Reportagem no Festival Iminente
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

Clubes de Chelas ‘renascem’ em camisolas que são arte à flor da pele

Seis artistas foram convidados pelo Festival Iminente para recriar a imagem de seis clubes de bairro de Chelas e Beato. Os desafios e responsabilidade de trabalhar um formato distinto

Ozy senta-se em casa. Numa das salas de casa.

Ali, para ele, casa é o bairro inteiro. Chelas, Marvila, Beato. Chamem-lhe o que quiserem. Ele chama-lhe casa.

E naquela sala da antiga Escola Industrial Afonso Domingues, além da casa da avó como vista da janela, Ozy tem atrás um graffiti que pintou na rebeldia consciente dos 27 anos. Oculto. Depois de entrar à socapa com um par de amigos para imprimir arte em paredes abandonadas.

Hoje, é diferente. Entra sob holofotes, de boné dourado na cabeça. Feito artista, para nos falar da sua obra. Não o graffiti do passado, onde predomina o amarelo sob fundo azul, mas uma camisola em vários tons de laranja. Uma das Camisolas de Bairro.

É que Ozy From Block foi um dos seis artistas convidados pelo Festival Iminente para reinventar a pele de seis clubes locais: Oriental, AD Pastéis, CF Chelas, Vitória Clube de Lisboa, Sociedade Musical 3 de Agosto e Torre Laranja FC.

O cartaz de luxo solidário tinha, além dele, Vhils, Nuno Trigueiros, Kruella, Akacorleone e Tamara Alves. E juntos deram cor e corpo à expressão «amor à camisola». Traçaram um novo capítulo da história de cada um daqueles clubes de bairro, criando legado através da arte. 

Um dia no Festival Iminente a conhecer a nova pele de seis clubes de bairro

Galeria de imagens 27 Fotos

A ideia já estava guardada há uns anos à espera da oportunidade certa. Como nos conta o assistente social António Brito Guterres, nasceu no desenvolvimento do projeto Narrativas de Bairro, promovido pelo jornal Mensagem de Lisboa, no qual Airton César Monteiro se tornou repórter local e contou a história de cinco clubes de Chelas.

Logo na altura, Brito Guterres, doutorando em Estudos Urbanos, partilhou com o repórter a ideia de fazer um rebranding das camisolas daqueles clubes. E quando o Festival Iminente anunciou a mudança para as antigas instalações da escola, a ideia chegou ao criador do festival, Vhils, que considerou que fazia todo o sentido associar o Iminente a esse projeto.

António Brito Guterres foi um dos curadores do projeto 'Camisolas de Bairro' - Foto: André Carvalho
António Brito Guterres foi um dos curadores do projeto 'Camisolas de Bairro' - Foto: André Carvalho

«Há aqui uma grande diversidade de práticas de futebol. Nós temos o Oriental, que muitos conhecem por causa do futebol, ou o Torre Laranja que trabalha muito o futsal na Zona J. Mas temos, por exemplo, equipas de futebol de praia com campeãs do mundo de futebol de praia. Chelas é capaz de ser o único bairro que tem dois estádios de futebol de praia e há muita gente que não faz a menor ideia disso», introduz.

Com currículo e obra em vários bairros sociais de Lisboa, Brito Guterres sublinha a importância dos clubes locais na tarefa de afastar jovens dos piores caminhos, que demasiadas vezes parecem vias únicas, e refere que a iniciativa funciona quase como homenagem, mas sem se ficar apenas pelas intenções. 

O Vitória Clube de Lisboa, conhecido como o Picheleira, foi um dos clubes que viu nascer uma nova camisola, no caso da autoria de Akacorleone - Foto: André Carvalho
O Vitória Clube de Lisboa, conhecido como o Picheleira, foi um dos clubes que viu nascer uma nova camisola, no caso da autoria de Akacorleone - Foto: André Carvalho

«Pretendemos chamar a atenção da sociedade civil para muita gente ‘carola’ que se organiza e que mete centenas de miúdos e miúdas a treinar e a jogar. Esse é um papel pouco destacado e que sai muito do bolso dos dirigentes e dos familiares. E quisemos destacar isso associando à história do território», revela, explicando a mais-valia que os clubes conseguem além da publicidade.

«A ideia era fazer algo que os clubes pudessem usar para divulgar ainda mais a sua história ao resto da sociedade. E também para terem algum retorno financeiro, porque isto teve um patrocínio para eles conseguirem vender as camisolas nas respectivas sedes, além de serem vendidas na [galeria] Underdogs e no Festival», nota. 

«Gratificante ajudar a zona onde cresci»

Voltamos a Ozy. E ao novo regresso dele a um bairro no qual deixou de ter morada aos sete anos, mas ao qual foi voltando sempre, tendo a casa da avó como cordão e as amizades umbilicais como chamamento. 

Ao olhar para o passado e para o desenho cheio de ‘pokébolas’, é a eternidade que o artista pretende capturar com a camisola que desenhou para o Torre Laranja FC.

«Espero que a camisola dure ainda mais do que este graffiti. É uma coisa mais séria. Quando fiz o graffiti foi uma coisa de amigos, uma diversão. A escola estava fechada e nós procuramos sempre sítios onde possamos estar mais tranquilos a pintar, longe de problemas. A camisola é uma coisa muito mais gratificante. Dá-me oportunidade de ajudar e fazer alguma coisa pela zona onde cresci», explica.

Ozy From Block recriou a camisola do Torre Laranja FC, clube da Zona J, onde ele tem raízes e cresceu - Foto: André Carvalho
Ozy From Block recriou a camisola do Torre Laranja FC, clube da Zona J, onde ele tem raízes e cresceu - Foto: André Carvalho

A camisola, contudo, está longe de ser a primeira obra que o liga ao bairro. Essa é uma constante, como nota Ozy, que cresceu na linha da Azambuja, para onde foi morar com os pais aos seis anos. 

«Há muitas peças artísticas que faço que simbolizam bairros aqui de Chelas. Porque existe uma grande ligação. Nasci aqui no Beato, a minha avó é daqui, o meu pai e toda a família dele são de cá. Os meus amigos são daqui, treino aqui. No meu trabalho já se percebe essa ligação. Por isso, foi um orgulho ter sido convidado para integrar este projeto, que me permitiu ajudar um clube desta zona de Lisboa, que normalmente preferem que não se fale dela. Ter uma equipa do bairro a utilizar aquilo que eu fiz deixa-me mesmo realizado», orgulha-se. 

Ozy assume o desejo de que mais pessoas vistam a camisola que criou, na qual estampou a Torre Laranja, assim identificada pela cor da caixa de água que tinha no topo, e que já deu nome a dois clubes de Chelas. Além da torre, a camisola exibe orgulhosamente inscrita a ‘Zona J’ e, claro, Chelas. Ainda assim, é nas mangas que surge um detalhe que chama a atenção. 

Ozy From Block recriou a camisola do Torre Laranja FC, clube da Zona J, onde ele tem raízes e cresceu - Foto: André Carvalho
Ozy From Block recriou a camisola do Torre Laranja FC, clube da Zona J, onde ele tem raízes e cresceu - Foto: André Carvalho

Um clube raro, «infelizmente»

O discurso de Ozy mostra que é impossível dissociar o bairro da história de quem cresce nele. Torna-se legado para a vida. Tal como acontece com o desporto, um legado na formação enquanto pessoa, mesmo para aqueles que não vingam como atletas.

Legado e memória. É dessa combinação que nasce o clube que agora vai vestir a camisola criada por Ozy, como explica o fundador, Adriano Pinto, também ele nascido no bairro e antigo aluno da escola onde agora conversa com A BOLA num dos dias do festival Iminente.  

«O clube Torre Laranja FC nasce de passados e de emoções também. Havia um clube que era o Grupo Desportivo e Recreativo Torre Laranja, mas há uns anos houve um acidente que vitimou dois jogadores, deixou outro em estado vegetal e alguns feridos. E essa tragédia fez acabar o que era o futebol salão no bairro», contextualiza. 

Adriano Pinto, fundador do Torre Laranja FC, clube de futsal da Zona J - Foto: André Carvalho
Adriano Pinto, fundador do Torre Laranja FC, clube de futsal da Zona J - Foto: André Carvalho

«Na minha juventude, a Zona J era um pólo muito forte de jogadores e de atividade desportiva, e o desaparecimento desse clube mudou o cenário. Eu também, entretanto, saí do bairro, fui viver para Espanha e quando regressei percebi que tudo continuava na mesma. Toda a gente tinha ficado estagnada em termos de ligação ao desporto. E mais do que falar, decidi reativar uma vertente desportiva, que sempre achei muito importante na integração dos jovens», acrescenta Adriano.

A sede que existia na zona por uma resposta daquele género não demorou a ficar clara. Pouco mais de uma década depois da fundação do Torre Laranja, o clube tem mais de 200 atletas, divididos por 12 equipas, e outros clubes reativaram, ou criaram a modalidade que continua a ser rainha em Chelas.

Ainda assim, o responsável pelo clube lamenta que o foco social tenha perdido força no desporto, algo que considera fundamental, não só, mas muito naquela zona lisboeta.

«Tanto o futsal, como o futebol têm agora uma vertente muito financeira. Infelizmente, nós já somos um clube raro, no qual o foco é completamente a integração dos jovens. Dá-se oportunidade a todos, independentemente de terem ou não capacidade financeira. O Torre Laranja nasce com o espírito de dar oportunidade a todos os jovens - não só da freguesia de Marvila, mas inicialmente na freguesia - de ter contacto com a modalidade. Independentemente de terem mais, ou menos jeito, ambição de virem a ser jogadores, ou não. O foco é a inclusão, algo que tem vindo a desaparecer, mas que com o nosso esforço ainda estamos a fazer acontecer», enaltece.

Detalhe da camisola do Torre Laranja FC - Foto: André Carvalho
Detalhe da camisola do Torre Laranja FC - Foto: André Carvalho

Quanto à escolha do artista para criar a camisola, e ao trabalho do mesmo, o dirigente não podia estar mais satisfeito.

«O Ozy retrata todo o nosso espírito. É muito gratificante estarmos integrados neste projeto, mas foi muito importante ter um artista que sente o que nós sentimos. Nas mangas da camisola está representado o arame farpado, que ele sabe bem o que simboliza para nós. Existe uma barreira que é muito difícil de transpor. E aquilo não foi dito por nós, é algo que ele também sente, por ser do bairro», refere.

Quanto à obra de arte criada, não vai ficar para peça de museu. Se a realidade fosse diferente, talvez a inclusão no projeto Camisolas de Bairro fosse encarada como um importante apoio, fruto do valor que o clube podia fazer com a venda das camisolas. O rumo, porém, vai ser outro: as camisolas vão entrar em campo e não vai ser apenas no torneio que se realizou entre os seis clubes, integrado no Iminente, e teve como padrinho um tal de Edgar Davids

Detalhe da camisola do Torre Laranja FC - Foto: André Carvalho
Detalhe da camisola do Torre Laranja FC - Foto: André Carvalho

«Nós não vamos meter a camisola à venda. Iremos utilizá-la. Porque faz-nos falta. Nós temos essa grande dificuldade, apesar de termos patrocinadores. E assim damos aos jovens a oportunidade de a vestir. Vai fazer muito mais sentido», defende.

«O dinheiro é importante, claro. Mas ir buscar dinheiro e depois estar a comprar equipamentos novos… Faz mais sentido ter esta arte que foi feita numa camisola e ficar com ela para criarmos nós uma marca na nossa história», reforça.

«Visto mesmo a camisola»

A Sociedade Musical 3 de Agosto é o outro clube do projeto que vai levar para campo a camisola criada para o projeto, no caso pela artista Tamara Alves, que assume que teve de fugir bastante da zona de conforto para transformar uma criação artística num objeto tão identitário como é a camisola de um clube.

«É uma coisa muito diferente daquilo que costumo fazer, mas que acolhi com uma energia brutal porque adorei a ideia de um clube poder vestir algo que foi feito por mim. Obviamente, também traz muita responsabilidade, mas senti-me super-grata e honrada pela oportunidade», reconhece. 

Tamara Alves desenhou os novos equipamentos da SM 3 de Agosto - Foto: André Carvalho
Tamara Alves desenhou os novos equipamentos da SM 3 de Agosto - Foto: André Carvalho

Conversamos com Tamara Alves noutra das salas do festival, com lobos criados por ela a voarem-lhe por cima, como a fugir pela janela. Um pouco como também ela teve de fugir das suas habituais referências para esta criação.

«O desafio foi gigante porque sou muito figurativa. Utilizo muito os lobos, por exemplo. Há muita imagética que faz parte do meu universo. E como o clube não tem um símbolo, deram-me liberdade total para eu o criar, se quisesse. Mas eu queria mais homenageá-los e prestar-lhes um serviço, fazer algo para eles, do que impingir o meu trabalho e as minhas imagens. Por isso, trabalhei os lemas e frases inspiradoras que eles têm carregado ao longo dos anos: ‘Somos Marvila’, ‘Esforço, dedicação e garra’. Eles são a SM3 - Sociedade Musical 3 de Agosto - e aqui está. Tornei-os também realeza», sorri, apontando para a sigla que surge contornada por uma coroa numa das mangas.

Detalhe da camisola da SM 3 de Agosto, que Tamara Alves 'tornou' realeza - Foto: André Carvalho
Detalhe da camisola da SM 3 de Agosto, que Tamara Alves 'tornou' realeza - Foto: André Carvalho

«Eu estou mesmo a fazer o equipamento de jogo. E não foi fácil tentar colocar a energia e tudo aquilo que eles merecem no equipamento. Mas fiquei muito contente com o resultado. Adoro a camisola, acho-a super-cool. E fiquei muito feliz por esta ligação que criei com o clube, com as pessoas, com a história e com a zona. E tenho muito orgulho de dizer que visto mesmo a camisola», acrescenta.  

Já quando questionada sobre a responsabilidade de criar a ‘pele’ que vai criar tantas memórias nos jovens atletas que a vestirem, Tamara rende-se. 

«Até me estou a arrepiar só de pensar nisso. Mas há um orgulho inerente neste trabalho por causa disso mesmo. E tentei colocar tudo aquilo que podia inspirá-los e que eles se orgulhassem mesmo de vestir este equipamento», declara, com alguma emoção à mistura.

Até porque, apesar de não ser dali, a ligação ao bairro foi natural.

«Eu não conhecia a Sociedade Musical 3 de Agosto. Já tinha passado lá, só que muitas vezes sentimos que aquilo são locais para os locais. Mas ao mesmo tempo, a história do clube também foi feita de pessoas que vieram para Lisboa, criaram uma comunidade e tinham essa necessidade de pertença. Eu não sou lisboeta, mas agora sou de cá. Sou vizinha de Marvila e tenho essa sensação de pertença. E agora sinto que faço parte da história deles», admite.

E faz sentido. Afinal, o bairro acolhe. Abraça. E tal como Ozy desde sempre, agora Tamara sente-se em casa.

Tamara Alves desenhou os novos equipamentos da SM 3 de Agosto - Foto: André Carvalho
Tamara Alves desenhou os novos equipamentos da SM 3 de Agosto - Foto: André Carvalho

A iniciar sessão com Google...