Duarte Gomes: «Jamais voltarei a trabalhar com Luciano Gonçalves»
— Com esta entrevista pretende, pelo seu lado, encerrar o processo de toda esta turbulência na arbitragem?
— Passei três meses ligado a informações diárias que afetam não apenas os alegados visados e as suas famílias, mas também a família de quem tem, eu diria, a coragem de se chegar à frente. Este é o momento em que chega, em que se fecha este processo para mim. À justiça o que é da justiça. É-me completamente indiferente se no final desta história existirá acusação ou arquivamento. As motivações da minha saída foram muito claras e seriam exatamente as mesmas se tivesse que fazer o mesmo hoje. Perdi toda a confiança institucional no senhor presidente do Conselho de Arbitragem. Jamais voltarei a trabalhar com ele no futuro. Como sei que o contrário também será verdade, obviamente.
— E com Pedro Proença, voltaria a trabalhar?
— Há aqui duas esferas diferentes: o Pedro Proença, amigo do Duarte Gomes há 35 anos, e o sr. presidente da Federação Portuguesa de Futebol. A relação pessoal com Pedro Proença foi sempre metida numa caixa, uma parte que nós conseguimos, com a experiência de tantos anos de amizade, compartimentar muito bem. A relação com o sr. presidente da FPF fica beliscada, porque não me revi num conjunto de decisões que ele, legitimamente, tomou em relação ao tema. Eu teria feito muito diferente, mas lá está, sou parte próxima deste processo e poderei ter a visão afetada pela questão emocional. Acho que no futuro não me parece viável que voltemos a trabalhar juntos.
— Considera que Luciano Gonçalves deveria ter renunciado ou deveria ter sido demitido?
— O Duarte Gomes, se fosse presidente do Conselho de Arbitragem e tivesse sido colocado nesta situação, sobretudo se fosse inocente, teria suspendido o seu mandato, ter-se ia-afastado e teria deixado que a justiça fizesse o seu trabalho. Não por uma questão pessoal, mas para dar tranquilidade à arbitragem e para proteger o seu bom-nome.
— Conhecendo-os bem, como acha que os árbitros lidam com esta turbulência?
— Compreendo que seja muito difícil para eles, mas os árbitros também têm de perceber que têm um papel ativo na definição da sua liderança. Que princípios, valores e transparência esperam do seu líder? Obviamente que, se as coisas não estão bem, vai haver um momento em que algo vai rebentar. Ainda há pouco tempo falei no Apito Dourado como motivo comparativo. Não obviamente na dimensão e impacto no futebol, mas dizendo que uma tempestade não é necessariamente um mau sinal. Porque se a tempestade é inevitável, se ela vai acontecer a qualquer momento, então que aconteça o quanto antes. Só assim haverá possibilidade de recomeço.
— Como interpreta o silêncio da generalidade dos clubes? Os três ditos grandes posicionaram-se de uma ou outra forma, mas não se ouve muito mais clubes falarem sobre este tema...
— Não estava à espera, mas cada um sabe de si. Se eu fosse parte interessada de um processo em que alegadamente há um conjunto de alegações sobre promiscuidades que me pudessem afetar de algum modo, manifestava-me, nem que fosse para dizer ‘estamos atentos, queremos saber o que se passou, iremos acompanhar com atenção o desenrolar do processo, porque somos parte interessada, queremos saber se a verdade desportiva foi salvaguarda". É uma boa pergunta para fazer a quem de direito.
— Voltando ao início deste assunto, a verdade é que nos jogos em causa as notas dos árbitros são boas e o Estrela não vence. Isto fragiliza uma eventual acusação do Ministério Público?
— A eventual acusação é para quem tem essa competência. O que me dá muita, muita alegria é perceber que, de facto, os árbitros são e foram sempre terceiros de boa fé no meio disto tudo. E a prova é que, nestes casos alegados, não houve um nexo de causalidade desportivo. O que está em causa aqui é uma eventual relação questionável entre dirigentes. É importante perceber porque é que alguém alegadamente ligado a um clube insiste em mandar informações para árbitros num grupo de WhatsApp, dizendo que o presidente de determinado clube gosta do arbitro X ou do árbitro Y, porque sabe que eles são sérios e dão sorte. Porque é que alguém se dará ao trabalho de dizer isto? Porque é que alguém se colocaria nessa posição gratuitamente? Porque é que alguém faria esse papel? A troco de quê? Porque é que alguém diria tudo isto a um árbitro, a um conjunto de árbitros, ao longo da última época? Neste caso no tal grupo WhatsApp, muitas vezes por videochamada, outras vezes por mensagem escrita, várias pessoas viram, leram, gravaram, portanto, esta informação foi partilhada por todos os árbitros da época passada.
— Sente que houve um retrocesso em relação à tal bonança pós-Apito Dourado?
— Houve uma bonança emergente de uma tempestade. Houve um recalcamento dos maus da fita. Houve algum receio de se incorrer em ilícitos e houve ali uma espécie de separação entre quem é bom e quem é mau. E, portanto, houve muita paz. Neste momento não sinto que haja comportamentos irregulares por parte dos árbitros. Pelo contrário. Acredite. São honestos, empenhado, tenho-os a todos como pessoas sérias até prova em contrário. Acho que, a nível político, a arbitragem está longe de ter a transparência e forma de comunicar que se idealizou como a melhor. Os processos demoram tempo a encaixar, é certo, mas desistir não é opção. É preciso aprender a conviver com esta realidade cultural de uma forma que permita que, ao mesmo tempo, tenhamos uma evolução no setor. A arbitragem não beneficia com o silêncio total e isto está comprovado com décadas de experiência. Também não beneficia com uma abertura total, como cometemos o erro de tentar fazer a época passada. Beneficia com equilíbrio, moderação, aí sim, podemos fazer mais e melhor.
— O que podemos esperar de si, profissionalmente, nos próximos tempos?
— Não devo nada, rigorosamente, nada a ninguém. Vejo muita gente a dizer que está tranquila. Ainda bem. Mas uma coisa lhe garanto: quem realmente está de consciência tranquila é o Duarte Gomes. Quem vai para o travesseiro completamente tranquilo, sem qualquer problema de mostrar o que quer que seja em sede própria, é o Duarte Gomes. Como lhe disse, foram três meses muito difíceis e quero recomeçar rapidamente. Assim farei em breve, mantendo-me igual a mim próprio. Sigo em frente e quero de uma vez por todas desligar-me deste processo, a não ser em sede própria, se for chamado para isso. Espero que no meio disto tudo seja apurada a verdade. Se houver alguém para ser punido, que seja. Se houver alguém para ser isentado, que também o seja de forma clara. Desejo tranquilidade na arbitragem. Até o timing desta entrevista acontece entre jogos de seleções, para evitar pressão sobre os árbitros.