Espetáculo de pirotecnia na apresentação de Vozinha no Estádio Monumental, do Chile - Foto: Colo-Colo
Espetáculo de pirotecnia na apresentação de Vozinha no Estádio Monumental, do Chile - Foto: Colo-Colo
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Vozinha está mesmo a precisar de beber um grogue em Santo Antão

Desabafo do guarda-redes de Cabo Verde é a prova de que ninguém tem de ser feliz a viver o sonho dos outros. Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta á crónica semanal do meu Livro do Desassossego

Quando Vozinha desabafa que preferia a vida antes da fama, há um soco no estômago. Como pode o guarda-redes cabo-verdiano não estar a aproveitar o sonho cujas portas foram escancaradas no Mundial? E é aqui que surge logo o primeiro equívoco: este não era o sonho de Vozinha, era o nosso sonho, e ninguém ó obrigado a ser feliz por viver o sonho dos outros.

Vozinha é o nosso Cinderela Man. O exemplo de que aos 40 anos, sem clube, se pode estar no maior palco do mundo e ver a vida mudar num único jogo. O que se passou em termos mediáticos por causa de um único jogo, com a Espanha, é tão raro e foi tão impactante que a fama derrubou com estrondo a porta de ferro da fortaleza de Vozinha sem sequer pedir licença e sem se assegurar que Vozinha queria ou estava preparado para todo o mediatismo que se seguiu.  Já para nós, simples mortais, Vozinha passou a ser o exemplo que um dia, contra todas as probabilidades, a nossa vida também pode mudar. E empurrámos Vozinha para viver o nosso sonho. Por isso e tão desconcertante ouvi-lo agora dizer que preferia a vida que tinha antes da fama.

Em vez de encontrar a liberdade, Vozinha encontrou a «prisão» que resulta da completa falta de privacidade. Talvez passe a desejar que nos esqueçamos dele. Talvez queira mergulhar os pés na Praia da Laginha ou esconder-se no Monte Cara, em São Vicente, procurando no pé descalço as memórias felizes de um sonho que, percebe-o agora, já vivia e ainda nem sabia.

João Félix também foi empurrado a viver um sonho que era mais nosso do que ele. A certeza de que era possível a um jovem fazer seis meses ao mais alto nível ter que pagasse 120 milhões por ele. E foi quando ele decidiu escolher o Al Nassr, que a todos nos escandalizou pela falta de ambição, que se reencontrou e surge agora como a principal figura da seleção.  De facto, ninguém tem de ser feliz a viver o sonho dos outros. E às vezes o caminho para a felicidade faz-se de escolhas que não são óbvias para quem as testemunha mas fazem todo o sentido na mente de quem as toma.

Renato Sanches foi também lançado para um sonho que era nosso. O sonho de um Golden Boy que aproveita a lesão de Bernardo Silva para ter a vaga no Europeu de 2016. E que de repente está no Bayern. Mas o nosso sonho foi, a seguir, o pesadelo de todos nós, como se sonhar fosse punido com dureza. E pouco têm pago um preço tão alto quanto Renato Sanches.

Segundo Jorge Palma, «na terra dos sonhos podes ser quem tu és». E essa é a condição primária para podermos chamar sonho ao que nos acontece na vida: podermos ser quem somos, na imensa liberdade de fazer o que gostamos sem obrigação de agradarmos a quem quer que seja. Gastamos demasiado tempo e energia a fazer coisas que não nos fazem felizes para impressionar pessoas que nem sequer gostamos. Que, quantas vezes, nem sequer conhecemos. Um sonho só é sonho quando nos sentimos em casa.

Vozinha: vamos caminhar no Vale do Paul e beber grogue admirando a paisagem singular de Santo Antão. Lá, poderás ser quem quiseres, ninguém te leva a mal. Nha Terra, Nha Cretcheu. 

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