A Primeira Liga está a acelerar na direção da Volta a Portugal em Bicicleta: a irrelevância
E a Liga não parece preocupada.
A globalização do futebol, o modelo económico das SAD e a ausência de proteção regulamentar da utilização de jogadores portugueses estão a destruir, lentamente, o sentimento de pertença dos adeptos.
Segundo um estudo do Sindicato dos Jogadores, Portugal foi, entre os 50 maiores países exportadores, aquele que mais aumentou percentualmente o número de futebolistas no estrangeiro entre 2021 e 2026: de 302 para 500, mais 66%.
Portugal nunca produziu nem exportou tantos jogadores e, paradoxalmente, nunca os portugueses tiveram tão pouco peso na própria Liga.
Economicamente, o modelo pode ser racional e, desportivamente, até competitivo. O custo emocional vai revelar-se gigantesco.
A ameaça não é a Liga desaparecer. É muito mais subtil: continuar a funcionar perfeitamente como mercado de jogadores enquanto vai deixando de funcionar como produto cultural português.
Uma Liga em que apenas 30% dos minutos são disputados por portugueses pode continuar a exportar os melhores, importar jogadores para valorizar, reduzir a permanência média nos clubes e diminuir a identificação entre equipa e adepto sem sofrer consequências?
Foi assim que a Volta perdeu centralidade. Não ficou sem ciclistas portugueses nem desapareceu. Simplesmente deixou, progressivamente, de mobilizar o país.
É uma característica muito portuguesa: não mudamos quando percebemos que caminhamos para o abismo. Mudamos quando já lá estamos há demasiado tempo e a liderança nem sequer sabe como sair. E, mesmo assim, só quando permanecer se torna insuportável. Temos uma extraordinária capacidade de adaptação ao que funciona mal.
Com um universo eleitoral de apenas 33 sociedades desportivas, só uma liderança forte e reformista conseguirá contrariar os interesses individuais imediatos e convencer os clubes dos benefícios coletivos de longo prazo.
Se a Liga se limitar a identificar o interesse individual de cada clube e a corresponder-lhe, mesmo quando contrário ao interesse coletivo, o custo futuro será dramático.
A inércia continua a ser uma das forças mais poderosas do futebol português. E de Portugal também.
Dois exemplos aparentemente sem relação ajudam a percebê-lo: o calendário das competições e o que celebramos no dia 5 de Outubro.
No verão, quando as noites são longas, as crianças estão de férias e o clima convida as famílias a sair de casa, os estádios estão vazios e fazemos a pré-época.
Em janeiro e fevereiro, com frio, chuva, relvados degradados e muitos estádios sem proteção adequada, jogamos intensamente — perante bancadas vazias.
Porquê? Porque sempre foi assim.
O calendário nasceu noutro mundo, quando não existiam sistemas modernos de rega e os relvados secavam no verão.
Mudou o mundo, mudou a tecnologia, mudou o futebol e mudou o adepto. O calendário manteve-se.
Portugal oferece-nos outro extraordinário monumento à inércia.
Foi em 5 de Outubro de 1143 que o Tratado de Zamora marcou o momento fundador da independência portuguesa e do reconhecimento de D. Afonso Henriques como rei. Exatamente 767 anos depois, em 5 de Outubro de 1910, foi implantada a República.
Em 1925, o 10 de Junho começou a ser celebrado como festa nacional, associado a Camões, afirmando-se depois como Dia de Portugal.
Mais de um século depois, continuamos a celebrar Portugal na data da morte do seu maior poeta e não numa data associada ao seu nascimento político.
Porquê? Porque há 100 anos que é assim.
É precisamente esta extraordinária capacidade de continuar a fazer amanhã aquilo que fazíamos ontem, mesmo depois de desaparecerem as razões que o justificavam, que ameaça hoje o futebol português.
O calendário tem ainda outra característica especialmente desajustada dos hábitos atuais: o campeonato é sucessivamente interrompido pela Taça de Portugal e pela Taça da Liga.
Seria absurdo se os torneios de ténis fossem disputados aos bocados durante a época, em vez de concentrados num período curto e jogados, um de cada vez, até encontrarem um vencedor. A NFL concentra praticamente toda a competição em poucos meses, criando intensidade, continuidade e expectativa.
A comparação com as plataformas de streaming, com as quais o futebol também disputa o tempo e a atenção das pessoas, é ainda mais evidente.
Imagine uma série em que vê dois episódios, depois é obrigado a assistir ao primeiro de outra, a seguir a um documentário sobre o mundo animal, depois à biografia de um criminoso célebre e só então regressa ao terceiro episódio da série inicial.
Não será por acaso que as competições que mais concentram a atenção mundial funcionam precisamente ao contrário. Mundiais e Europeus disputam-se durante cerca de um mês, entre junho e julho, com princípio, desenvolvimento e fim. Contam uma história sem permitir que outra a interrompa.
Importamos jogadores porque economicamente faz sentido a cada clube. Jogamos no inverno e paramos no verão porque sempre foi assim. Interrompemos as competições porque herdámos esse modelo.
A Volta a Portugal ensina-nos que uma competição não precisa de desaparecer para se tornar irrelevante. Basta que, lentamente, as pessoas deixem de sentir que lhes pertence.
Esse é o verdadeiro desafio da Liga: deixar de organizar o futebol segundo a tradição e começar a pensá-lo a partir dos hábitos — e do sentimento de pertença — de quem o quer consumir.
Não prefeririam os adeptos, e todos os agentes do futebol, concentrar as competições menos relevantes no mês de Janeiro, em vez desses jogos irem sendo disputados entre jornadas da Primeira Liga?
Porque a irrelevância não começa quando deixam de existir jogadores, clubes ou espectadores. Começa no dia em que uma competição continua a existir, mas aqueles a quem pertencia deixam de sentir que é sua.