Ronaldo não é o único: 'guerras', «porcaria» e outros casos polémicos na Seleção
A deserção de Cristiano Ronaldo é a mais intensa polémica a envolver a Seleção Nacional por atingir dimensão mundial. O Caso Saltillo, em 1986, foi igualmente polémico, mas restringiu-se a um retângulo chamado Portugal. Houve também, entre muitos outros momentos bem quentes, o caso Paula, a agressão de Sá Pinto a Artur Jorge, a deserção de Ricardo Carvalho, o soco de Scolari em Dragutinovic e, claro, a polémica Cristiano Ronaldo-Fernando Santos durante e após o Mundial do Qatar.
Eis algumas das mais fortes confusões a envolver a Seleção Nacional de futebol:
A 'guerra' Wilson-Pedroto e FC Porto-FPF
A Seleção Nacional, orientada por Mário Wilson, preparava os últimos jogos de qualificação para o Europeu de 1980, a disputar em Itália, quando o selecionador agendou um jogo particular com a Espanha, em Vigo, para 26 de setembro de 1979. Portugal estava bem lançado para marcar presença na fase final (2.º lugar no grupo, a um ponto da Áustria e com menos dois jogos), mas o FC Porto disputava o acesso à segunda eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus e deslocar-se-ia a casa do Milan oito dias depois. Pelo meio, haveria uma jornada do Campeonato Nacional. A luta Benfica-FC Porto estava ao rubro e os treinadores dos dois clubes, inimigos figadais, eram José Maria Pedroto e... Mário Wilson. Isso mesmo: o treinador do Benfica era o selecionador nacional.
A 22 de setembro, após a jornada do campeonato, Wilson anunciou os convocados para Vigo, incluindo seis portistas: Gomes, Fonseca, Gabriel, Costa, Murça e Frasco. O FC Porto considerou a convocatória uma «clara provocação» aos seus interesses europeus e impediu os jogadores de viajarem. O presidente da FPF, António Marques, mais diplomático, preferiu falar em «pedido de dispensa» e não em «recusa em jogar». Mário Wilson reformulou a lista e chamou Melo, Shéu, João Cardoso, Reinaldo, Chico Gordo, Bastos Lopes e Nelinho. Tudo parecia ter acabado bem (Portugal empatou a uma bola e o FC Porto venceu em Milão por 1-0), mas a caminhada da Seleção não mais seria a mesma: seguiram-se derrotas na Bélgica (0-2), na Escócia (1-4) e em casa com a Áustria (1-2).
Otto Glória e o convite da Portuguesa
Otto Glória fora o arquiteto do 3.º lugar dos Magriços em 1966 e, 16 anos depois, voltara ao comando da equipa das quinas. Tinha 65 anos e dizia-se que perdera vitalidade e conhecimento sobre o futebol português. Saíra do país no início de 1970, após um ano turbulento no Benfica, e nunca mais por cá treinara. Após a não qualificação para o Mundial 1982, a FPF contratou-o para o biénio 1982-1984. A qualificação para o Euro 1984 começou bem (vitórias na Finlândia por 2-0 e com a Polónia por 2-1).
Um ano depois, porém, a sua imagem começou a deteriorar-se quando a Folha de S. Paulo publicou uma notícia revelando que, após o União Soviética-Portugal em Moscovo, o brasileiro pediria a demissão para treinar a Portuguesa dos Desportos, que estagiava no Oriente. Otto desmentiu («Estão a usar-me como bandeira eleitoral...»), mas sem convencer. Cinco dias depois, a catástrofe: Portugal perdeu por 0-5 em Moscovo, com Humberto Coelho e Manuel Bento a denunciarem a «desorganização no planeamento da viagem, problemas alimentares e até de treino». Otto ainda resistiu um mês, mas acabou por sair após perder por 4-0 num particular com o 'seu' Brasil. A federação e os adeptos nunca aceitaram os contactos com a equipa brasileira e, no jogo seguinte, frente à Finlândia, Fernando Cabrita e a sua comissão técnica assumiram o comando.
As quatro cabeças no Europeu de 1984
Em setembro de 1983, Fernando Cabrita sucedeu a Otto Glória. Cabrita fora seu adjunto no Benfica nos finais dos anos 60 e era visto como um homem ligado aos encarnados. Talvez por isso, em novembro de 1983, após o decisivo Portugal-União Soviética (resolvido por Jordão a partir de um penálti sobre Chalana), a FPF reforçou a estrutura técnica: José Augusto, Toni e António Morais passaram a ter maior peso nas decisões, embora o voto de qualidade pertencesse a Cabrita. A convocatória para o Euro 1984 integrou nove jogadores do FC Porto (finalista da Taça das Taças), oito do Benfica (bicampeão nacional) e ainda Jordão (Sporting), Damas (Portimonense) e Jorge Martins (V. Setúbal).
A equipa estava dividida entre os dois rivais, orientada por três treinadores conotados com o Benfica e um com o FC Porto. Apesar da grande época de Eduardo Luís como lateral-esquerdo portista, José Augusto influenciou a titularidade do benfiquista Álvaro Magalhães no último ensaio, contra o Luxemburgo. A partir daí — e com a não titularidade de Fernando Gomes (Bota de Ouro em 1983) —, gerou-se um clima cortante entre os plantéis, que nem as refeições tomavam juntos. O grupo apercebeu-se de discussões entre Toni e António Morais sobre quem devia jogar (Carlos Manuel ou Jaime Pacheco; Nené ou Fernando Gomes) e Cabrita nunca teve pulso para gerir a situação.
Torres não convoca Manuel Fernandes
Manuel Fernandes nunca foi consensual na Seleção Nacional. Apesar dos golos marcados por CUF, Sporting e V. Setúbal, chegara aos 30 anos com apenas quatro golos em 20 internacionalizações. Quando José Torres assumiu o comando em setembro de 1984 (após o 3.º lugar no Euro 1984), a frente de ataque contava com Fernando Gomes, Rui Jordão e o jovem Rui Águas. Não causou surpresa que Torres dispensasse o avançado leonino no primeiro ano (1984/85), apesar dos seus 16 golos no campeonato — superado apenas por Gomes, com 39.
Na época 1985/86, Manuel Fernandes explodiu com 30 golos, contra 20 de Gomes e 10 de Rui Águas. Contudo, Torres continuou a ignorá-lo, gerando incompreensão generalizada e a revolta de João Rocha, presidente do Sporting, que nunca lhe perdoou a ausência no Mundial do México. O selecionador apostou em Gomes, Futre, Diamantino e Rui Águas para a comitiva que viajaria até Saltillo, onde a equipa acabaria afundada numa espiral de conflitos entre jogadores e dirigentes da FPF.
O famoso caso Saltillo
Antes e durante a participação de Portugal no Mundial 1986, no México (onde a equipa ficou instalada na cidade de Saltillo), surgiu uma série de casos de desorganização, indisciplina e conflito direto entre os jogadores da Seleção Nacional e a Federação Portuguesa de Futebol, presidida por Silva Resende. Os jogadores exigiram um aumento substancial dos prémios de jogo e o pagamento correto dos direitos publicitários. Com a recusa inicial da FPF, a equipa ameaçou não treinar nem jogar, gerando um clima insustentável.
Além disso, a logística de preparação foi um desastre. Os campos de treino em Saltillo eram inclinados, cheios de pedras e sem condições para o futebol profissional. A alimentação era desadequada e a equipa realizou jogos de preparação contra equipas locais de amadores e empregados do hotel. Os futebolistas taparam as marcas dos equipamentos oficiais nas fotos de grupo para protestar contra a FPF, que vendia os direitos de imagem dos atletas a patrocinadores sem reverter uma percentagem justa para o plantel.
Apesar de uma vitória moralizadora na estreia contra a Inglaterra (1-0), Portugal acabou derrotado pela Polónia (0-1) e humilhado por Marrocos (1-3), caindo logo na fase de grupos. Após o regresso a Portugal, a FPF aplicou suspensões pesadas e de longa duração aos principais «amotinados» (como Bento, Carlos Manuel, Diamantino, Jaime Pacheco e João Pinto), o que levou vários outros atletas a renunciarem à Seleção e provocou um interregno de anos na competitividade da equipa nacional.
As palavras de Futre e o silêncio de Juca
No pós-Mundial de 1986, a direção federativa escolheu o advogado Rui Seabra para pacificar as relações. A FPF punira nomes como Bento, Carlos Manuel, Diamantino, Jaime Pacheco e João Pinto, e vários atletas recusavam-se a representar a equipa enquanto Silva Resende presidisse à Federação. Seabra contava com Juca como treinador de campo e iniciou o ciclo sem qualquer resistente de Saltillo. Um ano depois, Seabra saiu e Juca assumiu a liderança, promovendo o regresso progressivo dos 'renegados' (Veloso, Álvaro, João Pinto, Gomes, Jaime Magalhães e Sousa).
Paulo Futre, recém-campeão europeu pelo FC Porto e a atuar no Atlético de Madrid, regressou em setembro de 1987. No entanto, após uma pesada derrota frente à Bélgica (0-3), em setembro de 1989, Futre criticou publicamente a tática: «Assim, senhor Juca, não vamos lá; não sou ponta de lança, por que jogo quase como ponta de lança?» Juca remeteu-se ao silêncio e acabou por cair dois meses depois, consumada a falha na qualificação para o Mundial 1990.
A porcaria de Carlos Queiroz
A 17 de dezembro de 1993, logo após o decisivo Itália-Portugal (com a expulsão de Fernando Couto, a derrota por 0-1 e a consequente eliminação do Mundial 1994), Carlos Queiroz disparou em direto na RTP contra os dirigentes federativos: «É preciso varrer a porcaria que há na FPF!» Essa frase marcou o fim da sua primeira passagem pelo comando técnico da Seleção. Um mês depois, rumava ao Sporting para suceder a Bobby Robson.
António Oliveira e o caso Paula
Portugal encaminhava a qualificação para o Euro 1996 quando venceu a República da Irlanda por 3-0, no Estádio da Luz, garantindo o apuramento sob o comando de António Oliveira. Contudo, a 2 de maio de 1997, o programa Donos da Bola (SIC) revelou que, no hotel de estágio para esse encontro, tinham ocorrido encontros entre jogadores e prostitutas, terminando em pancadaria. A brasileira Angélica Cristina Ribeiro ('Paula') relatou o sucedido e acusou o selecionador de apadrinhar a situação. O caso causou escândalo nacional, mas António Oliveira acabou por processar a estação de televisão e ser indemnizado pela SIC em 25 mil contos (cerca de 125 mil euros).
Sá Pinto agride Artur Jorge
No final de março de 1997, o futebol português viveu um dos seus momentos mais graves: a agressão de Ricardo Sá Pinto ao selecionador Artur Jorge. Trancado fora dos convocados para o jogo com a Irlanda do Norte (de acesso ao Mundial 1998), o avançado do Sporting, de 24 anos, deslocou-se ao Estádio Nacional, onde a comitiva estagiava. Por razões nunca completamente esclarecidas, envolveu-se em confrontos físicos com Artur Jorge e o seu adjunto Rui Águas. Portugal empataria na Irlanda e falharia o acesso ao Mundial de França. Sá Pinto cumpriu um ano de suspensão e Artur Jorge ficou com a carreira irremediavelmente associada ao incidente.
António Oliveira e o estágio de Macau
Garantido o apuramento sem derrotas para o Mundial 2002, a preparação decorreu em Macau. A 21 de maio, surgiu o primeiro escândalo: o médio Kenedy foi dispensado após acusar uma substância proibida num controlo antidopagem. Em seguida, surgiram fraturas na equipa técnica (António Oliveira, José Romão, Rui Caçador e Neca), além do corte de relações entre Oliveira e o chefe da delegação, António Boronha.
Em campo, tudo falhou. Após perder com os EUA e vencer a Polónia, Portugal precisava de empatar com a Coreia do Sul para avançar, beneficiando da vitória polaca sobre os americanos. Contudo, a equipa perdeu João Pinto por agressão ao árbitro do último jogo e ficou sob forte desgaste. No banco conhecia-se a vantagem confortável da Polónia, mas Oliveira optou por esconder a informação dos jogadores — o que, segundo João Pinto revelaria mais tarde, teria evitado o descontrolo emocional. A derrota ditaria a eliminação e o fim da carreira de treinador de António Oliveira.
O soco de Scolari em Dragutinovic
Durante mais de quatro anos, Luiz Felipe Scolari viveu sob o escrutínio do caso Vítor Baía, recusando-se a convocar o guarda-redes sem nunca explicar com clareza os motivos. A tensão acumulada com a imprensa explodiu a 12 de setembro de 2007, no final do Portugal-Sérvia (1-1), no Estádio de Alvalade. Após o golo do empate sérvio aos 88 minutos, em posição irregular, o central Dragutinovic aproximou-se do banco português para interpelar Ricardo Quaresma. Scolari interveio e desferiu um soco no jogador sérvio. A UEFA puniu o técnico com quatro jogos de suspensão (reduzidos depois a dois) e a FPF aplicou-lhe uma multa antes do pedido de desculpas formal do selecionador.
«Assim não ganhamos, Carlos»
O regresso de Carlos Queiroz após o Euro 2008 ficou marcado por momentos conturbados. Em fevereiro de 2010, o selecionador e o comentador Jorge Baptista envolveram-se em agressões físicas no aeroporto de Lisboa, quando viajavam para o sorteio do Euro 2012. Já na África do Sul, durante o Mundial, a dispensa de Nani por lesão no ombro gerou desconfiança pela falta de esclarecimentos do departamento médico.
Seguiram-se os desentendimentos públicos com Deco e a reação de Cristiano Ronaldo após a eliminação com Espanha («Assim não ganhamos, Carlos!»), ao qual Queiroz respondeu: «Há jogadores a quem a camisola da seleção parece ser demasiado pequena». No regresso a Portugal, revelou-se ainda o comportamento do técnico perante a equipa de controlo antidopagem no estágio da Covilhã, culminando em entrevistas polémicas com acusações a dirigentes da FPF que ditariam a sua rutura definitiva com a Federação.
A deserção de Ricardo Carvalho
A 31 de agosto de 2011, durante um estágio de preparação para o jogo com Chipre, de qualificação para o Euro 2012, nasceu um dos momentos mais marcantes e polémicos da história da Seleção Nacional, culminando na saída não autorizada de Ricardo Carvalho do estágio. O então defesa-central titular do Real Madrid e figura da Seleção há quase uma década percebeu nos treinos táticos que Paulo Bento planeava dar a titularidade a Pepe e a Bruno Alves, remetendo-o para o banco de suplentes.
O jogador sentiu que a hierarquia e o seu estatuto no balneário não estavam a ser respeitados pela equipa técnica, alegando mais tarde falta de consideração e diálogo por parte do selecionador. Sem comunicar formalmente a Paulo Bento ou à FPF, Ricardo Carvalho abandonou a concentração em Óbidos de carro, antes do almoço da comitiva. Poucas horas depois, fez chegar um comunicado à comunicação social anunciando a sua renúncia definitiva à Seleção Nacional, afirmando ter sido «ferido na sua dignidade».
Mais tarde, numa conferência de imprensa muito dura, Paulo Bento não poupou nas palavras: «Ricardo Carvalho desertou! Quando uma pessoa abandona o seu posto de trabalho sem dar cavaco a ninguém, considero que é uma deserção. Um jogador que abandona a Seleção não pode ser exemplo para ninguém. Comigo, Ricardo Carvalho nunca mais vestirá a camisola de Portugal.» A FPF abriu um processo disciplinar e aplicou-lhe uma suspensão de um ano de todas as atividades relacionadas com a Seleção. Enquanto Paulo Bento esteve ao comando (2010 a 2014), Ricardo Carvalho nunca mais voltou a ser convocado, falhando o Euro 2012 e o Mundial 2014 no Brasil. Após o despedimento de Paulo Bento em setembro de 2014, o novo selecionador Fernando Santos promoveu o regresso imediato de Ricardo Carvalho ao grupo.
Qatar e a 'guerra' Ronaldo-Fernando Santos
O ambiente da Seleção no Qatar foi ensombrado pelo braço de ferro entre Fernando Santos e Cristiano Ronaldo. No jogo da fase de grupos com a Coreia do Sul, Ronaldo reagiu mal ao ser substituído, soltando impropérios audíveis e demonstrando desagrado para com a equipa técnica: «Estás com uma pressa do caralho para me tirar, foda-se!». Fernando Santos criticou publicamente a atitude do capitão: «Se já vi as imagens? Já. Se gostei? Nada. Não gostei mesmo nada. Estas coisas resolvem-se dentro de casa».
E remeteu-o para o banco de suplentes nos oitavos de final (contra a Suíça) e nos quartos de final (contra Marrocos), algo inédito num grande torneio internacional, embora tenha acontecido numa fase em que Ronaldo atravessava um momento particularmente difícil, inclusive em termos pessoais: perda de espaço no Manchester United sob o comando de Erik ten Hag e a entrevista explosiva a Piers Morgan dias antes de viajar para o estágio de Portugal, na qual criticou duramente a estrutura, o treinador e os proprietários do clube inglês. A rescisão de contrato por mútuo acordo ocorreu já em pleno Mundial. Dias após o regresso a Portugal, a FPF anunciou a saída de Fernando Santos.