José Mourinho, treinador do Benfica - Foto: Miguel Nunes
José Mourinho, treinador do Benfica - Foto: Miguel Nunes

Mourinho lembra golo de Trubin: «Tive 3 ou 4 segundos de perder a cabeça»

Técnico do Benfica confessou que se deixou levar pelas emoções e projetou, ainda, o regresso ao Santiago Bernabéu

Uma noite que dificilmente será esquecida na Luz continua bem viva na memória de José Mourinho. A vitória do Benfica sobre o Real Madrid (4-2), que garantiu o apuramento para o playoff da Liga dos Campeões, foi novamente evocada pelo treinador encarnado em entrevista à Champions League Magazine, da UEFA. E há uma expressão que resume tudo: «Para a história.»

O momento mais marcante? O golo de Trubin nos descontos, que selou uma qualificação improvável. Mourinho recorda o turbilhão de emoções vivido junto ao banco. «No momento em que nós fazemos o golo e toda a gente entra em campo, a única coisa que me lembro é da minha família que raramente está, porque vivem em Londres e estavam ali naquele dia. Tinha mais ou menos a perceção de onde estavam, que seria numa box por cima do banco do Real, e quando vou naquela direção aparece-me o miúdo - que por acaso conheço porque joga no Benfica, mas mesmo que não conhecesse não dava muito tempo para perceber. É uma situação única», começou por dizer.

«Já tinha ganhado numa situação parecida ao PSG, era uma eliminatória entre o Chelsea e o PSG, marcámos o golo da eliminatória os 90' e qualquer coisa, mas foi um atacante a marcar, não um guarda-redes. Aquela situação de arriscarmos tudo com o guarda-redes e ser ele a fazer o golo. Para mim, no futebol, tudo é déjà vu, porque ao longo destes anos já passei por tudo, do bom e do mau. Já tinha passado por ganhar a eliminatória no último lance do jogo, mas ser um guarda-redes a fazer um golo - e que golo! - é efetivamente de perder a cabeça», acrescentou.

Mourinho admite que se deixou levar pela emoção durante alguns segundos. «Tive aqueles três ou quatro segundos de perder a cabeça, mas depois o Arbeloa trouxe-me à terra porque apareceu-me à frente, abraçou-me e fez-me ter aquela coisa de ‘uau, não posso celebrar assim à frente dos meus amigos’, e fui para dentro e não participei da festa que os jogadores fizeram no campo, festa que é normal pela forma como nos qualificámos, porque ao fim de quatro jogos tínhamos zero pontos. Sempre disse que enquanto a matemática dissesse que é possível, é possível. Foi uma vitória incrível com o ‘rei dos reis’, com o ‘mr. Champions League’ e foi de um significado muito grande. Independentemente do que aconteça no playoff com o Real, ou nos oitavos, nos quartos.... a maneira como nos qualificámos ficou na história da Champions, na do Benfica e na nossa própria história.»

«A minha experiência ainda não me ensinou muito a agarrar numa equipa a metade da época»

O técnico falou ainda sobre o desafio de ter assumido o comando do Benfica já com a época em andamento. «Entrar a meio da época é uma coisa da qual não tenho grande experiência e cria-me sempre grandes dificuldades. Chegar e impor-me. Tenho sempre dificuldades em perceber até que ponto posso entrar, que posso romper com o passado. Cria-me frustrações no sentido de ‘não gosto disto, mas tenho de pensar bem se vou modificar, se será melhor fazer ou não’. A minha experiência ainda não me ensinou muito a agarrar numa equipa a metade da época. Essa foi a dificuldade maior no Benfica», disse.

Segue-se agora o reencontro com o Santiago Bernabéu, na segunda mão do playoff. Mourinho garante que tentará controlar as emoções: «Não quero sentir nada. Não sei se vou conseguir, mas vou tentar. Cada vez que vou a sítios onde fui feliz - e já regressei a Manchester, a Milão... - tento sempre não sentir nada, mas antes do jogo sinto muito. Não é nunca uma situação normal voltar a um sítio onde se foi feliz, mas durante o jogo consigo abstrair-me sempre e é isso que espero que aconteça.»

Convidado pela UEFA a resumir numa palavra a passagem pelo Real Madrid, avançou sem dúvidas: «Incrível porque a liga que ganhámos continua a ser ‘a’ liga porque continua a ser o máximo, a liga de todos os recordes, mas também incrível por todas as dificuldades: dificuldade de lutar contra um Barcelona fantástico, contra diversas situações e alguns tabus. Foi incrível.»