Marítimo de Primeira: decalcar Miguel Moita de... Vítor Matos (mas só até certo ponto)
Parte IV — Criar a menor instabilidade possível
A sucessão de Vítor Matos é encarada com cautela. O perfil deve ser semelhante. Chega Miguel Moita. Antigo adjunto de Leonardo Jardim, o novo técnico apresenta conceitos mais pragmáticos e focados na organização coletiva, equilibrando mais o momento defensivo sem perder a forma de pressionar. Ao mesmo tempo, é alguém que «tem mundo e cultura, e era capaz de comunicar» com um grupo heterogéneo. Herda um plantel em posição privilegiada na classificação, mas que acusa o desgaste emocional pela partida repentina do anterior timoneiro. Seria injusto não sublinhar aqui o papel de Edgar Costa, antigo jogador e membro da equipa técnica, como ponte importante para as novas ideias. E até mediador. Tal como João Moura.
«Percebi imediatamente que estávamos num contexto diferente de mudança de treinador. Não fui pegar numa equipa que estava doente, mas sim numa sã, com vontade, ambição e um objetivo alto para conquistar. A minha ideia sempre foi potenciar essa união, esse espírito e não falar em subidas ou em ser campeão. Definiu-se isso muito bem com a direção: o ‘vencer jogo a jogo’. Senti que estavam muito contentes com o treinador que tinham antes. Foi quase como a saída do Rúben Amorim do Sporting. Como é óbvio, sou uma pessoa diferente, a minha liderança seria diferente e a forma de trabalhar também. Houve em alguns momentos ajustes da parte deles, houve outros da minha parte, porque também senti que não podia chegar ali e impor uma mudança radical. Sou alguém equilibrado que gosta de perceber o contexto em que está», analisa Miguel Moita para A BOLA.
Miguel Moita preocupa-se sobretudo com os desequilíbrios no momento sem bola. «Aquilo que percebemos foi que, apesar de terem uma energia contagiante na pressão e na reação à perda, deixavam muitos espaços nas costas e ficavam algo desequilibrados em determinados momentos. Logo na primeira semana, tentei não jogar com a linha defensiva a fazer muitas vezes a linha de fora de jogo, com muitos jogadores a levantarem o braço. Com a bola descoberta, uns andavam para a frente e outros andavam para trás. Tentei dar mais alguma estabilidade à linha defensiva, proteger as nossas costas para não termos tantas situações de um contra um com o guarda-redes. Acabámos por ficar com a melhor defesa do campeonato. Fomos sempre melhorando nesse capítulo e a equipa ficou mais estável para controlar os jogos e para ter mais situações de golo», esclarece.
A receita colheu frutos imediatos. Sob a nova gerência, o Marítimo arrancou com um triunfo por 0-2 na visita ao Portimonense, a 30 de novembro. Seguiu-se uma sequência de dez jogos consecutivos sem conhecer o sabor da derrota, permitindo consolidar de forma isolada a liderança.
Moita procura também incutir maior paciência e discernimento no momento de transição ofensiva. «A equipa recuperava de facto muito bem a bola, isso era fantástico. Mas muitas vezes o discernimento, quando a ganhavam de volta, não era o melhor. Tentei incutir um pouco mais de circulação e de calma para não darmos a bola logo ao adversário. A espaços melhorámos, mas nem sempre conseguimos ser coerentes. Aí entram também as características dos jogadores, um jogo que vinha de trás mais vertical, mais de profundidade. O treinador tem de perceber aquilo que tem em mãos. Não conseguimos alterar tudo porque a ideia de jogo não é só nossa. É nossa e dos jogadores que temos», reforça.
Parte V
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