«Sou campeão do Mundo, quanto mais pressão, melhor vou chegar aos Jogos»
A resistência de Vasco Vilaça é inegável. E se antes havia quem pudesse não o saber, o título mundial de triatlo que alcançou no domingo deixou-o à vista de todos. Ainda assim, nadar 1.500 metros, fazer 40 quilómetros de bicicleta, e correr 10 quilómetros em menos de 1h40 pareceu-lhe uma brincadeira de menino, quando comparado com a maratona de entrevistas que enfrentou na chegada a Portugal. Ainda assim, foi sempre de sorriso no rosto que o novo campeão mundial conversou com A BOLA sobre aquilo que alcançou e os desafios que isso agora lhe traz.
– Acaba de se sagrar campeão do Mundo. Para quem cresceu a competir com a Vera Vilaça, não foi assim tão difícil, não é?
– (risos) Ela foi a primeira pessoa que fez crescer este meu lado competitivo. E diria que essas competições e essa competitividade foram o que me fez aprender a ganhar o gosto por competir, a ganhar o gosto por ser um bocadinho melhor o tempo todo. Mas também me fez aprender a perder, porque, honestamente, acho que ela ganhava a maior parte das competições. Aliás, lembro-me de uma que bati com a cabeça na parede a tentar ganhar-lhe, porque ela corria mais rápido do que eu e eu já ia cego (mais risos).
– Esse crescimento juntos no triatlo e fora dele fez também criar uma relação muito próxima.
– É incrível! Poder ter a minha irmã ao meu lado, depois de tudo o que nós já passámos. E hoje em dia, é das pessoas mais próximas que tenho. Já me viu no meu pior, e quando estou no meu pior, é a pessoa com quem sei que posso falar e que está lá para me ouvir e ajudar. Portanto, quem melhor para ter ao meu lado no meu melhor momento também? Fico muito feliz por poder ter ali as pessoas mais importantes na minha vida a celebrarem comigo o momento mais importante da minha carreira.
– Celebraram muito mais eles do que o Vasco. Não há imagens suas a celebrar. Mesmo no pódio, são festejos muito contidos. É a sua maneira de ser, ou ainda não tinha caído a ficha?
– As duas coisas. Não me tinha caído a ficha e também não é a minha maneira de ser. Eu não sou uma pessoa de mostrar muito as emoções à frente de outras pessoas. Tenho um pouco de dificuldade com isso. Um bocadinho pelo mundo em que vivo, internacional, de um lado para o outro, sempre longe das pessoas que realmente querem saber de mim e com quem me posso abrir emocionalmente. Habituei-me a viver esse lado emocional um pouco mais fechado para poder ser competitivo e confrontar o mundo inteiro quando estou ando em competição. E naquele momento, que seria um momento emocional, estava ainda em modo trabalho à frente de toda a gente. Não tive um momento para estar só eu e a minha família e ficar realmente à vontade.
– Mas festejou depois?
– Festejei! E isso, de certa forma, fez parte de festejar. Uma pessoa não consegue sentir emoção só porque quer sentir emoção. A emoção vem por si, não é algo que se quer. E não veio na altura, mas não há problema nenhum. Não tira ao momento o que ele significa. Eu também sou alguém que precisa de estar sozinho para processar essas coisas. E sabia que não era altura de estar sozinho, mas de agradecer a todas as pessoas que me ajudaram a chegar ali. No dia seguinte estive sozinho a manhã toda e pude estar à vontade e pensar naquilo que tinha alcançado. Não era um momento para ter à frente da câmara.
–Fechou-se também pela forma como a prova acabou? Queria muito ganhar e sentiu que foi empurrado pelo adversário…
– Não me fez fechar, mas estando focado em ganhar a prova, mais do que em ganhar o título, a emoção inicial perdeu-se. Não ganhei o sprint final e fiquei chateado com isso. Ainda por cima, pela forma que aconteceu. Mas rapidamente tive as pessoas certas ao meu lado para me lembrar que o momento não era sobre o sprint final, mas sim sobre o título mundial.
– Ver o Ricardo Batista ao lado em lágrimas a festejar o terceiro lugar no Mundial também ajudou?
– Sim, sem dúvida! Foi quando o Filipe [Mendonça, assessor de imprensa da FP Triatlo] me perguntou porque é que eu estava tão chateado, e o Ricardo estava ao meu lado estava em lágrimas. Aí, pensei: ‘Ya, é verdade. Estamos aqui para celebrar um título mundial, é isso que interessa hoje!’
– O Ricardo tem estado muito presente. Acabaram a prova nos Jogos Olímpicos quase juntos e há aquele abraço no chão ainda na meta. Como foi voltar a viver um grande momento com ele?
– Para mim, o momento dele traz mais emoção aos meus bons momentos. E sou mais emocional por isso. Lembro-me em Alghero, eu ganhei a prova e ele fez o primeiro pódio em etapas do Campeonato do Mundo, e chega a chorar. Eu tinha acabado a prova e pensado "ok, está feito". E quando vi o Ricardo fiquei muito mais feliz. Conseguir celebrar isso com ele traz muito mais felicidade para a minha vitória.
– Foi vice-campeão do mundo em 2020, depois de se ter ‘refugiado’ e ter mais tempo para treinar por não haver provas devido à Covid-19. Agora ‘fugiu’ para as montanhas durante oito semanas. É um processo que precisa de fazer?
– Acho que sim, acho que sim. Depois de ir viver para a Suécia, saí de casa aos 15 anos para ir para uma escola com uma equipa de triatlo muito forte. E foi aí que aprendi a distanciar-me e a estar um bocadinho mais sozinho para focar-me naquilo em que preciso de me focar. Isso correu muito bem na pandemia, quando estava obrigatoriamente fechado e longe de toda a gente - exceto a minha irmã, que esteve durante toda a Covid a treinar comigo. E desde esse momento, percebi que para o meu trabalho estar bem feito, preciso de estar na minha bolha. Não é uma forma em que possa viver durante muito tempo, nem acho que seja saudável, mas em momentos específicos, poder estar na minha bolha concentrado nas minhas coisas com as pessoas que importam para esse momento à minha volta
– Voltou a resultar agora.
– Sim. Eu sempre quis fazer isso para uma finalíssima, só que a finalíssima é no fim da época. É muito difícil ter dois meses sem competição. Este ano, o plano que fizemos correu muito bem. Tentámos competir ao melhor nível e as duas vitórias que tive no início da época, com os outros bons resultados, permitiram-me ter os pontos que necessitava. E pude focar-me a 100% na finalíssima, como se fossem uns Jogos Olímpicos. Ou seja, é uma prova, num dia. Fazer esse treino dessa forma dá-me muita confiança. Há pessoas que ganham confiança a competir mais e ter bons resultados. Para mim, saber que o treino está bem feito faz com que a ansiedade antes da prova seja muito menor.
– Andou sempre na frente, quando podia ter ficado na expectativa…
– Sim. Cheguei à prova, como viram, com a confiança em alta: ‘treinei tão bem, estou em tão boa forma, que aguento. Consigo ir muito mais longe, ir aos meus limites sem sofrer tanto". Ou seja, pode não estar a correr bem, mas tenho suficiente no tanque para cobrir a diferença. Aqui senti que consegui fazer uma prova 100% sob controlo.
– No final da prova nos Jogos disse que aquela tinha sido a prova em que tinha sentido mais pressão. Agora voltou a dizer o mesmo. Os resultados trazem cada vez maior pressão?
– Sim. E aqui tinha muito mais a perder do que com uma má prova nos Jogos. Em Paris eu queria muito, e a pressão vem sempre do querer, mas também eram os meus primeiros Jogos, não tinha tanto a provar. Neste momento, fui o número um durante um ano inteiro e havia a pressão toda de destruir o trabalho feito durante um ano inteiro. E é mais difícil lidar com isso do que eu pensava. Acho que é difícil explicar como é essa sensação. E foi muito importante para mim ter pessoas à minha volta que já passaram por isto, nomeadamente os meus treinadores.
– Têm muita experiência…
– Sim, com o meu título, já têm sete títulos mundiais. E compreendem isso. E compreender não quer dizer que haja um truque. Simplesmente, sabem que tem de haver espaço para o lado emocional e para lidar com o stress extra que vem. E tem de haver espaço para falar sobre o assunto. É fácil uma pessoa que está ao teu lado e quer ajudar dizer: "Ah, não penses nisso, é só mais uma prova." Mas não é só mais uma prova. E ter pessoas que percebem isso foi a chave. Mesmo eu descobri um lado novo dos meus treinadores, um apoio que nunca tinha tido. Exatamente por já terem passado por isto e saberem o quão difícil é. E também foi bom ver que era algo que eles queriam realmente. Ver como eles lutaram comigo para conseguir que chegasse nas melhores condições à finalíssima.
– Diz muitas vezes que é a pessoa que mais pressão coloca em si. Como é que vai ser agora lidar com o Vasco campeão?
– Honestamente, neste momento não sinto grande pressão. Sou campeão do mundo e não há nenhum mau resultado que vá destruir isso imediatamente. Aliás, tenho uma prova para o próximo fim de semana, que neste momento quase não estou a treinar! Portanto, não estou à espera de grande coisa. Quando começar o Campeonato do Mundo do próximo ano, quando vierem os Jogos Olímpicos, sem dúvida que será mais difícil.
– Por ser campeão do mundo?
– Porque já chegámos ao topo. E é muito mais fácil chegar ao topo do que mantermo-nos lá. Exatamente porque existe essa pressão. Porque a partir de agora, qualquer coisa que não seja ganhar... é mau. E a nossa vida é sempre assim. Agora sou campeão do mundo, se for segundo no próximo ano, já não é nada de especial. Mas faz parte e não tenho problemas com a pressão que vem com isso. Porque também sei a felicidade que isto já me trouxe. O título mundial fica para sempre. E quero enfrentar essa pressão no próximo ano. Quanto mais lidar com pressão, melhor vou chegar aos Jogos Olímpicos.
– Nunca escondeu ter a Vanessa Fernandes como ídolo. Ela também mostrou com o exemplo dela a parte má da pressão. Que ensinamento tira daquilo que ela passou?
– Ela não conseguiu dar a volta a isso e sofreu muito. Por isso é que eu digo: é muito importante ter as pessoas certas à nossa volta para nos ajudarem a lidar com tudo. E quando falo nas pessoas certas, eu tenho a minha família que quer muito ajudar-me. Mas não têm essa experiência. E ter pessoas que já passaram por isso e sabem qual a melhor forma de lidar, é fundamental.
– O treino mental é cada vez mais importante...
– Sim. Este ano comecei a trabalhar com um psicólogo desportivo, para me ajudar a chegar lá. E sei que é algo que nem todos os atletas fazem. Eu nunca tinha feito, e percebi a vantagem que traz. Ter alguém que consegue treinar o lado mental para uma situação destas é essencial. Nós passamos tantos anos a treinar o lado físico e toda a gente diz que o lado mental é importante, mas é tão raro trabalhar-se e treinar-se esse lado.
– A última pergunta desta entrevista foi feita pelo Ricardo Batista: qual o conselho é que o "pequeno homem português" tem a dar a quem quer ser campeão do mundo de triatlo?
– Se essa pergunta vem do Ricardo Batista, para ele ser campeão do mundo tem de continuar o que tem feito até agora... e depois tem de me ganhar a mim (risos).
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