Marítimo de Primeira: o microcosmos do balneário: vinho, churrascos, caricaturas e um ‘novo Ukra’
Parte V — Mente sã, corpo são e grupo unido
O trajeto triunfante do Marítimo alimenta-se de episódios de cumplicidade coletiva e um forte sentido de camaradagem coordenado pelos elementos mais experientes. O médio Raphael Guzzo assumiu o papel de dinamizador do balneário, um pouco como fazia Ukra no Rio Ave. Utilizando ferramentas de inteligência artificial como o ChatGPT, imprimia montagens com os rostos dos membros da equipa técnica e dos atletas, espalhando-as pelas paredes do estádio.
Outro pilar da coesão interna envolveu o avançado espanhol Adrián, peça fulcral no ataque insular. No decorrer do desafio da 13.ª jornada frente ao Torreense, disputado a 6 de dezembro de 2025, Adrián Butzke assina o golo que garante a vitória por 2-0 e celebra simulando o ato de beber de um copo. O gesto capta a atenção de Miguel Moita, dando origem a um pacto informal que vigora até ao final do campeonato.
«Fui perguntar-lhe o que queria dizer com aquilo e ele explicou-me que gostava de tomar um copo de vinho. 'Eu também gosto de um bom vinho’, disse-lhe, antes de lhe propor: ‘Vamos fazer o seguinte: por cada golo que fizeres, dou-te uma garrafa. Mas com uma condição: se perdermos, não te dou nada. Em caso de empate ou vitória, levas a tua garrafinha'. E pronto, aquilo foi alimentando o balneário. Não falhei uma garrafa e ele acabou por fazer a melhor época de sempre. Não é mérito meu, é mérito dele, mas os treinadores ficam contentes quando um jogador tem a sua melhor época. E ele ainda me deve uma garrafa da Ribera del Duero. Prometeu e ainda não cumpriu», conta Moita entre risos.
A gestão emocional inclui ainda momentos de confraternização organizados pela própria equipa técnica. Um dos adjuntos, dotado de talento para a escrita e para a guitarra, compõe rimas personalizadas para cada atleta. Estas são apresentadas de surpresa após o treino, acompanhadas por salgados e cervejas oferecidas pela estrutura para quebrar a rotina.
O balneário institui ainda um rigoroso sistema de multas diárias, que alimentam depois churrascos periódicos nas instalações. Os eventos contam com a estreita colaboração de Vítor, adepto ferrenho e proprietário de um restaurante, que assegura o apoio logístico e a confeção das refeições.
Moita atribui aos capitães e aos veteranos a estabilidade nos momentos mais delicados: «Tive sempre os capitães muito envolvidos, malta que mobilizava o grupo e estava sempre em cima. Os mais experientes foram fundamentais para a estratégia e para os momentos mais complicados. Jogadores como Guzzo, Paulo Henrique, Carlos Daniel são a extensão do treinador em campo. O Guzzo, por exemplo, teve um momento em que baixou a performance e chegou a sair da equipa titular. Mas percebeu o momento, trabalhou nos limites e quando voltou foi fundamental no crescimento e no guiar da equipa, inclusive a comandar os momentos de pressão e a comunicar constantemente. O Paulo Henrique é outro exemplo: lembro-me perfeitamente do jogo em que partiu o nariz e continuou em campo até ao fim. No jogo seguinte teve de atuar com máscara. Estes são os sacrifícios que levamos no coração porque foram determinantes para atingirmos os objetivos.»
Parte VI
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