«Curiosamente, a melhor época de sempre veio numa altura em que a minha vida já não se resume apenas às quatro linhas», diz o médio do Abha Club, da Arábia Saudita — Foto: D. R.
«Curiosamente, a melhor época de sempre veio numa altura em que a minha vida já não se resume apenas às quatro linhas», diz o médio do Abha Club, da Arábia Saudita — Foto: D. R.

Um dia, tudo mudou

Sentei-me para escrever este texto poucas horas antes de levantar o meu primeiro troféu como futebolista profissional. Trinta e três anos e um frio na barriga que me faz lembrar dos 13. 'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Afonso Taira, futebolista profissional

Era uma vez uma época que se fez com um início banhado em humildade. A equipa demonstra rapidamente nível de campeão, mas os primeiros jogos são uma sucessão de bolas que batem no poste e... saem.

Fechamos os olhos e estamos no jogo inaugural, em casa, concentração máxima... Expulsão aos 4 minutos de jogo. É difícil imaginar um início mais atribulado. Jogamos, marcamos, e marcamos outra vez; o feeling de campeão. Mas empatamos 2-2. Poucos dias depois, eliminatória da Taça com o Al Shabab, equipa de primeira Liga liderada por Yannick Carrasco. Ao minuto 104 sofremos o golo do empate! Mais uma vez superiores, mas eliminados nos penáltis. No regresso ao campeonato, passamos 45 minutos naquilo que parece um jogo contra juvenis (tal é o nível de campeão que sentimos em campo). Um sólido 1-0 termina 2-3 e mais um banho de água gelada. O jogo mais difícil de digerir da temporada.

O único feeling possível é o de encarar a época por aquilo que estes jogos nos mostravam o que iria ser: um trabalho longo e demorado, cheio de pedras pelo caminho. Pelos vistos, guardámo-las todas. Seguiram-se oito meses de construção do castelo mais alto que esta Liga já conheceu.

No total, podemos falar em nove meses de luxo desportivo no Abha Club: o nosso trajeto fez-se de 28 jogos seguidos (!) sem perder, um domínio sem igual na história deste campeonato e, individualmente, aquele papel de que eu gosto, que me motiva e do qual desfruto — o de liderar um grupo, marcar um ritmo e unir a malta. Curiosamente, a melhor época de sempre veio numa altura em que a minha vida já não se resume apenas às quatro linhas. 

Quem não gosta de um bom desafio?

É constante a dicotomia no futebol entre a expectativa dos resultados e a construção de um qualquer caminho de sucesso. A nossa carreira, no seu todo, padece do mesmo mal. A cada final de época, de contrato, tentamos tomar decisões para as quais ninguém nos prepara: o futebol profissional não tem curso de faculdade. Tão-pouco me parece que a indústria queira que o jogador esteja preparado para esses momentos de decisão — fala, aqui, a voz da experiência.

Por trás desta voz está um adepto de psicologia: aquela que dá ferramentas, que gosta de separar bem aquilo que recai ou não sobre a nossa esfera de controlo. Num certo verão, refém daquilo que não, começo um caminho que me traz até esta página, cortesia de A BOLA.

Sempre me fui afastando, tranquilamente, da tradição imposta ao jogador: limitar-se a treinar e a jogar. Nunca fui muito fiel a esse protótipo, mas é curioso que desde os meus primeiros passos conscientes em direção ao Afonso Taira ex-jogador, o sucesso desportivo não me deixa da mão. É chato para os eternos críticos, que depois de uma derrota atiram-se ao pescoço dos que tentam coisas diferentes, mas eu só tenho a agradecer.Quem traz boas intenções começa, sem querer, a perguntar o que queremos fazer depois dos relvados. São pequenos lembretes inocentes de que a idade avança. Se estivermos bem preparados, estes momentos transformam-se apenas na clareza de começar a fazer a transição de carreira bem antes do nosso último golo.

Sou, sim, fiel a caminhos abrangentes. Penso que a minha única especialização em campo é o primeiro toque — tudo o resto na minha vida segue essa influência de interesses pouco individualizados. No relvado, é o coletivo que me inspira. Fora dele, fazendo uma breve visita ao passado, o padrão mantém-se: a licenciatura que escolhi foi em Gestão — possivelmente, um dos cursos menos especializados do cardápio. Caprichosamente, tenho muita dificuldade em responder à pergunta sobre o futuro e, para não destoar, escolhi ser abrangente.

Optei por comunicar porque a voz do jogador profissional tem, quase sempre, data de validade. É feitio — do mundo do futebol, entenda-se. Poucas vozes fazem eco depois da fase dos relvados, ficando pelo caminho muitas ideias, mensagens e histórias que poderiam contribuir para a evolução do nosso desporto. O meu trajeto ditou o Médio Oriente como sede atual futebolística e familiar — o que pode parecer um contrassenso para quem se quer fazer ouvir em Portugal —, mas nunca a minha voz foi tão ouvida.

O meu interesse por futebol, especialmente pelo espaço que ele pode representar para mim no futuro, evolui constantemente e tem ganho formas que também fogem das quatro linhas. Uma das perguntas para as quais não tenho resposta tem a ver com o futebol enquanto produto. Como é que os adeptos do futuro o vão consumir? As perguntas sem resposta são comichões constantes. O formato atual de ver um jogo corrido num estádio ou na televisão parece-me ter muita margem de evolução, e tenho quase a certeza de que o futebol 2.0 terá ao centro uma equipa composta por quem viveu o desporto desde dentro. Por outro lado, tenho em casa uma criança de 6 anos que já se senta a ver futebol como eu próprio nunca fui capaz na minha fase de jogar à bola. Vá-se lá entender a nova geração.

Vivo há três anos na Arábia Saudita e vejo que a visão do futebol como espetáculo está a criar raízes. Observar este fenómeno em primeira mão não apaga aquele ideal de uma noite fria e chuvosa em Stoke, mas o futuro não abranda para ceder passagem. Gosto muito do jogo, de desporto no geral e de tudo o que acontece para alimentar esta engrenagem, mas não ignoro que o mundo gira com a força do poder financeiro, ao contrário do que as leis da física nos tentam dizer. Dito isto, acredito que existe muito espaço para que nós, especialistas na receção e no passe, estejamos em sítios onde não respeitam apenas as velhas tradições do treino ou do agenciamento.

Toda esta preparação na transição de carreira com foco no jogo a jogo pode até ter momentos de investimento sem retorno aparente, mas isso não significa que ele não chegue. Gosto de falar da minha experiência e a verdade é que, recentemente, colhi um fruto que tem tudo a ver comigo: fui convidado para integrar a equipa de gestão de um fundo de venture capital, o COREangels SportsTech, com foco em start-ups europeias de tecnologia para o desporto. Sinto que é um passo importante porque me permite sentir — lá está — que posso contribuir para o desporto da minha vida noutra perspetiva.

Não sei, ainda assim, qual é o timing adequado para dar certo tipo de passos. Estou apenas a atravessar o momento e não a fazer retrospeções, mas se a pergunta fizer comichão a algum leitor, este texto já valeu a pena. No meu caso, os relvados continuam a ser o meu sítio favorito e não penso mudar de habitat em breve. Esta época em Abha foi mais um exemplo de que o futebol são dois dias e regresso agora à primeira frase deste texto.5 de agosto de 2025. Um dia, tudo mudou: a poucas horas de assinar o contrato que me levaria a uma descida de divisão, assino outro que me leva a ser campeão.

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