sabendo-se o fenómeno em que Mourinho se transformou e como importante foi para o rival FC Porto vencer uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões - o último emblema fora das big 5 a conquistar a competição de clubes mais importante do mundo.
Pouco mais de 25 anos depois, ainda que com outros protagonistas, o contexto não parece ser assim tão diferente: José Mourinho, de uma certa forma, não se sentiu um treinador tão desejado quanto o seu estatuto, ego e projeção mereciam; citando o próprio e adequando as palavras ao contexto certo, «em circunstâncias normais», mas também em «circunstâncias anormais» qualquer presidente colocar-lhe-ia um novo contrato, em março, quando ele se ofereceu para renovar.
Rui Costa não o fez, talvez recordando-se do timing errado na renovação de Roger Schmidt e cujo despedimento meses depois custou uma fortuna ao Benfica. Porém, os momentos e personalidades são totalmente diferentes. Só quem não o conhece acha que, do ponto de vista político e da autoridade que representa perante um plantel, José Mourinho poderia preparar a próxima época tendo apenas um ano de contrato, um enquadramento que o colocava a prazo e enfraquecia a sua imagem.
A crise do Real Madrid acabou por ajudar à narrativa. Se nada de anormal ocorrer, José Mourinho será o próximo treinador dos merengues e protagonista, ainda que de forma indireta, nas eleições de dois grandes clubes num curto espaço de tempo: no Benfica foi uma cartada para Rui Costa, na capital espanhola traz consigo a promessa de alguém que vai organizar a casa (outra vez) e ajudar o amigo e candidato Florentino Pérez, que apesar de usar argumentos errados na recente e famosa conferência de imprensa teve no entanto o mérito de abafar a crise no clube e mostrar que ainda tem o perfeito domínio do jogo, tanto no discurso público como no caudal informativo que aponta, de forma inequívoca, para o regresso do treinador português a Chamartín – notícias nunca desmentidas, bem pelo contrário; só os mais ingénuos acreditam que tudo isto não passa de especulação.
Um quarto de século depois, José Mourinho volta a escrever uma história incompleta. Talvez o Benfica seja mesmo um lugar estranho para ele e valha a pena mudar o adágio: Nunca voltes a uma casa onde foste infeliz.
ELEVADOR DA BOLA
A subir
Victor Froholdt, jogador do FC Porto
O melhor jogador do campeonato. Notou-se um FC Porto com e sem ele. Foi, para o meio-campo dos campeões nacionais, o que Gyokeres representou para o ataque do Sporting no passado. Mostrando-se assim na Champions irá garantir grande negócio para o dragão.
Estável
Frederico Varandas, presidente do Sporting
Ainda a época não terminou e já prepara a próxima. A contratação-relâmpago de Zalazar revela destreza, ainda que pagar €30 milhões por um jogador de 26 anos é um risco financeiro (mas não desportivo). É o preço a pagar para quem chega mais rápido.
A descer
Rui Costa, presidente do Benfica
Prepara-se para conhecer o seu sexto treinador em cinco anos depois de Jorge Jesus, Nélson Veríssimo, Roger Schmidt, Bruno Lage e José Mourinho. Nenhum projeto desportivo sobrevive a tanta instabilidade e o dinheiro de helicóptero já provou não ser a solução.