Mourinho e Rui Costa, e a fuga do navio-fantasma
Os dias passam e o tema mais quente continua a ser o Benfica e o tabu Mourinho.
Os encarnados baixaram do segundo para o terceiro lugar com dois empates seguidos e é com naturalidade tremenda que se preparam para deixar fugir o mínimo dos mínimos: a participação nas eliminatórias da Champions.
O Benfica foi incompetente. E não há personificação que valha a Rui Costa e Mourinho, porque o clube aqui são eles. Em todas as outras oportunidades que tiveram para reduzir distâncias e colocar pressão nos rivais — exceto o dérbi de Alvalade, que mesmo assim, segundos antes, podia ter caído para o Sporting — falharam, tal como quando se tratou apenas de confirmar o milagre.
O técnico pintou, mais uma vez, o quadro que quis, o das muitas oportunidades e falta de eficácia. Não é que o Benfica tenha jogado mal, mas andou tremendamente longe de jogar o que pode. De controlar um jogo que estava proibido de largar e deixar escapar.
O setubalense não conseguiu o milagre que ele próprio admite que precisava para devolver títulos ao museu encarnado.
Até podemos concordar no conceito, porém enquanto o treinador visa as arbitragens eu teimo em focar-me no modelo. Esse, o que montou, foi claramente insuficiente. E, aí, é verdade que só mesmo um milagre levaria a conquistas.
O fracasso de Mourinho não surpreende. Escrevi aqui que se tratava de um erro antes de o próprio assinar. E não tinha que ver com a massa crítica. O plantel talvez não fosse tão extremo como gostaria, na fisicalidade, na referência de área que não tinha, no 1x1 de que precisa para criar desequilíbrios e na verticalidade e pragmatismo, mas não era mau ponto de partida.
O futebol que jogou foi medíocre. Os resultados são pobres. Não potenciou um único jogador da formação. E talvez aqueles que mais cresceram — Schjelderup e Prestianni passaram a fazer mais coisas bem — fiquem-lhe a dever apenas a aposta, a partir do momento em que começaram a responder em campo e antes de serem despachados, como foi noticiado, para outras paragens.
Pavlidis não é agora melhor avançado. Ivanovic não se tornou um goleador. Trubin continua a alternar grandes defesas com erros infantis. Tomás Araújo, António Silva, Otamendi, Dedic ou Bah são praticamente os mesmos, uns meses mais velhos. Aursnes é o pêndulo que sempre foi. Dahl e Barreiro tornaram-se os principais rostos da passagem do Special One. E se ambos fossem suplentes ninguém levaria a mal.
Sinceramente, não vejo razão para que Mourinho continue. Há assim tantas certezas de que o processo irá melhorar com outros nomes? Viu-se isso antes, noutros locais?
Rui Costa terá percebido que Mourinho aceita o que outros recusam. Ou aceitava. E não encontra uma melhor solução, o que diz mais sobre si do que sobre o treinador. O Benfica é um navio fantasma, desgovernado, a ameaçar afundar-se, ao mesmo tempo que o presidente ordena aos violinistas que continuem a tocar.
O som está alto, há quem queira dançar. Há jornalistas proibidos de fazer perguntas. Não há lugar para os mensageiros da desgraça. Ou para informar realmente sócios e adeptos. Algo que deveria envergonhar tão grande instituição.
Há quem diga que tanto vale ser Mourinho como qualquer outro, que o problema é Rui Costa. E terá razão na última parte.
Rui Costa não é um líder e nunca o conseguirá ser, o que faz com que um treinador que saiba preencher os vazios que ele deixe acabará por ser mais feliz. Outro que só queira o banco dificilmente terá sucesso ao apenas ouvir o próprio eco. Também um modelo que respeite a cultura do clube, o futebol ofensivo que faz parte do seu ADN, terá mais sucesso no contexto de Liga portuguesa, onde as diferenças levam a demasiados blocos baixos.
Portanto, ter Mourinho ou outro não é bem a mesma coisa. Mesmo que a maior parte da culpa continue a ser de Rui Costa. Que não sabe, nunca soube e dificilmente irá saber.
O que não se entende é porque continua. O seu benfiquismo já o deveria ter empurrado para a demissão. Não é uma questão de tempo, de aprendizagem. É ter e não ter, e não tem.
A contestação só irá aumentar. E em vez de sair adorado pelos adeptos, como acontecia quando era jogador, poderá ver a sua imagem destruída para sempre. Será que não o vê?
A maior prova de amor ao clube, por vezes, é o reconhecimento da própria incapacidade para salvá-lo.
Se não o percebe, pelo menos que faça estas perguntas a si próprio:
«Como quero que a equipa jogue daqui por três, quatro, cinco anos?»
«E como quero lá chegar? Pelo scouting e com jogadores com espaço para crescer, pelo scouting e formação, alicerçados nas referências que existem? Ou, exclusivamente, pelo mercado de jogadores feitos?»
O terceiro passo será escolher treinador que se enquadre na ideia. Enquanto não houver um clube claramente dominador, até se arrisca a ganhar sem que o processo esteja maduro.
Se a resposta à primeira questão for ganhar de imediato, então correrá o risco de andar a montar e desmontar planteis consoante o técnico.
Depois, o clube não pode tratar ativos como Sudakov, Ríos ou Lukebakio como peças descartáveis de época para época. Não se pode dar ao luxo de desdenhar o talento. E é preciso decidir se o futuro passa pela irreverência mais maturada de Prestianni ou pela afirmação de Ivanovic, em vez de andar a colecionar promessas para depois as deixar a definhar no banco. E tem de haver espaço para José Neto e para Banjaqui.
Os ciclos que tem de encerrar são os que se tornaram círculos viciosos. Como os de Otamendi e Rafa. Ou até de Trubin, se se achar que não é o guarda-redes certo. Por fim, valerá ou não encontrar um meio-campo, talvez a três, em que Enzo Barrenechea faça sentido? Dahl e Barreiro serão sempre úteis, já Bah será em breve o terceiro de uma hierarquia que costuma terminar no número 2.
No final da análise, lá faltarão centrais, um problema premente há várias temporadas. Eventualmente um guarda-redes e um lateral-esquerdo mais desequilibrador no ataque. Um extremo direito associativo. E talvez um ou dois médios que saibam o que fazer com a bola e não tenham medo da pressão. Seja aliada ou inimiga.
Não há é nenhuma razão para partir do zero outra vez. A não ser mesmo na forma como se lidera. Ou mesmo em quem lidera.