Não ligar ao que vem do Olival

No diálogo cara a cara com o Benfica, o FC Porto foi pior em tudo: nos pontos, nas vitórias e nos golos marcados e sofridos. Por isso, a águia foi campeã

RUI COSTA quer ser um presidente de mudança e honrar a história do Benfica. Afirmou-o com todas as letras ao definir como estratégia a recuperação do estatuto europeu do clube. Em vez de promessas fáceis, optou por elevar o grau de exigência aos seus profissionais, mais qualidade em menos quantidade, por forma a colocar um ponto final na política de aquisições seguida no passado recente e que deve ter envergonhado a águia por ver-se estampada no peito de tanta gente vulgar.

Foi essa a herança que Roger Schmidt recebeu. Entregaram-lhe um rancho de 39 jogadores e a partir dele começou a projetar o futuro, o que mais realça os resultados alcançados até hoje. Mesmo na fase mais sombria da época, em que os medos tolheram o confiança, considerei que este primeiro ano, tal como fora delineado, visou, como ponto de partida, a construção de uma equipa suficientemente competitiva para se focar no que era considerado essencial e que, do meu ponto de vista, em face da limitação de meios, deveria incidir na vitória Campeonato e numa participação de excelência na Liga dos Campeões, desvalorizando as competições restantes por uma questão de elementar prudência.

A estratégia foi inteligente. Teve sucesso e muito irritadiço deixou o treinador portista, ao confessar, no arrumar dos cestos, que venceu três provas mas faltou-lhe a mais importante, o Campeonato nacional, apesar do imenso barulho que fez para lá chegar, ele e a sua estrutura, transformando as últimas jornadas num verdadeiro inferno.

Ainda ontem, já em período de férias, Verón, herdeiro da camisola 7 de Luis Díaz, para agradar ao chefe, provavelmente, ressuscitou a ladainha de Conceição e afirmou que, «de igual para igual», o FC Porto é melhor do que Benfica e é melhor do que SC Braga e Sporting, também. Melhor foi, sem dúvida, na estratégia comunicacional ruidosa e agressiva, mas só nesse ponto, porque no diálogo cara a cara com o Benfica, em concreto, foi pior em tudo, nos pontos, nas vitórias e nos golos marcados e sofridos.

Para consumo interno, o Benfica construiu uma equipa vencedora. Agora, precisa fortalecer essa equipa e formar um plantel com banco de suplentes enriquecido com pessoal jovem e ambicioso, que seja alternativa credível aos habituais titulares, impondo-lhes uma concorrência agressiva, permanente e necessária.
 

RUI COSTA está obrigado a triunfar na segunda etapa do seu percurso, através da contratação de jogadores eventualmente dispendiosos, na perspetiva da pobre realidade lusa, embora imprescindíveis para o crescimento da sua empreitada: adquirir com critério, privilegiando sempre a qualidade individual e o enquadramento no espírito da águia, sem perverter a estabilidade financeira da sociedade.

Pode parecer irrelevante, mas é uma mudança como da noite para o dia, de aí Roger Schmidt ter colocado o acento tónico no preenchimento dos lugares de Enzo Fernández e de Grimaldo, por ele considerados de especial importância no desenho tático que pretende sedimentar e agilizar, identificando nomes para entrarem, jogarem e enriquecerem o poder competitivo do grupo.

O turco Kokçu custa 30 milhões de euros. Um exagero na opinião de muito boa gente, mas que não passa de um negócio de baixo risco, e só não escrevo nenhum risco porque as lesões graves não avisam, acontecem.

O Benfica está pujante e reúne condições que os rivais não enxergam. Tem um plano e tem um presidente de enorme prestígio no mundo do futebol que sabe contar com o apoio do adepto anónimo, a alma do clube.

Quanto aos ciúmes que sopram do Olival de Gaia é deixá-los passar a caminho do sítio onde devem estar…


MARÍTIMO AO FUNDO

NÃO gostavam do feitio de Carlos Pereira, o anterior presidente do Marítimo, porque não dava confiança a chefes de claques, nem a oportunistas. Nesse tempo havia liderança e o emblema madeirense tornou-se uma referência nacional em termos desportivos e, principalmente, sociais, consciente do seu papel de apoio à comunidade. O Marítimo vivia estável e tranquilo e isso aguçou cobiças e vaidades.

Como geralmente sucede em situações semelhantes, um acumulado de maus resultados no futebol foi o detonador eficaz para o golpe anunciado. Agitadores havia, faltava um presidente para o assalto final. Rui Fontes vai ficar na história por ter aceitado liderar o movimento que conduziu o Marítimo à despromoção. Foram céleres. Um ano bastou para trocarem a segurança pela decadência. E culpados? Não há, nunca há. Nem decência para pedirem desculpa e saírem.

Como a situação é grave e requer experiência, medidas drásticas e pulso firme talvez não fosse ideia descabida perguntarem a Carlos Pereira se estará disposto a mais um esforço para recolocar o Marítimo na Liga principal. Dizem-me que não, mas talvez dependa de quem lhe fizer o pedido…